Num contexto global marcado por reajustes geoeconómicos e novas rotas de internacionalização, Hong Kong mantém-se como um nó estratégico incontornável do comércio mundial. A sua posição privilegiada, aliada a um ambiente empresarial sofisticado, continua a fazer deste território uma das principais plataformas de trading e reexportação da Ásia, funcionando como porta de entrada não só para o mercado local, mas também para a China continental, o Sudeste Asiático e outros mercados regionais de enorme dinamismo.
É sobre este papel central de Hong Kong e as oportunidades concretas que oferece às empresas portuguesas que falamos com Bernardo Media, Presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portugal-Hong Kong. Nesta entrevista, o responsável analisa a relevância estratégica de Hong Kong para o comércio internacional, as vantagens competitivas para os empresários portugueses e os caminhos possíveis para reforçar a presença de Portugal num dos ecossistemas económicos mais influentes do mundo.
Hong Kong e Portugal
Quais foram as principais razões que motivaram a criação da Câmara de Comércio e Indústria Portugal–Hong Kong? Que lacuna pretendia colmatar nas relações económicas entre os dois territórios?
A Câmara de Comércio e Indústria Portugal–Hong Kong (PHKCCI) foi criada em 2019 como uma organização privada sem fins lucrativos, com a missão clara de promover e estruturar as relações privadas económicas, comerciais e empresariais entre Portugal e a Região Administrativa Especial de Hong Kong da República Popular da China. À data, existia uma lacuna evidente: apesar da relevância estratégica de Hong Kong como plataforma internacional de comércio, investimento e financiamento, Portugal não dispunha de uma câmara de comércio dedicada, permanente e especializada, que funcionasse como interface económico entre os dois territórios.
A ambição foi, desde o início, dupla. Por um lado, proporcionar às empresas portuguesas acesso directo, informado e operacional a um dos mercados mais sofisticados e competitivos da Ásia-Pacífico; por outro, oferecer a investidores e empresários de Hong Kong uma plataforma credível, conhecedora do contexto português e do espaço lusófono, capaz de identificar oportunidades concretas, estabelecer pontes institucionais e reduzir fricções culturais e jurídicas.
Importa sublinhar que a criação da PHKCCI foi possível graças ao apoio decisivo das autoridades de Hong Kong, em particular do Hong Kong Trade Development Council (HKTDC), que tomou a iniciativa de nos procurar com o objectivo explícito de criar esta ponte económica com Portugal. A este impulso juntou-se um apoio absolutamente extraordinário do Invest Hong Kong e do Economic and Trade Office de Hong Kong em Bruxelas (HKETO), bem como de diversos organismos sob tutela dos Secretários da Economia e das Finanças de Hong Kong, cuja parceria tem sido consistente, próxima e estratégica ao longo dos anos. O mesmo se diga relativamente à AICEP e Consulado Geral de Portugal em Macau e Hong Kong, que, sempre que solicitado, colaboram sem reservas com a Câmara.
A grande plataforma de negocios
Ao longo destes seis anos de existência da CCIPHK, quais considera terem sido os marcos mais importantes da sua evolução? Que balanço faz do trabalho realizado até agora?
Um dos marcos estruturantes — e talvez o mais relevante — foi a remoção de Hong Kong da lista nacional portuguesa de jurisdições com regime fiscal mais favorável. Esta decisão, que tem efeito legal desde o dia 1 de Janeiro de 2026, representou um passo decisivo na normalização plena das relações económicas entre Portugal e Hong Kong, eliminando um obstáculo que durante anos condicionou investimentos, estruturas empresariais e fluxos financeiros legítimos.
Outro marco importante foi o trabalho desenvolvido junto do SEF (actualmente AIMA) e Ministério dos Negócios Estrangeiros, ainda em 2020, no âmbito da pandemia COVID-19, por forma a que as companhias aéreas internacionais permitissem o embarque dos cidadãos chineses residentes de Hong Kong, como permitia a lei mas que, por cautela excessiva, não se verificava.
