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Pedro Guimarães implementou um processo para ajudar à transformação digital centrada em pessoas

A Transformação Digital Centrada nas Pessoas

Hoje a transformação digital está cada vez mais em voga. Depois de mais de 15 anos a liderar a PACSIS, Pedro Guimarães mudou de rumo criando o projeto Doznstitches. Este projeto tem como finalidade apoiar as pequenas e medias empresas a seguir com a sua transformação digital centrada nas pessoas.

12 Sitches Plan é um processo de transformação digital centrado em Pessoas constituído por 12 passos com base em 4 quadrantes: Diagnosticar, Estruturar, Operar e Evoluir.

Ao fim de mais 23 anos decidiu sair da PACSIS. Porquê decidiu dar esse passo?

Porque, tendo tido o maior prazer e honra em ter feito parte dessa maravilhosa equipa, a qual tive o privilégio de liderar durante cerca de 15 anos, entendi que era o momento para abraçar outros projetos pessoais que já há muito tempo vinha adiando. Estávamos a encerrar um ciclo interno e prestes a começar um novo e era o momento ideal para esta mudança. As mudanças são sempre positivas, quer para as pessoas quer para as organizações, e desejando o maior sucesso para a empresa, tive então a oportunidade de me dedicar a desenvolver os referidos projetos.

Durante a 1ª onda da pandemia, várias iniciativas colaborativas surgiram na internet para resolver os problemas da escassez de recursos. A necessidade faz que a criatividade sobressaia?

A necessidade aguça o engenho, é um provérbio popular português, e foi novamente demonstrado nessa fase tão crítica. Acresce que é da natureza do povo português ser particularmente solidário e unir-se em redor de causas essenciais que exigem respostas fortes e rápidas. Na minha opinião foi isso que esteve na origem das iniciativas que refere. Pessoalmente, tive o privilégio de participar numa iniciativa fantástica, o Tech4Covid19.org, que em poucas semanas reuniu mais de 5500 voluntários de diferentes origens profissionais para procurar e implementar soluções para os vários problemas que a pandemia gerou. Foram semanas incríveis de imenso trabalho, mas simultaneamente de enorme prazer e realização pessoal, criando equipas de pessoas que literalmente não se conheciam e se reuniram de forma voluntária e apaixonada em redor de um mesmo propósito: encontrar soluções pela soma do seu talento, conhecimentos e competências. Desta forma foi possível gerar soluções altamente criativas e inovadoras resultantes da reunião de perspetivas muito diferenciadas, que foram canalizadas para a definição de projetos concretos, implementados de uma forma muito ágil e veloz.

Hoje como podemos caracterizar o “ecossistema” empreendedor português?

Diria que se pode considerar em crescimento, destacando duas dimensões: crescimento no sentido da expansão, ou seja, na criação de condições para que mais empreendedores se sintam motivados e apoiados para desenvolver as suas ideias, e também no sentido da maturidade, pois sendo em ecossistema relativamente jovem já integra vários casos de sucesso e tem atraído profissionais de outras origens altamente qualificados, que estão a ajudar a melhorar essas condições. Claro que ainda há um longo caminho a percorrer, mas de forma genérica julgo que devemos estar orgulhosos dos passos já dados que parecem apontar que vamos na direção correta. Nos rankings internacionais, Portugal e especialmente Lisboa, começam a figurar em posições de destaque, à escala europeia e até global, sendo olhado com cada vez maior interesse pelos operadores internacionais.

Temos em Portugal centros de empreendimento com a suficiente qualidade para fazer prosperar as novas startups?

Sim, há em Portugal uma oferta já bastante relevante nessa área, embora também nessa dimensão exista ainda o potencial de um enorme crescimento. Todo o ecossistema está em desenvolvimento, nas suas diferentes vertentes, empreendedores, incubadoras/aceleradoras, consultores, mentores, financiadores, ligação aos mundos universitário e empresarial, etc. Sendo um mercado, pequeno e periférico temos assistido a uma aceleração no seu desenvolvimento que deve ser elogiada, mas acima de tudo apoiada, para que possa tornar-se cada dia mais competitiva.

