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O coração de Malaca está no Bairro Português de Malaca. Entrevista a Luísa Timóteo, presidente da Associação Cultural Coração em Malaca

Coração em Malaca a funcionar desde 2008

Os grandes projetos não se medem somente pela sua dimensão material. A imaterialidade da alma e dos sentimentos que brotam das nossas ações têm uma importância crucial. O grande trabalho desenvolvido pela Associação Cultural Coração de Malaca e pela sua presidente, Luísa Timóteo, falam por si. Há um grande coração em Malaca!

O seu soft power conseguiu que a diplomacia portuguesa tivesse a atenção necessária para nomeação do seu Cônsul Honorário em Malaca, de modo a apoiar os lusos-descendentes no Bairro Português em Malaca, e ajudar a melhorar as relações entre os governos de Portugal e da Malásia. Esta comunidade de luso-descendentes foi estabelecida no século XVI a quando da conquista de Malaca por Afonso de Albuquerque.

A Associação Cultural Coração em Malaca (ACCM) foi fundada em 2008. Que balanço faz de todos estes anos de actividade?

A Associação Cultural Coração em Malaca, foi fundada em 12 de Junho de 2008, em homenagem ao Senhor Patrick Da Silva, Luso-descendente de falecido em 2006, mas nunca esquecido. O Patrick era um dos líderes mais distintos da comunidade do Bairro Português. Serviu incansavelmente a sua comunidade durante quase 40 anos. Muito interessada em estudar, aprofundar e manter viva a cultura Luso-descendente, foi o principal co-autor do primeiro Dicionário de Kristang (crioulo português falado em Malaca). O seu trabalho ainda virá a dar frutos…bem como “uma compilação de todos os trabalhos que deixou escritos mas que não teve tempo, nem apoios, para publicar”.  Tudo faremos e acreditamos honrando Patrick, um líder cultural importante e querida da comunidade. Um grande amigo.

Sendo o Dia de Portugal, festejado a 10 de Junho, na Tailândia, só foi possivel a presença do Embaixador Português em Banguecoque, José Tadeu, nas comemorações na Malásia,  onde o Rei e os Sultaes,  festejaram o dia de Portugal, Camões e das Comunidades Portuguesas,  a  12 de Junho do ano 2002. Assim, aludindo ao dia e ao Mundo Português, Patrick,  deixou um poema escrito em Kristang,

O poema do Patrick  reflete, exata e verdadeiramente, o sentimento do que é fazer parte desse belo Mundo Português!

Ozi doze di Jun                                                             Hoje doze de Junho

Dia di Portugal                                                             Dia de Portugal

Selebrasang di tudo genti                                       Celebração de toda a gente

Di nasanhg ki teng igual                                             De nações iguais

Korsang cheu di saudade                                           Coração cheio de saudade

Ki nos acha juntu                                                         que nos une

descendente di isti nasang                                       descendesta desta nação

Na isti parti di mundo                                                 nesta parte do mundo

Tantu tempu jah passa                                              Tanto tempo já passou

Mas, korsang nunca skiseh                                       mas o coração não esquece

Kustimi, relijiang ki nus jah resebek                       Costumes, religião que recebemos

Logu guarda ati murek                                               são logo guardadas até à morte

Salva, Deus Salva Kum Terra di Portugal               Salva, Deus Salva a Terra de Portugal

Salva, Deus Salva Kum Terra di Portugal               Salva, Deus Salva a Terra de Portugal

                                            PATRICK  DA  SILVA (12 de Junho de 2002)

As muitas atividades  da Associação Cultural Coração em Malaca – ONGD Korsang Di Melaka, após consulta aos Líderes da Comunidade do Bairro Português de Malaca,  realizadas em Malaca, em Portugal, divulgadas ao mundo, tendo em vista:

-a preservação de um valioso património de origem portuguesa;

-desenvolver e fortalecer laços entre as comunidades luso-descendentes;

-divulgação da esquecida Comunidade “Portugueses de Malaca” ligando-a a Portugal e às restante comunidades falantes de português e crioulo;

Um balanço positivo de resgaste da cultura de origem portuguesa espalhada pelo mundo, que se pretende não deixar morrer,  como verdadeiro e maior tesouro resultante dos Descobrimentos Portugueses.