Gostaria ainda de destacar a instituição da Distinção Comendador Ambrose So, atribuída a cada dois anos, e que vai já para a sua terceira edição; bem como o apoio na criação da Câmara de Comércio e Indústria Hong Kong-Portugal, formalmente estabelecida em 2024 em HK; e, finalmente, a co-organização anual do cocktail de Ano Novo Chinês, em colaboração com o Governo de HK e suas agências de promoção do comércio e investimento na Europa, e que terá lugar, este ano, dia 10 de Março, em Lisboa.
Paralelamente e de uma forma geral, a evolução da PHKCCI tem sido marcada por uma actividade intensa e consistente. Só em 2025, a Câmara organizou ou co-organizou 19 eventos presenciais, com mais de 1.500 participantes, e participou em 18 eventos internacionais de alto nível, envolvendo mais de 2.000 participantes adicionais. A presença institucional em fóruns como a China International Fair for Trade in Services (CIFTIS), a China International Supply Chain Expo (CISCE), a Belt and Road Summit ou o Hong Kong Forum demonstra o reconhecimento crescente da PHKCCI como interlocutor credível e informado nos principais espaços de diálogo económico euro-asiático.
O balanço é claramente positivo. A PHKCCI consolidou-se como uma plataforma estável de conhecimento, networking e confiança, aproximando empresários, decisores públicos, universidades e entidades de inovação, apoiando missões empresariais, facilitando investimentos e contribuindo para alinhar agendas públicas e privadas de ambos os lados, sempre com um foco muito claro na execução e nos resultados.

Na sua perspectiva, quais são as diferenças mais significativas entre a Região Administrativa Especial de Hong Kong e a China Continental, especialmente do ponto de vista empresarial e regulatório?
Hong Kong mantém um modelo jurídico, institucional e económico distintamente aberto, previsível e transparente. O seu sistema assente no common law, a simplicidade e competitividade fiscal, a clareza dos procedimentos administrativos e a forte protecção da propriedade intelectual criam um ambiente particularmente favorável ao investimento internacional e às operações transfronteiriças.
A China continental, por seu lado, caracteriza-se por uma escala, uma diversidade regional e uma complexidade regulatória significativamente superiores. Para muitas empresas europeias, esse contexto pode representar um desafio adicional numa fase inicial de internacionalização. É precisamente aqui que Hong Kong assume o seu papel estratégico: funciona como um “hub natural” de entrada e uma montra para toda a Ásia, oferecendo um ambiente de negócios globalizado, língua de trabalho anglófona, infra-estruturas financeiras internacionais e logísticas de excelência e uma ligação directa à China continental e à Grande Baía Guangdong–Hong Kong–Macau.
A relação institucional
Hong Kong é reconhecido como um dos mercados mais dinâmicos do mundo. Que oportunidades concretas oferece às empresas portuguesas que pretendem internacionalizar-se?
Hong Kong oferece oportunidades muito concretas e imediatamente accionáveis para as empresas portuguesas. No domínio do comércio internacional, continua a ser uma das principais plataformas de trading e reexportação da Ásia, permitindo às empresas portuguesas aceder não apenas ao mercado local, mas também à China continental, ao Sudeste Asiático e a outros mercados regionais.
Existe igualmente um potencial crescente na abertura de lojas próprias ou franchisadas, sobretudo em sectores como a gastronomia, produtos gourmet, vinhos, retalho especializado e marcas de lifestyle. A recente decisão da Manteigaria de abrir uma loja em Hong Kong, já prevista para Março deste ano, é um exemplo claro de como marcas portuguesas com identidade forte e produto diferenciado conseguem posicionar-se com sucesso neste mercado.
Acresce ainda a importância da participação em feiras internacionais organizadas pelo HKTDC, que permitem testar mercado, identificar distribuidores e construir marca de forma estruturada. A proximidade estratégica a Macau, enquanto plataforma privilegiada para o mundo lusófono, reforça igualmente o papel de Hong Kong como ponto de ancoragem regional para empresas portuguesas.
Para uma empresa portuguesa que esteja a dar os primeiros passos na Ásia, quais seriam as estratégias mais eficazes para entrar no mercado de Hong Kong?
