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Tributo a Isabel Mijares, a nossa Madrinha

De uma forma inesperada a nossa Isabel Mijares “abandonou-nos” e o mundo vitivinícola ficou mais pobre, muito mais.

O nosso mundo actual é geralmente caracterizado na sua parte mediática, pela rapidez da informação e pela superficialidade nas relações humanas. Essa ânsia de ter mais “likes”, mais “visualizações”, mais audiências, é protagonizado por indivíduos cheios de futilidade, “armados” por frases feitas, e até munidos pela boçalidade têm a sua disposição um enorme palco para a sua representação.

Isabel Mijares era tudo ao contrário. Era uma grande enciclopédia da cultura do vinho, uma impressionante e inolvidável comunicadora com um humor muito refinado, e sempre disponível para ajudar o sector vitivinícola espanhol e de outras partes do mundo.

Conheci Isabel Mijares em 2019 num evento sobre vinhos portugueses organizado pela AICEP Espanha (o único convite que fizeram à Raia Diplomática), e o primeiro impacto que tive com a grande “Dama do Vinho” espanhol e a primeira enóloga de adega de Espanha foi sentir ao vivo a personalidade de uma grande figura histórica.

À nossa madrinha, à primeira pessoa que se preocupou pela Raia Diplomática, vamos recordá-la com os grandes momentos que nos proporcionou, e foi uma emoção e um orgulho de conviver com uma personalidade tão grandiosa como foi a nossa Isabel

Nas homenagens feitas o título póstumo à nossa Isabel, é sempre esquecida a sua ligação a Portugal, sendo ela uma orgulhosa extremenha.

Na sua primeira entrevista à Raia Diplomática falava de Portugal com grande emoção: “para nós Portugal nunca foi um país estranho, quase podia dizer que para os extremenhos sempre sabíamos o que era Portugal”. Inclusivamente nessa entrevista demonstrou o seu desejo de criar uma associação de mulheres ibéricas.

Uma das atitudes que mais surpreendeu-me foi quando nas primeiras semanas do confinamento devido à pandemia, recebi uma mensagem sua a perguntar-me pela Raia Diplomática. Quando todos comunicavam via online com as suas famílias e amigos, Isabel também incluía a Raia Diplomática dentro desse círculo restrito.

Posteriormente e por sua iniciativa introduziu-nos no mundo do vinho, e com a sua grande ajuda lançamos uma guia gastronómica online para ajudar as empresas do sector.

Para quem assistiu aos nossos eventos sabe que a Isabel era uma protagonista fundamental para o êxito das nossas actividades, pois terminávamos quase sempre com as suas magistrais “catas” de vinhos.

Assumidamente feminista, à sua maneira, “desmanchava” os nossos convidados com expressões que não esqueceremos como: “el hombre es un mal deliciosamente necesario”.

Estávamos de acordo em muitas coisas, outras já não tanto. Um vez eu e a minha mulher convidamos a ela, ao seu marido e uma amiga em comum, a Verónica Fernández de Córdova para jantar um bacalhau português ainda na época do confinamento parcial. A grande chefe do vinho espanhol escolheu um vinho branco Marqués de Riscal para acompanhar o nosso bacalhau à braz. Para um português essa harmonia é muito estranha, porque a nossa tradição exige um bom vinho tinto. Mas claro como a nossa enóloga maior dizia: “cada um deve harmonizar conforme o seu gosto”.

Só temos que agradecer todo o seu carinho que nutria pela Raia Diplomática, pelas suas magistrais “catas”, pois afinal os nossos eventos também tinham muito a marca da Isabel Mijares.

À nossa madrinha, à primeira pessoa que se preocupou pela Raia Diplomática vamos recordá-la com os grandes momentos que nos proporcionou, e foi uma emoção e um orgulho de conviver com uma personalidade tão grandiosa como foi a nossa Isabel.

Vamos ter muitas saudades tuas Isabel!

Bruno Caldeira

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