A comunidade do Bairro Português de Malaca, tendo em consideração que os define “portugueses de Malaca,

     – Ser cristã;

     – Falar um crioulo de origem portuguesa;

     – Possuir grupos folclóricos que dançam e cantam música portuguesa e trajam com sinais evidentes de

       ligação afetiva e patrimonial a Portugal;

     – Demonstrar práticas culturais de ligação afetiva e patrimonial a Portugal.

Ao longo dos tempos a comunidade tem mostrado ter um historial de reivindicação de valores e argumentos para a sua autonomia e diferenciação no conjunto dos povos da Malásia (Conferência “Save Our Portuguese Heritage Conference, 1995, Malacca, Malaysia, compiled and edited by Gerard Fernandis) bem como a classificação de Malaca (Melaka) como património da humanidade atribuído pela a UNESCO em Julho de 2008 (que refere e inclui especificamente a comunidade luso-descendente).

Noel Félix e o grande coração de Malaca

O Bairro Português de Malaca durante todos estes anos também teve a sua transformação. Alguns dos seus líderes já não estão entre nós. Um deles foi Noel Félix. Que importância teve Noel Félix para esta comunidade de luso-descendentes?

Muitos líderes ao longo dos tempos são lembrado, passados  mais de quinhentos anos após chegada de Afonso de Albuquerque, como heróis da preservação da herança recebida e passada de gerações.

Juntamos a recente perda dos últimos líderes do Bairro, que visitaram Portugal em 2009 e 2010, Noel Félix e Manuel Lazaroo (Papa Joe) que a Associação acolheu e deu a conhecer que Malaca não é do passado, mas sim do presente que nos devemos orgulhar.

Não é possível descrever as emoções e o acolhimento dos portugueses que com eles partilharam a mesma cultura de irmandade. Deixaram a mensagem que Portugal é o berço da sua nação / Malaca.

Recordo da última e única vez que estive com ele em 2009, junto à sede do Instituto Camões em Lisboa, ele disse-nos em inglês “I am proud to be Portuguese”. Porquê esse orgulho de ser português, depois de tantos séculos de esquecimento por parte do Estado português?

Noel Félix falava português com orgulho, tal como falava crioulo, mas repetia com insistência que era urgente aprender português na escola com o apoio de Portugal, mantendo o Papiah Português como identidade de Malaca onde tudo começou “o reencontro dos povos de todas as partes do mundo”. Será sempre lembrado pela dedicação às suas raízes, pela amizade e respeitado por toda a comunidade.

Escola Portuguesa de Malaca

Na primeira edição da Raia Diplomática em 2009, Noel Félix escreveu o seguinte “É urgente criar uma escola portuguesa, ensinando a língua portuguesa, manter também a língua-mãe crioula de origem portuguesa”. Já existe a escola portuguesa em Malaca?

O projeto Povos Cruzados, da Associação Coração em Malaca – ONGD Korsang Di Melaka, apresentado em Junho de 2009 no auditório do Instituto Camões, deu a conhecer tudo o que foi planeado, após consultar os líderes da Comunidade do Bairro Português de Malaca, relevando a criação da escola em Malaca ensinando português e a língua  mãe Crioulo de origem portuguesa. Só Portugal o pode realizar, como continuidade dos colégios do tempo do tempo dos portugueses. Apesar da parceria estabelecida entre a ACCM e o Instituto Camões, os bolseiros Fernão Mendes Pinto, no apoio à comunidade ensinam português através de contação de histórias, jogos, teatro, danças, canções, concursos de poemas e outras atividades organizadas no terreno. Não substituindo o ensino que exige professores estáveis por ano escolar.

O trabalho da Associação Cultural Coração em Malaca (ACCM) e da sua presidente, Luísa Timóteo, é mais que meritório. Graças a vocês a causa dos “portugueses de Malaca” está viva. Que apoios recebe a ACCM das entidades oficiais de Portugal?

O apoio de entidades oficiais de Portugal: Duas bolsas do Instituto Camões, que se destinam aos bolseiros programa / FMP, que permite no terreno, as mais diversas ações, sendo estas coordenadas pela ONGD, prestando contas através de relatórios.

Que projetos da ACCM estão em marcha em Malaca?

Os projetos que nos envolvemos com a comunidade:

 -Ensino da Língua, para o qual, concluímos o Manuel Trilingue / Bos podi papiah ku yo?  

