A recente visita oficial do Primeiro-Ministro português, Luís Montenegro, à China trouxe consigo sinais de renovação nas relações bilaterais, tanto no plano diplomático como económico. Entre as principais conclusões destacou-se a decisão de reativar a Comissão Mista Macau-Portugal, cuja próxima reunião está prevista para 2026. Este mecanismo, já registado nos arquivos diplomáticos, assume particular relevância ao devolver a Macau o seu papel estratégico como plataforma de ligação privilegiada entre Portugal, a China e o espaço lusófono, depois de um período em que esta função esteve menos ativa. No campo económico, foi igualmente alcançado um alinhamento de alto nível quanto à visão estratégica de cooperação, com destaque para as áreas da transição verde e digital, pilares centrais para o desenvolvimento sustentável e a competitividade futura. Para compreender melhor o impacto e as perspetivas destas decisões, conversámos com Bernardo Mendia, Secretário-Geral da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Chinesa (CCILC), que partilha connosco a sua análise e visão sobre esta nova etapa das relações luso-chinesas.
Qual é o balanço geral que faz da recente visita oficial do Primeiro-Ministro Luís Montenegro à China e quais foram, a seu ver, os principais resultados políticos e económicos desta deslocação?
A visita oficial do Primeiro-Ministro Luís Montenegro à China constituiu um momento de consolidação estratégica da parceria bilateral, que celebra vinte anos desde o seu estabelecimento. O balanço global é francamente positivo, marcando uma transição de uma relação histórica e diplomática para uma fase de execução prática e concreta. Em termos de resultados políticos, o marco mais significativo foi, sem dúvida, a reactivação da Comissão Mista Macau-Portugal, que se reunirá em 2026. Este mecanismo, conforme documentado nos arquivos diplomáticos, visa devolver a Macau o seu papel operacional como plataforma de ligação privilegiada, um desígnio que estava algo adormecido. Adicionalmente, registou-se um alinhamento ao mais alto nível sobre a visão estratégica para a cooperação económica, com ênfase nas transições verde e digital. Do ponto de vista económico, a visita serviu não apenas para consolidar a confiança dos grandes investidores chineses já presentes em Portugal, como a CTG (energia), a Fosun (conglomerado), o Haitong (banca de investimento), a China Construction (construção) e a State Grid (redes energéticas), mas também para dar um impulso decisivo a projectos emblemáticos. A instalação da gigafactory da CALB em Sines, um investimento avultado na área das baterias para veículos eléctricos, funciona como um sinal potente para o mercado, transmitindo o compromisso de Portugal com os seus parceiros e a estabilidade do país como destino de Investimento Directo Estrangeiro de qualidade, o que por sua vez se coaduna quer com os padrões de qualidade da Comissão Europeia, quer com as linhas de desenvolvimento futuro da Faixa e Rota Chinesa.
De referir também que estas visitas são sempre extremamente importantes para a comunidade portuguesa, com especial relevância, claro está, na RAEM, na medida em que o Primeiro-Ministro pode transmitir ao poder local as principais preocupações dos cidadãos. Têm igualmente uma dimensão cultural relevante, como ficou patente na visita à Escola Portuguesa em Macau. Finalmente, merece destaque o otimismo demonstrado pelo Primeiro-Ministro relativamente à procura de uma solução para as restrições à residência de portugueses em Macau, um tema central para a comunidade e que poderá beneficiar de avanços futuros no quadro do diálogo bilateral.
Que medidas ou compromissos concretos emergiram desta visita que possam ter impacto direto no relacionamento económico entre Portugal e a China?
Para além da reactivação da referida Comissão Mista, a visita permitiu extrair compromissos tangíveis. Um dos mais relevantes é o aprofundamento da cooperação triangular China-Portugal-CPLP, que utiliza Macau como seu hub natural, nomeadamente através da mobilização do Fundo de Cooperação e Desenvolvimento aí sediado. Outro compromisso assenta na exploração de oportunidades muito concretas nos vectores de crescimento futuro: os sectores verdes, como o hidrogénio verde, as energias renováveis offshore e a mobilidade eléctrica, e os sectores digitais, como a saúde digital, o comércio electrónico e a cibersegurança. A intenção, conforme sublinhado pelas declarações oficiais, é focar em projectos mensuráveis e com impacto real, afastando-se de declarações de intenções genéricas.

Como avalia o estado atual das relações comerciais luso-chinesas e quais são hoje os maiores desafios e oportunidades nesse âmbito?