As estratégias mais eficazes passam por integrar plataformas de networking estruturadas, participar em missões empresariais organizadas com parceiros locais, marcar presença em feiras internacionais com a chancela do HKTDC e recorrer a instituições com conhecimento profundo do mercado. A PHKCCI desempenha precisamente esse papel, oferecendo informação qualificada, contactos institucionais, eventos de apresentação e oportunidades de ligação directa a actores relevantes em Hong Kong e na Grande Baía.
Embaixador da “Hong Kong Convention”
Foi recentemente nomeado pelo Turismo de Hong Kong como embaixador da “Hong Kong Convention”. Que significado pessoal e institucional tem esta designação?
Esta nomeação constitui um reconhecimento institucional do trabalho desenvolvido pela PHKCCI e do papel activo que temos vindo a desempenhar na promoção de Hong Kong enquanto plataforma global de negócios. O programa “Hong Kong Convention Ambassador” visa posicionar a região como um verdadeiro “World’s Meeting Place” para eventos internacionais, conferências e encontros empresariais, reunindo mais de 140 embaixadores de diferentes sectores e geografias.
Do ponto de vista institucional, esta designação reforça a credibilidade da Câmara e amplia a nossa capacidade de actuação, em particular no sector MICE. Do ponto de vista pessoal, é um sinal de confiança que encaro com elevado sentido de responsabilidade e compromisso, mas com a consciência de que quem se pretende distinguir verdadeiramente é a PHKCCI.
De que forma esta nomeação pode contribuir para reforçar a visibilidade de Hong Kong em Portugal?
Através da promoção activa de Hong Kong como destino de reuniões, congressos, feiras e eventos internacionais, esta nomeação permite dar maior visibilidade às oportunidades que a região oferece. Acrescenta peso institucional às iniciativas desenvolvidas em Portugal e facilita o diálogo com empresas, associações e entidades públicas, incentivando uma abordagem mais informada e confiante ao mercado asiático.
No domínio do comércio internacional, Hong Kong continua a ser uma das principais plataformas de trading e reexportação da Ásia, permitindo às empresas portuguesas aceder não apenas ao mercado local, mas também à China continental, ao Sudeste Asiático e a outros mercados regionais
Como o trabalho institucional desenvolvido pela CCIPHK em articulação com o Governo de Hong Kong pode facilitar o caminho das empresas portuguesas interessadas neste mercado?
A articulação institucional com entidades como o Invest Hong Kong, o Hong Kong Trade Development Council (HKTDC), o Hong Kong Science and Technology Parks Corporation (HKSTP), o Cyberport, o Hong Kong Economic and Trade Office (HKETO) e outros organismos governamentais permite reduzir de forma muito significativa as barreiras de informação, de acesso e de credibilidade que normalmente se colocam às empresas estrangeiras. Estas parcerias criam um verdadeiro ponto de apoio estratégico para as empresas portuguesas, encurtando o tempo de instalação no território, facilitando o relacionamento com autoridades e parceiros locais e multiplicando oportunidades de contacto, formação e conhecimento aprofundado do mercado.
Importa ainda sublinhar que, nos últimos dois anos, Portugal recebeu visitas oficiais de membros do Governo da Região Administrativa Especial de Hong Kong, nomeadamente do Secretário dos Serviços Financeiros e do Tesouro, do Secretário da Inovação, Tecnologia e Indústria, da Secretária da Habitação e da Secretária da Cultura, Desporto e Turismo. Este nível de representação política é, por si só, um sinal claro do interesse estratégico que Hong Kong atribui a Portugal enquanto parceiro europeu privilegiado.
Permita-me acrescentar uma nota mais ampla: muitas vezes subvalorizamos os nossos próprios activos, quando, no exterior, assistimos a uma valorização muito clara dos recursos, da estabilidade e da posição geoestratégica de Portugal. Basta recordar que, considerando o território terrestre e marítimo, Portugal é cerca de 4,5 vezes maior do que a Alemanha. Temos, por isso, todas as condições para nos afirmarmos com maior ambição e rigor nos mercados internacionais, o que exige uma narrativa mais confiante e palcos internacionais para a divulgar.