Tal como os Descobrimentos Portugueses, o atual empreendedor português tem essa vocação internacional? Será que tem essa alma de Descobridor?

Concordo, hoje a maioria dos projetos que vemos surgir nascem já com uma perspetiva transnacional ou até global. Julgo que além dessa matriz cultural, que fez do nosso povo um descobridor, mas, acima de tudo, um construtor de pontes entre diferentes culturas, nos projetos de maior base tecnológica é teoricamente muito mais simples ambicionar a uma escala muito maior. Um dos benefícios de uma economia mais digital é que derruba algumas das barreiras que tradicionalmente limitavam a capacidade de internacionalizar as nossas empresas. Contudo, é muito importante referir que nascer com ambição global é totalmente distinto de conseguir efetivamente fazê-lo.  

Vale a pena ser empreendedor em Portugal?

Claro que sim. Apesar dos (demasiados, e alguns absolutamente desnecessários, diria eu) constrangimentos do nosso mercado, vale sempre a pena tentar desenvolver e concretizar novas ideias de negócio, que acrescentem algo ao que já existe, e que por essa via sejam criadores de riqueza, preferencialmente de forma a aumentar a resiliência e sustentabilidade da nossa economia, e, portanto, do nosso país. Ser empreendedor significa ter a vontade de criar e fazer coisas; nesse processo surgirão seguramente muitas dificuldades, mas isso decorre da própria natureza do processo. Acredito firmemente que precisamos de mais empreendedores e que temos as condições suficientes para fazer vingar as nossas propostas. E esse é o único caminho para criarmos riqueza e podermos construir uma sociedade mais justa e equilibrada.

“Julgo que além dessa matriz cultural, que fez do nosso povo um descobridor, mas, acima de tudo, um construtor de pontes entre diferentes culturas, nos projetos de maior base tecnológica é teoricamente muito mais simples ambicionar a uma escala muito maior”

Pedro Guimarães, Fundador de Doznstiches

Um dos argumentos para seduzir o talento empreendedor estrangeiro a fixar-se em Portugal, é dizer que é um país com um excelente clima, boa comida e seguro. Estes fatores são suficientes para atrair esse talento?

São úteis, mas por si só não são suficientes. Não podemos posicionar o país como se fosse um bom destino de férias; nesse caso esses fatores mais os preços relativamente baixos, uma paisagem incrível e um povo acolhedor como o nosso seriam muito relevantes. Para atrair talento e investimento temos que evidenciar também outros fatores sem os quais será muito complicado consegui-lo. Destes destacaria alguns que já existem, como a qualidade dos nosso engenheiros, e dos cursos de engenharia, sermos um mercado pequeno mas reativo à inovação (o que facilita a validação rápida de novos conceitos), os custos de contexto competitivos no âmbito europeu e o facto de ser membro da UE, o que tem atraído quer cidadão britânicos pós-Brexit, quer de outras partes do mundo fora da UE. Existem, contudo, alguns ainda em desenvolvimento que quando forem alcançados seguramente irão aumentar a atratividade do país. Para além do aumento de maturidade do ecossistema (que trará também o aumento da atração de investimento externo, nomeadamente dos grandes investidores globais em startups), destacaria uma iniciativa lançada esta sexta feira pela Comissão Europeia, no contexto da Presidência Portuguesa da UE, chamada “EU Startup Nations Standard”, que pretende colocar a EU na liderança da atração de startups, à escala mundial, através da implementação das melhores práticas em todos os países membros. Uma consulta rápida desse documento dá pistas concretas de áreas em que temos que e podemos fazer avanços rápidos e muito impactantes.

As grandes cidades como Lisboa e Porto, os grandes centros populacionais de Portugal, são onde encontramos mais Startups. Não deveria haver uma política nacional que estimulasse mais o empreendedorismo em zonas de menor densidade populacional?

