Num mundo marcado por volatilidade geopolítica, rivalidade estratégica e sobrecarga comunicacional, a diplomacia tradicional tem-se revelado insuficiente para garantir aproximação entre Povos e Estados. Há, contudo, instrumentos de aproximação cuja eficácia atravessa culturas, fronteiras e sistemas políticos: o desporto.
Ao longo de mais de um século, o Sporting Clube de Portugal (SCP) protagonizou um dos mais consistentes e menos estudado formato de diplomacia pública: a diplomacia desportiva de clube. As suas digressões internacionais, do Brasil à África Austral, de Angola à China e Macau, funcionaram como plataformas informais de diálogo político, aproximação cultural e construção de confiança mútua.
A temática, já analisada pela City University of Macau, num *estudo co-autorado por Miguel Gil Pereira e este vosso redactor, revela um património diplomático singular, que importa revisitar à luz dos desafios estratégicos contemporâneos, especialmente no espaço lusófono e no relacionamento entre Portugal e a China, não fosse este o Ano da China da Raia Diplomática.
A diplomacia cultural evoluiu nas últimas décadas para modelos mais horizontais, inclusivos e centrados nas sociedades civis. Nesse contexto, o desporto ocupa uma posição privilegiada, pois ultrapassa barreiras linguísticas, mobiliza multidões, gera emoção positiva, cria narrativas de identidade e pertença, e oferece espaços informais de contacto político e social.
À luz das necessidades actuais, desde a consolidação da presença portuguesa no Indo-Pacífico, ao reforço da cooperação lusófona e à gestão equilibrada da relação com a China, a diplomacia desportiva oferece ferramentas eficazes, discretas e altamente mobilizadoras
Em termos de “soft power”, poucas instituições portuguesas têm um alcance comparável ao Sporting Clube de Portugal. Efectivamente, o SCP é a maior potência desportiva nacional, com mais de 3700 títulos conquistados, 46 taças internacionais em 7 modalidades, e 158 atletas olímpicos (com 11 medalhas de ouro, prata e bronze) ao longo da história. Mais do que vitórias, o que está em causa é a capacidade de um clube desportivo fazer aquilo que em diplomacia se designa como bridging capital (formulado pelo cientista político Robert D. Putnam e desenvolvido por outros como Nan Lin): unir comunidades, criar pontes e abrir portas que a via governamental só mais tarde consolidará. Isto mesmo tentarei retratar nos seguintes exemplos históricos.
1. Brasil (1928): Num contexto marcado por crise económica global e instabilidade política recíproca, a digressão do Sporting ao Rio de Janeiro em 1928 actuou como um poderoso gesto de reafirmação dos laços históricos luso-brasileiros. A imprensa brasileira, ecoando o sentimento público, salientou o carácter simbólico da visita, interpretando-a como um instrumento de proximidade humana e cultural num ciclo de incerteza generalizada. Este episódio constitui, por isso, um caso de estudo paradigmático sobre a forma como o desporto e a diplomacia pública podem convergir para servir interesses estratégicos de Portugal em momentos de particular fragilidade internacional.
2. África Austral (1954): Em plena tensão geopolítica do pós-guerra e com os primeiros ventos independentistas a soprar no continente, a digressão do Sporting por Moçambique, Angola e pelas comunidades portuguesas da África do Sul foi recebida com um entusiasmo notável. Esta viagem transcendeu o mero propósito desportivo. Realizada num momento crucial de pressão internacional sobre o império português, funcionou como uma ferramenta de diplomacia cultural, visando projectar uma imagem de coesão, vitalidade e unidade lusíada nos territórios ultramarinos.
3. China e Macau (1978): A visita mais extraordinária ocorreu em 1978. Liderada pelo Presidente João Rocha e facilitada pela Associação Democrática de Amizade Portugal-China, a comitiva do Sporting foi recebida ao mais alto nível pelo Estado chinês. O então Vice-Primeiro-Ministro chinês, Chen Xilian, classificou a viagem explicitamente como “mais do que desportiva – uma missão diplomática”. De facto, o timing foi historicamente relevante. A visita ocorreu num período de aproximação bilateral, antecedendo diretamente o estabelecimento formal de relações diplomáticas entre Portugal e a República Popular da China, que ocorreria em Fevereiro de 1979. O diálogo sobre o futuro de Macau entraria, pouco depois, numa fase decisiva de transição. O Sporting ficou, assim, indelevelmente associado ao relançamento da relação bilateral. Um elemento crucial para este feito foi a presença do Professor Veiga Simão na comitiva. Viajando como representante pessoal do Presidente da República, General Ramalho Eanes, transportava consigo uma carta oficial do Estado português. Este documento foi fundamental para pavimentar o caminho diplomático que levaria ao estabelecimento formal de relações meses depois. A visita foi sintetizada numa frase célebre do líder chinês Wang Bingnan, que, referindo-se ao impacto diplomático do desporto, afirmou: “Se o pingue-pongue abriu uma janela aos EUA, o futebol abrirá uma porta ainda maior para Portugal.” A declaração permanece um marco perene da diplomacia desportiva sino-portuguesa, simbolizando o papel único que o Sporting desempenhou naquele momento histórico.