Que sectores económicos de Hong Kong considera actualmente mais atractivos para as empresas portuguesas?
Para além do comércio internacional e da logística, destacam-se o retalho especializado, a gastronomia, os serviços financeiros, a economia digital, o e-commerce, a fintech, os sectores criativos e o segmento MICE. A ligação directa à China continental e à Grande Baía amplifica significativamente o alcance competitivo das empresas que operam a partir de Hong Kong.
Na prática, que tipo de apoio a CCIPHK oferece às empresas para entrarem neste mercado?
A PHKCCI apoia as empresas através da disponibilização de informação de mercado qualificada, da organização de eventos de networking, missões empresariais, reuniões tailor-made, bem como através de parcerias institucionais e da facilitação de contactos directos com potenciais parceiros, clientes e autoridades locais em Hong Kong, Macau e na Grande Baía.
Uma parte significativa destes serviços é prestada em regime profissional, o que tem permitido à Câmara consolidar a sua estrutura, reforçar a sua capacidade de actuação e desempenhar, hoje, um papel relevante e reconhecido no apoio à internacionalização das empresas portuguesas na região.
Num contexto global marcado por rápidas transformações económicas e geopolíticas, que papel pode Hong Kong desempenhar como plataforma de ligação entre a Europa e a Ásia?
Aqui gostaria de abrir um parêntesis de enquadramento geo-económico: em 1980, o PIB combinado dos actuais estados-membros da União Europeia era dez vezes superior ao da China. Hoje, são equivalentes. A PwC estima que, por volta de 2050, o PIB da União Europeia seja apenas metade do da China. Mais ainda: em paridade de poder de compra, a economia chinesa ultrapassou a norte-americana em 2016, segundo dados do Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial. Por outro lado o bloco ocidental representa apenas 12% da população mundial, enquanto o resto do mundo, denominado Sul Global, represente 88% da população global. Não estabelecer pontes económicas e diálogo construtivo com a região da Ásia-Pacífico e do Sul Global não é apenas negligência; é um acto de gestão danosa dos interesses fundamentais de Portugal.
Ora, Hong Kong ocupa uma posição singular entre um sistema jurídico e comercial aberto e a sua conectividade estrutural com a China continental e a Ásia-Pacífico. Num contexto de fragmentação e reconfiguração das cadeias globais, HK já desempenha o papel de hub pragmático e funcional entre o Ocidente e o resto do mundo, reduzindo complexidade, oferecendo previsibilidade e funcionando como espaço de convergência para cooperação económica internacional.
O futuro da relação entre Portugal e Hong Kong
Olhando para o futuro, que prioridades estratégicas definiu para a CCIPHK nos próximos anos?
As prioridades passam por reforçar a capacitação das empresas portuguesas em Hong Kong e na China, promover sectores de maior valor acrescentado, atrair investimento directo de Hong Kong para Portugal, consolidar alianças institucionais e expandir programas de missões, eventos e iniciativas que assegurem um crescimento sustentável e bidireccional das relações económicas.
Neste contexto, será igualmente fundamental manter o ritmo do crescimento de associados da Câmara e aprofundar a utilização dos seus serviços especializados, garantindo que empresas de diferentes dimensões e sectores tenham acesso a informação qualificada, aconselhamento prático e redes de contacto eficazes. O envolvimento activo dos membros é, aliás, uma condição essencial para reforçar a relevância institucional da PHKCCI e para maximizar o impacto colectivo da sua actuação nos mercados de Hong Kong, da Grande Baía e da China continental. O mesmo se diga no sentido inverso.
Estamos a entrar no Ano Novo Chinês, um momento de grande significado cultural e simbólico. Que mensagem gostaria de deixar à comunidade chinesa e a todos aqueles que celebram esta data?
Desejo a todos um Ano Novo Chinês do cavalo pleno de prosperidade, saúde e sucesso, celebrando não apenas a riqueza cultural desta tradição milenar, mas também o espírito de cooperação, respeito e confiança mútua que tem sustentado — e continuará a sustentar — as relações entre Portugal, Hong Kong e a China.

















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