Claro que melhor política pública é sempre benéfico, seja em que área for. E sendo que no empreendedorismo não é exceção, não me parece que esse deva ser o principal caminho. Acredito que a iniciativa privada deve ter a capacidade de criar os seus caminhos de forma independente e estou certo que sempre que isso se fizer, e tiver como consequência aumento da riqueza, do emprego (especialmente o mais qualificado) e o a redução de desigualdades, as políticas públicas irão acompanhando. Na pergunta anterior referi uma iniciativa de política pública à escala europeia que considero da maior importância, por exemplo. Quanto à questão geográfica, é com grande satisfação que observo que fora de Lisboa e Porto existem hoje diversos polos de empreendedorismo com enorme vitalidade. Não sendo uma lista exaustiva hoje temos iniciativas fantásticas nesta área desde o Algarve a Trás-os-Montes e ao Minho (Braga é um excelente exemplo), passando pela margem sul de Lisboa, Leiria, Aveiro, S. João da Madeira, e tanto outros bons exemplos. São tudo iniciativas muito jovens, mas com uma enorme energia e vibração de onde já começaram a sair projetos muito interessantes, dos quais vários já têm escala nacional e até internacional.  

Com a digitalização da economia, as pessoas, os recursos humanos, deixaram de ser o centro da atenção?

Entendo que é exatamente o inverso, passaram a ser ainda mais o centro da atenção. Tecnologia são ferramentas, que nos permitem fazer coisas, que resolvem de forma nova, e melhor, problemas anteriores, ou problemas novos. Processos são a forma de fazer as coisas e resultados são o que resulta do que fazemos e como fazemos. As pessoas são o elemento central e comum a toda a atividade humana. Não existe atividade humana sem pessoas e são elas que constituem qualquer entidade, seja qual o seu tipo ou natureza. Acresce que é nelas que reside o “poder mágico” que cria e transforma todos os dias o mundo em que vivemos. Com a digitalização da economia, as tarefas mais rotineiras e de menor valor acrescentado passarão a ser cada vez mais automatizadas. Para alguns isto resulta na perceção de menor valor das Pessoas neste sistema. Para mim é o inverso, as organizações, e toda a sociedade, têm que se preparar para repensar o papel das pessoas e libertar o seu talento, colocando-o ao serviço do bem comum. Claro que isto tem implicações mais vastas, como por exemplo, repensar toda a Educação, mas o facto é que a revolução digital aumenta o valor das Pessoas e quem não o entender acabará por reduzir o valor da sua organização.

Então como devemos realizar corretamente a transição digital das empresas?

Na minha ótica são necessárias intervenções em quatro quadrantes. Começar por analisar o que é a empresa e o negócio hoje, o seu portfolio e processos. As suas forças, e fraquezas, as oportunidades e ameaças que encontra no mercado. E também as Pessoas, sejam elas a equipa interna e todas as equipas ao longo da cadeia de valor terminando nos seus Clientes ou Consumidores. O que necessitam, o que as move, como nos vêm, o que podemos fazer para aumentar a sua satisfação? A partir daí definir o que queremos ser no futuro, definindo um propósito, visão e missão inspiradores e agregadores e depois repensar o que temos que alterar para o atingir. Se necessário, repensar o próprio modelo de negócio. É também aqui que a tecnologia tem muita relevância, seja porque nos permite implementar novas formas de fazer as coisas, seja porque a relação das empresas com os seus clientes é cada mais realizada através de soluções digitais, desde a notoriedade até à venda do produto ou à prestação do serviço. O terceiro quadrante é a implementação faseada desta mudança, sempre medindo os resultados e estando disponíveis para entender o que necessário afinar e fazê-lo com velocidade e foco nas Pessoas. Implementar uma excelente Customer Experience é vital, mas para o otimizar temos que também implementar uma excelente Employee Experience. Porque é a nossa equipa que serve os clientes que fazem o nosso sucesso. O último quadrante, ou fase, é criar as condições para a organização permanecer em modo de mudança contínua, porque a mudança é uma viagem, não um destino. Aqui ressalto a importância de criar e gerir um ecossistema de suporte à organização, que deve estar alinhado com o propósito, a visão e a missão definidas. Acredito que as empresas com futuro mais sustentável são aquelas que conseguem criar esse ecossistema de entidades interessadas no seu sucesso e que por isso trabalharão para o facilitar. 

