À frente do Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM), em Lisboa, Carmen Amado Mendes lidera uma instituição dedicada à preservação, estudo e projeção de uma herança histórica singular: a longa e especial relação entre Portugal e a China, com Macau como espaço de encontro privilegiado. Num tempo em que os equilíbrios geopolíticos e culturais se transformam rapidamente, o papel do CCCM ganha uma relevância renovada, não apenas como guardião da memória, mas também como plataforma ativa de diálogo académico, cultural e científico.
Nesta entrevista, a Presidente do CCCM reflete sobre a história da instituição, os seus objetivos estratégicos e os desafios que enfrenta no presente. Como a própria sublinha, “este Centro tem como missão criar uma ponte entre Portugal e a China, centrada na história portuguesa em Macau e na memória das relações estabelecidas entre Portugal e a China, que deram (e continuam a dar) frutos culturais importantes”. Manter viva essa memória junto da comunidade portuguesa e projetá-la para as novas gerações, é hoje um dos maiores desafios, mas também uma das mais estimulantes responsabilidades do CCCM.
A missão do CCCM
Pode contar-nos como e porquê foi fundado o Centro Cultural e Científico de Macau (CCCM) e como a sua missão foi evoluindo?
O Centro Científico e Cultural de Macau resulta de uma parceria entre o último governo de Macau, antes da transferência da administração para a República Popular da China (19 de Dezembro de 1999), e o governo português. Localizado em Lisboa, este Centro espelha a singularidade de Macau, enquanto confluência entre as civilizações chinesa e ocidental e as relações que a partir daí se estabeleceram, fomentando de forma privilegiada o diálogo, sobretudo no que respeita às relações interculturais luso-chinesas. A atividade desenvolvida ao longo de mais de 26 anos tem dado grande visibilidade internacional aos estudos asiáticos em Portugal – muito importante para um Instituto Público do Ministério da Educação, Ciência e Inovação, que tem por missão a promoção do conhecimento das relações entre a Europa e a Ásia, sobretudo das relações entre Portugal e a China, destacando o papel de Macau.
Em 2018 foi assinado um memorando de entendimento entre os Ministérios da Ciência de Portugal e da China. Na sua perspetiva, qual é a relevância concreta deste acordo para o trabalho do CCCM? Que novas “portas” abriu para a cooperação científica e académica?
O memorando, assinado em 2018, resulta de um interesse comum em promover e desenvolver a cooperação científica e tecnológica, em áreas como o património cultural, história da ciência e tecnologia e interações contemporâneas emergentes. Ao incentivar especificamente a cooperação de instituições chinesas com o CCCM, abriu um leque de oportunidades, que se têm traduzido em visitas de delegações chinesas com vista ao estabelecimento de parcerias e cooperação. Também contribui para aumentar o interesse de instituições de ensino superior de Macau, incluindo do próprio Fundo para o Desenvolvimento das Ciências e da Tecnologia, que já organizou um evento aqui no CCCM.
O Memorando de Entendimento com a China
Como é que o CCCM estabelece as suas parcerias para projetos de investigação? Que tipo de instituições procura e que critérios são mais importantes na seleção desses parceiros?
Procuram-se instituições académicas (unidades de I&D) nacionais e internacionais, pautando-se por preocupações de internacionalização e de articulação a instituições académicas de referência.
As nossas redes de cooperação pessoal e académica, em Portugal e no estrangeiro, têm permitido participar e dinamizar várias iniciativas científicas e projetos de investigação. E, claro, apostamos na disseminação da investigação desenvolvida pela participação em congressos internacionais e publicações de natureza científica. Tivemos também um projeto financiado pela Agência Erasmus que nos permitiu estreitar relações com as instituições da Galiza. Os nossos bolseiros de doutoramento estão sempre envolvidos nos nossos projetos e dão grande contributo…
Em resultado da parceria que temos com a Fundação para a Ciência e a Tecnologia, temos, atualmente, 50 bolseiros CCCM/FCT, estudantes de doutoramento de diversas universidades portuguesas. As nossas bolsas têm desempenhado, nos últimos anos, um papel fundamental no panorama nacional, no que diz respeito ao aprofundamento do estudo da Ásia em Portugal, oferecendo a estes bolseiros a oportunidade de seguir os seus interesses de investigação. Na verdade, temos procurado abrir o CCCM aos jovens: uma das prioridades tem sido apoiar e motivar os jovens investigadores e temo-los incentivado a dar a conhecer o seu trabalho, publicando dissertações de Mestrado e teses de Doutoramento de excelência nas coleções de livros que editamos sobre a Ásia.
Este Centro tem como missão criar uma ponte entre Portugal e China, centrada na história portuguesa em Macau e na memória das relações estabelecidas entre Portugal e a China, que deram (e continuam a dar) frutos culturais importantes. Manter a memória viva de Macau, na comunidade portuguesa, é um dos principais desafios
As principais linhas orientadoras
Quais são atualmente as principais linhas orientadoras ou eixos temáticos para os projetos de investigação promovidos ou acolhidos pelo CCCM?