– Requalificação do Museu do Bairro, que inclui a catalogação já entregue como proposta de apoio da  Fundação Oriente.

– Auxiliar a Comunidade Portuguesa de Malaca  no desenvolvimento de registo do Património Cultural, uma exigência decorrente da classificação como património da Humanidade.   

E para o futuro?   

No futuro próximo:

– Que a Comunidade de Malaca seja o elo agregador das comunidades luso descendentes na Àsia, visando a forte presença portuguesa como testemunho e colaboração das Conferências realizadas em Malaca, em 2016 e 2019 que falam  a mesma língua / crioulo de origem portuguesa, as quais devem ser dadas as mesmas oportunidade de programas e projetos de cooperação e desenvolvimento. Inclusão na CPLP de todos os falantes de crioulos de origem portuguesa.

O Cônsul Honorário de Portugal em Malaca

Uma das consequências do vosso extraordinário trabalho, é que agora Portugal já tem um Cônsul Honorário em Malaca. Em que sentido a existência de um Cônsul Honorário pode ajudar no desenvolvimento dos laços entre os “portugueses de Malaca” e os “portugueses de Portugal”?

O Consulado Honorário de Portugal em Malaca, foi sem dúvida uma insistência junto do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal e da Embaixada de Portugal na Tailândia.

Malásia com o falecimento do Honorável Cônsul  Honorário de Portugal em Kuala Lumpur,  Eugénio António da Luz Campos, nascido em Timor-Leste, filho de pai português e de mãe timorense, ilustríssimo cidadão da Malásia, condecorado por o Governador de Malaca (Datuk) e por o Rei da Malásia (Tan Sri). Estabeleceu as melhores relações de proximidade entre Malaca/Malásia e Portugal. Diplomata atento, extremamente generoso, um homem de palavra, muito empreendedor.  Um perda e um vazio para ambas as partes.

Malaca/Malásia recebe um elevado turismo, que procura as instâncias diplomáticas, informações, encaminhamento, e ajudas diversas. Por  vezes são solicitadas a Associação Coração em Malaca, que presta a maior atenção e responde. Recebemos boas noticias da receção da comunidade do Bairro o que nos orgulha. Aguardamos que o consulado de Malaca seja o garante da diplomacia entre as partes, dando resposta ao diverso turismo de Malaca / Malásia e à UNESCO.

Bandeira da Malásia

Há muitos anos que a diplomacia portuguesa virou “costas” à herança portuguesa do Oriente. Não se compreende que Portugal não tenha embaixadas em países que tiveram uma forte presença lusa durante os Descobrimentos Portugueses. E não falo somente da Malásia. Também podemos falar do Sri Lanka, de Omã, só exemplificar alguns países. Falta-nos desenvolver o “soft power” , o poder de influência?

Concordo que o esquecimento da influência da Herança Portuguesa no Oriente, causando danos irreparáveis, sofrimento, perseguições e morte, que deixaram  mais pobres as comunidades Luso-descendentes, (falantes de português) fora da CPLP, sem oportunidades de conhecimentos, de projetos comuns para o seu desenvolvimento. Foram obrigados a ficar nas mais diversas localidades onde foram acolhidos, após a  saída dos portugueses. Mas  perderam a alma da SUA identidade lusófona.

Todos não somos muitos, para nos juntarmos a esta causa que devemos defender, a inclusão na CPLP,  bem como  a criação de Embaixadas  ou Consulados de Portugal quer na Malásia, e nos Países da presença Portuguesa.

Como são os “portugueses de Malaca” no seu dia-a-dia?

São pessoas confiantes nos seus antepassados , que herdaram atá aos dias de hoje, a saudade das suas origens, que guardam  e passam de geração em geração. Alegres, transmitem o que sabem da sua cultura  de uma forma enternecedora. 

Acolhem e partilham com toda as pessoas que visitam o Bairro, onde se pode confraternizar sem pressa, ouvir histórias, da comunidade que afirma, nós existimos aqui, porque  Albuquerque também existiu.

Que outras curiosidades pode contar-nos sobre o Bairro Português de Malaca?  

Quando recebemos os grandes líderes em Portugal, o sinal que indicamos para nos identificar foi uma bandeira da Malaca,“Noel Félix” no ano seguinte “Manuel  Lazaroo”. Demos conta que se juntaram à chegada muitas pessoas curiosas de os conhecer e ficaram à conversa .

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