O estado actual da relação sino-portuguesa é de uma maturidade notável. Evoluiu de um comércio tradicional de bens para um ecossistema complexo de investimento estratégico, caracterizado por capital paciente e de longo prazo, injectado em sectores vitais da economia portuguesa, como a energia, as finanças e a saúde. Contudo, subsistem desafios significativos, que devem ser rapidamente endereçados de forma isenta. O principal prende-se com a navegação no complexo contexto geopolítico global, que por vezes introduz elementos de tensão. É crucial que o quadro regulatório português, nomeadamente na transposição de directivas europeias sensíveis como a Directiva de Cibersegurança (NIS2), o faça de forma técnica, proporcional e não discriminatória, sem colocar a liberdade empresarial em causa e sem obliterar o direito ao contraditório, evitando criar insegurança jurídica que dissuada o investimento. Por outro lado, a complexidade e a dimensão do mercado chinês continuam a ser uma barreira intransponível para muitas PME portuguesas. Do lado das oportunidades, abre-se a possibilidade de Portugal se posicionar de forma única no panorama europeu: uma plataforma euro-atlântica de confiança para indústrias limpas e digitais, servindo simultaneamente de hub para as cadeias de abastecimento chinesas e de ponto de acesso privilegiado aos mercados europeu e lusófono.
Quais considera serem os principais fatores de atratividade do mercado português para as empresas e investidores chineses?
Portugal apresenta um conjunto de vantagens competitivas que o tornam num destino apetecível para o investimento chinês. A primeira é o capital histórico de cinco séculos de relacionamento e o segundo é a credibilidade comprovada. Efectivamente, o sucesso da integração e da rentabilidade de investimentos anteriores, casos paradigmáticos da EDP, da REN e da Fidelidade, prova a seriedade e a estabilidade do país. A terceira é a sua posição geográfica e geopolítica privilegiada, funcionando como uma porta de entrada natural para o Mercado Único Europeu e, simultaneamente, como uma plataforma de ligação privilegiada aos países da CPLP. Um quarto factor reside no seu capital humano, oferecendo uma mão-de-obra altamente qualificada a custos competitivos quando comparada com a média europeia. Finalmente, existe um alinhamento estratégico claro: o foco nacional nas transições verde e digital espelha perfeitamente as ambições e as capacidades tecnológicas da China, criando um terreno fértil para parcerias.
Em contrapartida, que setores da economia chinesa oferecem maior potencial para a inserção e crescimento das empresas portuguesas?
As empresas portuguesas podem encontrar nichos de oportunidade em sectores específicos do mercado chinês. O comércio electrónico, tanto B2C como B2B, é uma via promissora para a exportação de produtos portugueses de qualidade superior, como vinho, azeite, cortiça e têxteis-lar, através da sua presença em plataformas dominantes como a Tmall Global ou a JD.com. A saúde digital e a biotecnologia representam outra área de cooperação frutífera, nomeadamente em medicina electrónica, dispositivos médicos e soluções inovadoras para a economia sénior, um segmento em rápido crescimento na China. Por fim, os serviços de engenharia e consultoria de empresas portuguesas, com o seu know-how em standards e regulamentações europeias, são valiosos para participar em projectos de infra-estruturas verdes e smart cities na China ou em parcerias triangulares com países terceiros, nomeadamente os de expressão portuguesa.
Tendo em conta a dimensão e a competitividade do mercado chinês, que estratégias julga mais adequadas para as empresas portuguesas que pretendem internacionalizar-se para este destino?
A entrada no mercado chinês exige uma estratégia ponderada e realista, adequada à realidade de cada empresa. A regra de ouro é evitar entrar sozinho. A constituição de parcerias ou consórcios, através de joint-ventures com empresas chinesas ou europeias já estabelecidas, pode ser uma via para mitigar riscos. É imperativa uma abordagem granular; a China não é um mercado único, mas um conjunto de mercados regionais distintos. As empresas devem focar-se em regiões ou clusters industriais específicos. A participação activa em feiras chinesas de grande escala, como a Feira de Cantão, a China International Import Expo (CIIE), ou a Macao International Fair (MIF), é importante para ganhar visibilidade e conhecer potenciais parceiros. Instituições como a CCILC oferecem serviços de apoio inestimáveis para este fim. Acima de tudo, é necessário paciência e apostar na presença física; o mercado chinês exige tempo, visitas regulares e uma construção meticulosa de relações de confiança (guanxi).
Existem regiões específicas da China que, pela sua dinâmica económica ou enquadramento institucional, sejam mais propícias ao investimento e à cooperação com empresas portuguesas?
A prioridade deve ser dada à Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau, um megacluster que é o centro financeiro, tecnológico e de inovação da China. Macau, pela sua herança lusófona, funciona como a porta de entrada linguística e cultural ideal, com a presença portuguesa no território de todos os serviços profissionais necessários, incluindo banca e escritórios de advogados. A região de Xangai e da província de Zhejiang constitui o hub indiscutível de fintech, comércio electrónico, logística e economia digital. A província de Hunan, com a sua capital Changsha, é um centro de equipamentos pesados e indústria de construção, possuindo ainda uma delegação da CCILC no terreno, o que facilita enormemente a intermediação e o contacto com empresas locais. Por fim, a região de Pequim-Tianjin-Hebei, sendo o centro político do país, é o local ideal para estabelecer contactos de alto nível e para parcerias estratégicas com grandes empresas estatais. Em qualquer das regiões, as empresas portuguesas podem contar com o apoio da CCILC
Quais são atualmente os objetivos estratégicos da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Chinesa na promoção das relações bilaterais?