4. Angola (1979): A celebração do quarto aniversário da independência de Angola, em 1979, testemunhou um momento singular de reaproximação: o regresso de Portugal ao seu antigo território através de um agente inesperado – o Sporting Clube de Portugal. Num contexto ainda marcado pela guerra civil angolana, o Sporting tornou-se a primeira instituição desportiva portuguesa a visitar a jovem nação soberana. A sua presença, desprovida de cariz político oficial, funcionou como um poderoso gesto de ponte humana e cultural. Mais do que uma simples digressão desportiva, a iniciativa lançou os alicerces para uma nova relação pós-colonial, construída não sobre o legado do conflito, mas sobre uma memória cultural partilhada e a promessa de uma cooperação futura.
5. Macau (2018): Quarenta anos após a visita histórica à China, o Sporting regressou a Macau para um capítulo simbólico de celebração e continuidade. Através de uma série de eventos comemorativos, exposições patrimoniais e encontros desportivos amigáveis, o clube reacendeu a memória colectiva do seu contributo único para o diálogo luso-chinês.
A elevada patente diplomática da cerimónia – realçada pela presença do Embaixador da China em Portugal e das mais altas autoridades de Macau – não foi um mero protocolo. Foi o reconhecimento institucional explícito de um legado duradouro, uma ponte desportiva e cultural que se mantém vibrante. Este reencontro prepara o terreno para um marco ainda mais significativo: a celebração dos 50 anos dessa missão histórica, a cumprir-se em 2028.
A análise destes episódios permite retirar conclusões importantes para decisores políticos, diplomatas e instituições lusófonas, a saber:
1. O desporto cria acesso onde a diplomacia tradicional encontra barreiras. Jogos, torneios e academias funcionam como canais de diálogo e aproximação, especialmente em ambientes politicamente sensíveis.
2. Clubes podem ser instrumentos diplomáticos de baixo risco e alto impacto. Efetivamente, a natureza não-governamental destes agentes facilita a aproximação entre sociedades e confere autenticidade às interacções.
3. A diplomacia lusófona pode beneficiar de redes desportivas já existentes. A lusofonia é um dos maiores espaços culturais pluricontinentais. Capitalizá-lo através de eventos desportivos reforça coesão política, económica, de amizade e cultural.
4. A relação sino-portuguesa tem no desporto uma ferramenta estratégica subaproveitada. Efectivamente, num contexto de transição económica e tecnológica global, retomar esta dimensão pode fortalecer confiança política e cooperação económica.
O Sporting Clube de Portugal demonstrou, ao longo de 120 anos, que um clube pode ser muito mais do que um agente desportivo: pode ser um catalisador de relações internacionais, uma ponte cultural e um promotor activo de diálogo entre Povos.
À luz das necessidades actuais, desde a consolidação da presença portuguesa no Indo-Pacífico, ao reforço da cooperação lusófona e à gestão equilibrada da relação com a China, a diplomacia desportiva oferece ferramentas eficazes, discretas e altamente mobilizadoras. Se quisermos aprender com a história, o exemplo está à vista. É possível transformar simples eventos desportivos em instrumentos de aproximação entre nações. O SCP tem-no feito e a diplomacia portuguesa tem muito a ganhar se continuar a tirar proveito deste activo.
*China, Guinea-Bissau, Mozambique and São Tomé and Príncipe – From sporadic bilateral exchanges to a comprehensive multilateral platform / China-Portuguese-speaking Countries People-to-People Exchanges: Sporting Clube de Portugal – 100 Years of Sports Diplomacy
AUTHORS: Bernardo Mendia and Miguel Gil Pereira
PUBLISHER: City University of Macau, Macau Special Administrative Region (MSAR), China 1st Edition, July 2022 / SERIES EDITOR:Institute for Research on Portuguese-speaking Countries, City University of Macau, Macau Special Administrative Region (MSAR), China.
HONORARY EDITOR: Ip Kuai Peng / EDITORS: Francisco José Leandro — Carlota Beja — Yuqing Lu / ASSISTANT EDITORS AND SYMPOSIUM LOGISTICS OFFICERS:Lisa Tang – Emily Choi – Yilin Huang – Paulo Figueiredo – Qi Yong
INSTITUTIONAL SUPPORT: This publication was supported by the Higher Education Fund of the Macao SAR Government.

Bernardo Mendia é licenciado em Direito e, desde 2019, exerce o cargo de Presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portugal‑Hong Kong (PHKCCI). Além disso, desde 2021, ocupa também a posição de Secretário‑Geral da Câmara de Comércio e Indústria Luso‑Chinesa (CCILC). É membro fundador e vice‑presidente do think‑tank Amigos da Nova Rota da Seda (ANRS) e membro executivo da Federação das Associações Empresariais de Hong Kong no Mundo (FHKBAW). É autor de artigos de opinião sobre temas de política externa, desenvolvimento económico e posicionamento estratégico de Portugal no contexto internacional, com foco particular nas relações Portugal‑China e na promoção de investimento e cooperação tecnológica. Bernardo Mendia tem desenvolvido a sua carreira profissional centrada nas relações institucionais e comerciais entre a Europa e a China, com ênfase na internacionalização das empresas portuguesas e na construção de pontes empresariais e diplomáticas.
















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