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Fotografía por Jacques Barbary, cortesía de Pexels

Um moderno, dois moderníssimos e uma cidade escondida atrás das montanhas

“Vou-me embora!” — são as primeiras palavras ditas pelo protagonista do romance de Jean Echenoz, acabado de decidir deixar a esposa — e, não por acaso, título do livro.

A minha própria saída de casa, em Saragoça, foi mais cortês. Nada de portas batidas. Apenas uma retirada silenciosa, em busca de um fim de semana a sós.

O plano? Desarmantemente simples. Conduzir até os Pirenéus, e continuar.

Entro na autoestrada Saragoça–Huesca. Hoje moderna, mas outrora conhecida como “La Violada”. O meu professor de arte no liceu, padre Cavero, explicava que o nome vinha do traçado da antiga estrada romana entre Caesaraugusta e Osca, uma via ampla, ou via lata. Com o tempo, o nome degenerou, tornando-se vulgar: de via lata a violada, sem que, note-se, nenhuma donzela tenha sofrido qualquer desgraça.

É uma boa anedota, do tipo que nos acompanha em viagens longas rumo a montanhas que crescem a cada curva. Tal como o livro: Je m’en vais! (Vou-me embora, publicado em Portugal pela Terramar em 2000, com tradução de Manuela Torres; em Espanha pela Anagrama, e no Reino Unido pela Harvill Press com o título I’m Off) — encantador, ligeiramente excêntrico, mais inteligente do que aparenta.

O romance mistura o quotidiano das galerias de arte parisienses com toques de aventura e notas discretas de drama sentimental. A narrativa é em terceira pessoa, contida na prosa, alternando entre um tom neutro e uma ironia leve diante das decisões dos personagens.

Li-o em dois dias — ou, se preferirem, no tempo que se leva a atravessar Huesca e seguir em direção a Jaca.

Os portos de montanha começam, e a paisagem anima-se com florestas e ocasionais reservatórios.

Estamos agora em plena ascensão.

É, a meu ver, a melhor época do ano: o outono. Justo quando, em Paris, os jurados se reúnem no salão do Drouant para atribuir o Prémio Goncourt.

Em 1999, o romance que menciono recebeu tal distinção. Mas — e há sempre um “mas” — segundo Pierre Assouline (Du côté de chez Drouant, Gallimard, 2013), o editor da obra (Éditions de Minuit) estava presente no jantar.

Suscitaram-se suspeitas. Echenoz ouviu um jurado comentar: “O seu editor come tudo — é mesmo um bom editor.”

Sem saber se era elogio ou crítica velada, Echenoz respondeu com uma pergunta digna de teatro do absurdo:

— “Pediu cordeiro ou porco?”

Ninguém respondeu.

Chegámos ao túnel de Somport. Até aqui, a estrada foi bastante boa: quase toda em via dupla.

Ao entrar em França, tudo muda. A estrada afunila, mal conservada, curvas constantes.

O nosso país, vê-se bem, tem melhores estradas. Prémios literários, porém? Outra conversa. Por cá, o hábito feio é outro: o filho ou sobrinho do diretor da lotaria a levar o primeiro prémio de Natal.

Desabafos à parte, a verdade é que o romance de que vos falo continua merecendo a leitura, independentemente de o editor ter comido cordeiro ou porco para garantir o galardão.

Chego a Bielle, deixando para trás as montanhas altas, com os seus densos bosques de abetos e faias.

Paro para um café. Já se nota a arquitetura haussmanniana — bela na sua uniformidade, como se cada rua tivesse sido traçada com régua e esquadro, alheia a qualquer grito da ruralidade.

Nesta breve pausa, recordo autores contemporâneos que, sem prémios, merecem leitura urgente.

Cito dois apenas. Arturo Panero, cuja prosa exata, afiada, oscila entre Henry James e Lovecraft. E Pedro Aranda, com Quase Chicago, um romance raríssimo, improvável no espanhol contemporâneo, mas que fica a ecoar na mente por dias.

Recomendo ambos com entusiasmo.

Ligo novamente o motor. Paragem breve. O destino está próximo.

Pretendo trazer a estas páginas escritores atuais, quase invisíveis — ignorados pela crítica, rejeitados pela edição tradicional, vítimas de pequenas editoras piratas ou naufragados na auto-edição. Mas é justamente aí, nesse terreno incerto e mal iluminado, que crescem as sementes que, com tempo e alguma sorte, acabam nos manuais escolares.

Não é raro que, na literatura como noutras artes, o que não se vende em vida seja consagrado na morte. Perguntem a Kafka, que não vendeu um único exemplar, ou a Paul Valéry, cujo Cemitério marinho vendia menos que um manual de pesca — e hoje repousa em todos os cemitérios intelectuais chamados antologias.

Vinte minutos depois, estaciono na estação de comboios de Pau. Gosto de subir de funicular até à cidade antiga.

Reservei um estúdio acolhedor no Boulevard des Pyrénées. Conhecem?

Só por isso vale a viagem: a vista elevada de toda a cadeia montanhosa.

Magnífica.

Marquei jantar no L’Aragon.

Ainda há tempo para passear por esta cidade graciosa, admirar o castelo onde nasceu Henrique IV — o mesmo rei de Navarra que introduziu os Bourbons em França, e que depois saltariam até Espanha. Curiosamente, existe também nesta cidade um parlamento navarro.

Essa história fica para outro dia. Hoje, os meus passos — ou, como diria Casanova, o meu mau génio — levaram-me à porta de uma bela mansão que frequentei nos tempos de universidade.

Acendo um cigarro com calma do outro lado da rua. Perguntas óbvias e estranhas invadem-me.

Anoiteceu. Chegam mais pessoas — há claramente uma festa. Pelo vaivém constante, noto que o papel de parede continua o mesmo. Não consigo dizer o mesmo dos móveis da entrada.

Aproxima-se uma mulher — trinta e poucos, talvez — com um copo na mão. Pede-me lume. Observo o conjunto: botas altas de couro preto brilhante, meias até ao joelho e, sob um casaco leve, um vestido justo de veludo verde-esmeralda, daqueles pensados para deixar os ombros nus.

O cabelo, apanhado num rabo-de-cavalo, cai com descuido estudado. Está escuro, não sei se é morena ou castanha. Pouco importa: tem o ar confiante de quem sabe que o estilo fala antes das palavras.

Conversamos. Pouco depois, pergunta se estou convidado.

Abano a cabeça.

— “Bah! O engenheiro convidou tanta gente que ninguém se conhece. Sou a última do estúdio dele, e disseram-me que podia trazer quem quisesse. Entra comigo?”

Não devia. Definitivamente não devia. Podia haver confusão se me voltassem a ver por ali. Mas depois de tantos quilómetros… e tantos anos…

Porque não?

Tempo apenas para um copo de vinho e…

“Vou-me embora!”

José Vicente Rubio Eire

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