A CCILC posiciona-se como um actor central na relação económica bilateral, com objectivos que vão muito além da mera facilitação comercial. O seu propósito é catalisar oportunidades de alto impacto e transformar a intenção política, expressa em cimeiras, visitas e declarações, em entregáveis mensuráveis e concretos para as empresas de ambos os países, em benefício das pessoas. Um dos seus estratégicos é advogar, junto das autoridades portuguesas, por um ambiente de negócios estável, previsível e não discriminatório, assegurando que a regulação e demais entidades não actuam como barreira ao investimento. Paralelamente, a CCILC tem como missão operacionalizar o papel de Macau como plataforma estratégica, materializando na prática a sua vocação de ponte económica.
A Câmara de Comércio e Indústria Luso-Chinesa continuará activamente a sua acção de advocacy junto do governo português, defendendo que a transposição de directivas europeias seja técnica e não discriminatória
Que tipo de serviços a CCILC disponibiliza aos seus associados para apoiar a internacionalização e a captação de investimento, em particular no que respeita às pequenas e médias empresas?
A CCILC oferece um leque de serviços especializados desenhados para colmatar as assimetrias de informação e capacitação das PME. Estes incluem a prestação de inteligência de mercado e a realização de due diligence para verificação de potenciais parceiros comerciais chineses, mitigando riscos. Organiza missões empresariais segmentadas por sectores, como a recente recepção a uma delegação de Pequim focada em 5G e Inteligência Artificial. Facilita o acesso a feiras internacionais na China, oferecendo condições privilegiadas e stands partilhados em eventos de primeira linha, como a Feira de Cantão. Presta ainda um apoio logístico e de intermediação inestimável, facilitando contactos com entidades governamentais e apoiando em processos complexos de importação e exportação. Os múltiplos serviços da CCILC podem ser encontrados com maior detalhe em www.ccilc.pt
Em que medida a CCILC colabora com as autoridades governamentais e outras entidades institucionais para reforçar a presença portuguesa na China e atrair investimento chinês para Portugal?
A acção da CCILC é sustentada por uma rede de colaboração estreita e histórica com as entidades oficiais competentes. Trabalha em sintonia com a Embaixada da China em Lisboa e com a Embaixada de Portugal em Pequim, participando frequentemente em eventos e cooperando em missões empresariais. Mantém canais de comunicação directos e eficazes com entidades portuguesas e chinesas fundamentais para o comércio externo, como a AICEP, o CCPIT (Conselho Chinês para o Desenvolvimento do Comércio Internacional) e o CCOIC (Câmara de Comércio Internacional da China). Em Portugal, a CCILC estabeleceu parcerias sólidas com a AICEP mas também múltiplos municípios e associações sectoriais para a promoção comercial e atracção de investimento. A delegação em Macau trabalha em permanência com as instituições locais e a comunidade lusófona, fortalecendo uma rede de contactos única. Para finalizar, a CCILC foi autorizada este ano pelas autoridades chinesas a abrir uma delegação em Changsha, o que está previsto acontecer dia 22 de Novembro.
Que projetos ou iniciativas a CCILC prevê desenvolver no futuro próximo?
No horizonte próximo, a CCILC tem projectos muito concretos em desenvolvimento. Para a China International Supply Chain Expo (CISCE) de 2026, já garantiu um stand institucional e irá recrutar activamente empresas portuguesas dos sectores de energia limpa, tecnologia digital e vida saudável para uma participação conjunta e com maior impacto. Continuará activamente a sua acção de advocacy junto do governo português, defendendo que a transposição de directivas europeias seja técnica e não discriminatória. No âmbito da cooperação triangular, pretende desenvolver iniciativas concretas que liguem empresas chinesas, portuguesas e de países da CPLP, usando Macau e o seu Fundo de Cooperação como alavancas. Foi ainda proposta a criação de um Grupo de Acompanhamento Técnico, um mecanismo que reuniria representantes dos governos e do sector empresarial para definir planos de acção concretos e métricas de sucesso para a cooperação bilateral. Dia 29 de Outubro teremos a Gala Anual Portugal-China, no Casino Estoril, com a entrega dos prémios de mérito empresarial e presença das mais altas figuras do ecossistema luso-chinês, ficando aqui o desafio a todos os leitores da Raia Diplomática para que se juntem a nós neste momento único de celebração e promoção da relação económica bilateral Portugal-China.








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