O que é a Doznstiches?

O doznstitches.com é o meu mais recente projeto, que oferece ao mercado uma solução para realizar um processo de transformação digital centrado nas pessoas, sob a forma de consultoria e formação. Quando olhamos para as estatísticas vemos que mais de 95% das empresas e 90% do emprego está fora do conjunto das grandes empresas. Estas grandes empresas possuem os meios humanos, técnicos e financeiros para apoiar os seus processos de mudança em grandes equipas internas e externas de consultores. Criei este projeto para ajudar a garantir que qualquer empresa, independentemente da sua dimensão ou sector, tem as condições para realizar um processo de transformação digital bem-sucedido focado naquilo que que considero que efetivamente é crítico, as Pessoas: internas, ou seja o talento disponível, e externas, os seus Clientes.

Como funciona o “12 Stitches Plan”?

O 12SP é uma metodologia que desenvolvi para efetuar um processo de transição digital centrado em Pessoas constituído por 12 passos com base nos 4 quadrantes que referi numa resposta anterior – Diagnosticar, Estruturar, Operar e Evoluir. Resulta da análise que fiz ao processo de transição digital que efetuei na minha anterior empresa a partir de 2010, integrando todas as minhas aprendizagens, incluindo os erros cometidos, melhorado por todas as minhas experiências posteriores. Cada um dos 4 quadrantes divide-se em 3 passos e no final deste processo a organização terá implementada a sua transição digital, que como referi será um passo decisivo, mas não definitivo, do seu processo de mudança. Esse começa e acompanhará a organização ao longo de toda a sua vida. Do ponto de vista prático, para cada passo existe uma sessão inicial de indução e depois a equipa interna da empresa irá efetuar um conjunto de análises e tarefas, utilizando ferramentas que disponibilizamos, para implementar esse passo, ocorrendo sempre um fecho de cada passo após o qual se inicia o passo seguinte.

Como podemos contribuir para uma transformação digital que seja mais justa, mais humana e mais solidária? Ou será uma utopia?

Prefiro dizer que a transformação digital que já vivíamos, e que foi muito acelerada pela recente pandemia, deve ser aproveitada por todos para darmos passos decisivos para criarmos uma sociedade mais humana, justa e solidária. Sabemos que a Natureza tende para o equilíbrio e pela História, que os grandes desequilíbrios geram convulsões que, muitas vezes após grande sofrimento, acabam por criar novos equilíbrios. Hoje julgo ser consensual que vivemos uma fase em que vários desequilíbrios sociais e económicos são já visíveis, isto para não falar daquele que será seguramente o próximo (e esperemos que não seja o último) flagelo, as alterações climáticas. Em simultaneamente nunca tivemos tanta capacidade técnica e de investigação em todas as áreas da Ciência. Já temos diversos exemplos de novos modelos de criação e distribuição de riqueza, novos formas colaborativas de atingir objetivos, avanços na redução de desigualdades com projeto de impacto social, e intervenções de e para países tipicamente considerados não desenvolvidos. Uma transição digital bem-sucedida, em uma escala mais alargada, permite realizar o mesmo que hoje conseguimos, mas com menos consumo de recursos não renováveis, reduzir desperdícios e aumentar a economia circular e acima de tudo, não olhar para as pessoas como uma parte do problema, mas como os possuidores do talento que permite criar as soluções. Assim conseguiremos criar uma sociedade onde todos queremos viver e onde todos podemos prosperar. E está apenas à distância de unir as vontades de todos. Será uma utopia? Talvez, mas a alternativa a não a tentar alcançar é seguramente muito pior.

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