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Racismo em Portugal é uma Questão de Estado

Portugal durante a sua História quase milenária (881 anos, considerando o ponto de partida a assinatura do Tratado de Zamora em 1143), foi lugar de convivência de muitos povos de origem celta, de outras partes da Europa e de África, os Romanos, os antigos gregos, fenícios, árabes, entre outros.

Este “melting pot” civilizacional deu lugar como tempo à criação do seu Estado-nação.

O início mais significativo da emigração portuguesa teve lugar com os Descobrimentos Portugueses. Esta foi a época mais gloriosa dos portugueses foi caracterizada pela ousadia e coragem de descobrir o desconhecido com os seus heróis e vilões.

Sim, heróis que “deram novos mundos ao mundo”, que desenvolveram e deram uma nova cultura às terras descobertas e conquistadas. E vilões que não dignificaram a condição humana com o exercício dos negócios da escravatura que era consentida pela sua sociedade e pela Igreja Católica.

Consta-se que actualmente haja mais de 5 milhões de portugueses a viver no estrangeiro. É um número impressionante já que a população residente em Portugal se cifra em pouco mais de 10 milhões.

Apesar de todos os abusos inerentes aos Impérios, os portugueses tiveram a capacidade de misturarem-se com as populações autóctones através de casamentos e a criação de novas culturas, misturando elementos lusitanos com as populações locais. Exemplos dessa interculturalidade é o que ocorre em Macau onde um dos seus pratos gastronómicos é acompanhar o bacalhau português com…arroz.

Com a descolonização e o fim do Império Português após o 25 de Abril de 1974, Portugal recebeu muitos retornados e africanos (cerca de 800 mil em pouco anos), o que vieram dar uma nova perspectiva à fechada sociedade portuguesa daquele tempo. Recordar que nas antigas colónias africanas de Portugal havia um pouco mais de liberdade que na própria metrópole.

Falar de racismo não é uma coisa menor em Portugal, é uma questão de Estado

Bruno Caldeira

Em geral os portugueses sempre foram excelentes anfitriões para todos aqueles visitam o seu país. Porém, nos últimos anos muitos imigrantes buscam novas oportunidades de vida em Portugal, o que veio a alterar um pouco a caracterização social. E este facto é aproveitado por uma pequena parte da população ressabiada e dos partidos de extrema-direita que observam esse descontentamento social e a degradação das condições de vida um caminho fértil para o seu crescimento.

A ânsia do poder de alguns partidos levou até ao antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho a ter nos seus discursos da vigente campanha eleitoral para a Assembleia da República, declarações menos abonatórias para com os imigrantes.

Sabemos que o medo e a tendência de culpar o estrangeiro que “rouba” os empregos aos seus nacionais, ou que não quer de assimilar a cultura do país de acolhimento são armas políticas que são usadas eleitoralmente. A gravidade desta situação é ser feitas por membros de um partido que já foi por várias vezes governo.

A verdade é que o racismo e o destempero verbal em Portugal está a ter algumas implicações políticas e sociais, mas há uma componente que ninguém fala que é a geopolítica e o prestígio de Portugal no Mundo.

Até agora há a percepção que Portugal é um país tolerante e que sabe acolher bem os que vêm de fora. Se porventura a dita comunidade internacional vê Portugal com outros “olhos”, o seu posicionamento no mundo será afectado.

Um dos grandes feitos diplomáticos de Portugal é ter nacionais seus à frente de grandes organizações internacionais.

O secretário-geral das Nações Unidas é possivelmente a personalidade mais relevante e mediática das organizações supranacionais, que actualmente é exercido pelo português António Guterres. Há uns anos a presidência da mesa da assembleia-geral das Nações Unidas teve como presidente Diogo Freitas do Amaral, e para não falar da presidência da Comissão Europeia de Durão Barroso.

Em termos do seu posicionamento nas organizações internacionais, os portugueses têm tido um sucesso muito apreciável, visto que é um pequeno país no extremo ocidental da Europa.

Todos estes feitos diplomáticos são vitórias para o seu melhor posicionamento internacional, que lhe dão prestígio, possibilidades de ter mais oportunidades de negócio e de visitantes (turismo).

Falar de racismo não é uma coisa menor em Portugal, é uma questão de Estado.

Portugal deve assumir tudo de bom que fez com os seus Descobrimentos Marítimos, e também assumir o mau que fez sobretudo com a escravatura. E perante esta situação Portugal deve reforçar a cooperação internacional com os países que outrora teve activamente a exercer o seu poder de potência dominante.

A nível interno deve combater o racismo com a educação (algo que faltou fazer), retirar o ruído dos ambientes mediáticos. Mas também sabemos que o racismo não desaparece simplesmente com a educação e com a cultura. A nível jurídico deve proteger os ofendidos e endurecer a sua acção com os prevaricadores: Sed Lex Dura Lex.

Devido à incompetência dos sucessivos governos no que concerne à manutenção saudável da estrutura demográfica do país, os estrangeiros devem ser muito bem-vindos para segurança social portuguesa.

Termino este pequeno pensamento com uma observação sobre a liberdade de expressão, ou melhor sobre o totalitarismo dessa liberdade de expressão, que é defendida por muitos grupos ou personalidades de tendência mais extrema. Obviamente que o valor da liberdade expressão deve ser defendido, até que esse valor colida com a dignidade do ser humano e dos grupos sociais mais vulneráveis.

Bruno Caldeira

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