Temos investigação histórica, designadamente duas linhas de investigação, em que se exploram mecanismos e atores que permitiram os contactos e as transferências entre Portugal e a China/Ásia no período moderno (dinastias Ming-Qing), numa perspectiva global e comparada. Uma dessas linhas analisa a dimensão material e logística das missões católicas extra-europeias, com enfoque na Ásia Oriental. Uma segunda linha tem por base a aprendizagem sistemática da língua chinesa pelos europeus (ou seja, missionários) entre o final do século XVI e o início do século XVIII, os métodos definidos e os instrumentos criados. Há ainda a participação num projeto sobre agentes globais, liderado pela Universidade da Cantábria e suportado pela agência espanhola de financiamento.
Na área das relações internacionais e diplomacia económica, o CCCM lidera o work package Trade & Economy do projeto ReConnect China, de um consórcio com universidades e think tanks europeus de topo, liderado pela Universidade de Ghent, e financiado pela Comissão Europeia, no âmbito do programa Horizonte Europa, com o objetivo de analisar a diplomacia económica da China no âmbito das relações com a Europa.
Para além da investigação, o CCCM também promove atividades para a difusão de conhecimento, correto?
Centrado essencialmente na investigação, o CCCM é também um espaço para a difusão de conhecimento na sua área de missão. Esta partilha tem sido feita, em primeiro lugar, entre os académicos, durante as Conferências da Primavera do CCCM, que juntam anualmente, nesta casa, a comunidade académica que trabalha Ásia, facilitando o networking, porque, na verdade, estas conferências são também um encontro científico. As Conferências da Primavera contribuíram para que o CCCM se assumisse como o local de encontro interdisciplinar, com grande capacidade de atração dos académicos espalhados pelas mais diversas instituições de ensino superior do país, porque não compete com elas – é um espaço neutro, que não oferece cursos conferentes de grau. O público alvo destas conferências são os portugueses que trabalham Ásia, em Portugal ou no estrangeiro (temos tido vários portugueses que residem na Ásia e participam online). No entanto, temos aberto a participação a estrangeiros que têm de alguma forma ligação à comunidade portuguesa que trabalha Ásia. O facto de virem presencialmente ao CCCM propicia dinâmicas de trabalho muito promissoras. Temos tido, anualmente, cerca de 180 oradores… um número extraordinário para a realidade portuguesa! Incluímo-los no Portal Académico do site do CCCM, que reúne informação sobre todos os portugueses que trabalham a Ásia e que mostraram interesse em aqui divulgar os seus projetos e publicações. Foi uma forma de sistematizar numa página “quem é quem” nos estudos asiáticos em Portugal, incluindo portugueses que trabalham no estrangeiro.
A difusão da cultura oriental
Qual é a importância da vossa agenda cultural para cumprir a missão de diálogo e divulgação cultural?
O diálogo cultural é uma forma de aproximar o Centro Científico e Cultural de Macau ao público da cidade de Lisboa, promovendo-se um conjunto de atividades regulares destinadas a públicos mais abrangentes, como exposições, conferências, edições, lançamentos de livros, oficinas e cursos livres. Temos as Conversas Sábias de quintas-feiras ao fim da tarde,que procuram colocar pessoas relacionadas com distintos países asiáticos em contacto com o público, que é convidado a participar nestes diálogos culturais. E, numa lógica de proximidade, dinamizamos programas na Rádio Freguesia de Belém, dando a conhecer figuras culturalmente relevantes das principais comunidades existentes em Macau e que em Portugal se ligam aos estudos chineses e de outras regiões asiáticas.
Oferecemos vários cursos onde são abordadas temáticas de diferentes culturas asiáticas, desde a chinesa, à japonesa, passando pela indiana ou de diversas regiões da Ásia Central. Até temos um curso sobre a língua minoritária macaense, o Patuá, um património linguístico único de Macau que reflete séculos de convivência e história luso-chinesa.
O seu centro oferece também cursos de língua chinesa. Qual é o público-alvo principal destes cursos?
O nosso curso, iniciado em 2001, tem sido frequentado, ao longo destes 25 anos, por estudantes e professores de ensino básico, secundário e superior, investigadores e doutorandos, diplomatas, empresários, advogados, engenheiros, técnicos, comerciantes, administrativos, médicos (de medicina convencional e de medicina chinesa), enfermeiros, empregados de mesa, reformados… abrangendo pessoas oriundas de todos os setores sociais e de todos os grupos etários, com perfis diferentes, de nacionalidades diferentes e nem todos vivendo na Grande Lisboa. Citando como exemplo, neste momento, temos alunos de nacionalidade russa, brasileira, polaca, espanhola e chinesa, temos principalmente alunos do ensino secundário e universitário, além de empresários, trabalhadores nas áreas do ensino e saúde, turismo, reformados…
Os alunos inscrevem-se no curso de mandarim por vários motivos: interesse e curiosidade pela língua e cultura chinesas, ligação com Macau, mais-valia para o trabalho no futuro, além de motivos profissionais, resultantes do desenvolvimento do relacionamento luso-chinês. Por exemplo, quando grandes empresas chinesas entraram em Portugal, o interesse pelo estudo do chinês aumentou, até entre os funcionários portugueses. Alguns casos são muito interessantes… E bastantes alunos nossos, depois de ter estudado no CCCM, trabalham hoje com a língua chinesa, inclusive na China.
O ensino da língua chinesa
O que é que diferencia o curso de língua chinesa do CCCM?
Organizamos anualmente visitas de estudo à China patrocinadas pelas autoridades chinesas competentes. Além disso, no ano passado, uma das nossas alunas foi à China receber um prémio relativo à sua experiência da aprendizagem de chinês. Mas a característica muito peculiar do nosso curso, que merece ser sublinhada, é que em cada sessão são ensinados 7 caracteres novos, partindo da ideia de que os alunos podem memorizar um ideograma por dia. E começamos a ensinar os 7 ideogramas semanais logo no primeiro dia da aula do módulo 1. O resultado é gratificante. Os alunos, desde que iniciem a aprendizagem com esse método e estudem com persistência, cumprindo o que os professores lhes pedem, conseguem identificar os caracteres ensinados e até escrever redações em chinês. Muitos alunos optam pelo nosso curso precisamente por este motivo, pois, a comunicação escrita entre os chineses é feita através dos ideogramas que, por sua vez, estão impregnados de cultura chinesa. Nos últimos anos, as autoridades competentes chinesas também estão a promover a aprendizagem de caracteres no ensino de chinês língua estrangeira (e não com base no sistema de romanização, o pinyin).
O CCCM alberga uma biblioteca especializada e um museu. Que tipo de acervos e coleções os caracterizam e como é que estes espaços materiais “unem” simbolicamente e praticamente Portugal à China?
O Museu e a Biblioteca possuem um conjunto de serviços abertos aos utilizadores culturais e às mais diversas comunidades do conhecimento, em especial portuguesa e chinesa. Universidades, Bibliotecas, Centros de Investigação e Museus de património asiático, são parceiros naturais na busca de uma melhor compreensão científica e divulgação cultural da História, Cultura e Sociedade de Macau e das relações Portugal-China.
A Biblioteca reúne um importantíssimo acervo composto por coleções de livros, multimédia, microfilmes e iconografia. Este fundo documental permite acompanhar as temáticas abrangidas pelo CCCM nomeadamente nas áreas do estudo da História, da Cultura e da Sociedade de Macau e das relações Europa-Ásia, com destaque para as relações Portugal-China.
O Museu, vocacionado para o estudo e a divulgação das relações luso-chinesas, desenvolve-se em dois núcleos. No piso térreo, A Condição Histórico-cultural de Macau nos Séculos XVI e XVII, que remete para a atmosfera internacional da China Ming e para a fronteira intercultural Europa-China, criada com a cidade portuária de Macau, estando presentes alguns resultados da investigação sobre a história das relações luso-chinesas e a história de Macau.
No primeiro andar do Museu, A Coleção de Arte Chinesa, abarcando um período temporal de mais de 5000 anos de história e de arte, inclui objetos das mais variadas matérias e tipologias: cerâmicas neolíticas; terracotas; bronzes; grés; porcelanas azul e branco, família verde, família rosa, brasonada e monogramada, porcelana de simbologia religiosa, cerâmica de Shek Wan, objetos para o fumo do ópio, China Trade, lacas e pintura, leques, pratas, trajes, marfins e numismática. O seu acervo, constituído essencialmente por peças de origem chinesa, testemunha, em grande medida, o encontro e as influências mútuas entre o Ocidente e a Ásia, entre Portugal e a China, assim como o papel de Macau enquanto plataforma privilegiada para o intercâmbio de bens e a difusão de conhecimento.
Os grandes desafios do CCCM
Quais são os maiores desafios que o CCCM enfrenta atualmente no seu trabalho de desenvolvimento cultural e científico? E, por outro lado, quais lhe parecem as oportunidades mais promissoras?
Este Centro tem como missão criar uma ponte entre Portugal e China, centrada na história portuguesa em Macau e na memória das relações estabelecidas entre Portugal e a China, que deram (e continuam a dar) frutos culturais importantes. Manter a memória viva de Macau, na comunidade portuguesa, é um dos principais desafios. O CCCM tem procurado dar o seu contributo através dos já referidos cursos e publicações, e da organização de eventos para assinalar as comemorações de datas importantes para Macau, seja de acontecimentos históricos, seja associadas a figuras ilustres do Território, do passado e do presente. Importa combater o desinteresse generalizado e o grande desconhecimento daquilo que é a China, a Ásia, não só numa perspetiva histórica mas também com os olhos postos no futuro. Também por isto, é altamente motivador sentir que estamos a formar a próxima geração de especialistas na Ásia!



















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