A História tem o hábito de ser cíclica, mas a memória política ocidental é, frequentemente, curta. No seu mais recente ensaio, All Civilizations are Equal, o diplomata e académico de Singapura Kishore Mahbubani confronta-nos com uma realidade iniludível: os últimos 200 anos de domínio ocidental não foram a regra, mas sim uma anomalia histórica. Do ano 1 ao ano 1820, as duas maiores economias do mundo foram sempre a China e a Índia. Estamos, portanto – hoje –, a viver um regresso à tendência, um facto que uma certa classe dirigente ocidental ignora, muitas vezes presa a um “pedestal moral” que, adicionalmente, nos isola da esmagadora maioria da Humanidade.
Os dados são claros e não se compadecem com retóricas ideológicas. Em 1980, o PIB combinado dos actuais Estados-membros da União Europeia era dez vezes superior ao da China. Hoje, são equivalentes. De acordo com projeções correntes de várias instituições internacionais, como o FMI e o Banco Mundial, estima-se que, por volta de 2050, o PIB da União Europeia seja apenas metade do da China, uma verdadeira tragédia à luz dos padrões ocidentais dos dois últimos séculos. Mais ainda: em paridade de poder de compra, a economia chinesa ultrapassou a norte-americana em 2016. Ignorar esta mudança tectónica do centro económico mundial para a região da Ásia-Pacífico não é apenas negligência; para o que nos interessa, é um acto de gestão danosa dos interesses fundamentais de Portugal.
Nas intervenções que tenho tido a oportunidade de partilhar nos últimos 10 anos, arguo que Portugal não se pode dar ao luxo de dispensar o investimento directo estrangeiro (IDE), seja qual for a origem, desde que respeite as leis portuguesas – a avaliação deverá dar primazia ao mérito das propostas e aos interesses nacionais. Durante a crise financeira de 2010-2015, num momento em que outros investidores estavam ausentes, enquanto o país estava à beira da bancarrota e sob a tutela da Troika, foram as empresas chinesas quem mais valorizou os activos nacionais, prosseguindo a sua própria estratégia “go global” e suportando prémios na ordem dos 40% acima do valor de mercado dos activos em hasta pública. As empresas chinesas investiram quando o capital ocidental fugia. Hoje, dados do Banco de Portugal confirmam a China como o 5.º maior investidor na nossa economia, com um stock de investimento total de cerca de 13 mil milhões de euros.
Para Portugal, um país com mais de cinco séculos de relações ininterruptas com a China – e que detém em Macau uma “plataforma” única, um autêntico “porta-aviões” diplomático e comercial no Oriente
No entanto, assistimos em Portugal e na Europa a uma deriva perigosa de “bloqueio ideológico”, onde se julgam civilizações e culturas – inclusivamente mais antigas que a nossa – com base numa suposta superioridade moral do modelo ocidental. Como aponta Mahbubani e a realidade dos números confirma, o Ocidente representa apenas 12% da população mundial, mas age como se detivesse a autoridade moral exclusiva, ignorando que os restantes 88% vêem as nossas acções, como as sanções unilaterais ou o proteccionismo comercial, como hipocrisia e duplo critério. Fica difícil falar em direito internacional quando, não só as grandes potências (justiça seja feita, incluindo as emergentes) se furtam a cumprir decisões de entidades internacionais, como impõem as suas decisões ao resto do mundo pela coerção económica ou imposição militar.
Para Portugal, um país com mais de cinco séculos de relações ininterruptas com a China – e que detém em Macau uma “plataforma” única, um autêntico “porta-aviões” diplomático e comercial no Oriente –, esta postura de alinhamento automático com os 12% é um erro de consecução dos interesses nacionais. A nossa obrigação é o “engagement” com todos. Podemos e deveríamos ser a porta de entrada entre a Europa, a China e o mundo lusófono, capitalizando sectores como as energias renováveis, a economia azul e as tecnologias de ponta. Apesar de Macau ter perdido algum do seu fulgor original como intermediário, o seu capital histórico e cultural continua a ser um activo diferenciador que podemos e devemos capitalizar.
Portugal beneficiaria muito se os líderes políticos portugueses tivessem disponibilidade para viajar, ver e compreender que o mundo voltou a ser multi-civilizacional. A crença de que a nossa democracia liberal é a única forma legítima de organização social impede-nos de ver que outras sociedades, com outros modelos, estão a progredir a um ritmo superior ao de muitos países ocidentais em termos de esperança de vida, infra-estruturas e inovação. Estamos perante uma escolha política fundamental que diferentes civilizações resolvem de forma distinta: a tensão entre a liberdade individual e a segurança colectiva, entre a agitação criativa do debate aberto e a estabilidade do progresso planeado. Ambas as opções implicam ganhos e perdas, e não cabe ao Ocidente decretar que a sua resposta a este dilema é a única válida. Se, ainda assim, acreditarmos que o nosso modelo é mais virtuoso, convém fortalecê-lo primeiro com resultados que o demonstrem sem abdicar dos nossos princípios, antes de o tentar impor aos outros 88% do mundo.
O risco dos nossos relacionamentos externos deve ser avaliado pelo prisma do pragmatismo e do interesse nacional, não pela cartilha de uma narrativa simplificada de superioridade moral, sem correspondência com a realidade económica do século XXI. Se continuarmos assim, seremos apenas mais pobres e irrelevantes, com o risco adicional de gerar nos outros um perigoso sentimento de rejeição, com consequências potencialmente trágicas. É tempo de descer do pedestal, ser mais humildes, trabalhar mais e negociar com o mundo tal como ele é, e não como gostaríamos que ele fosse. A realidade é o que é e acaba sempre por se nos impor.
Dito isto, nenhuma parceria é isenta de riscos. O investimento chinês, como de qualquer outra origem, exige escrutínio e deve ser avaliado com base no seu mérito. Mas escrutínio não é preconceito e risco não justifica bloqueio.

Bernardo Mendia é licenciado em Direito e, desde 2019, exerce o cargo de Presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portugal‑Hong Kong (PHKCCI). Além disso, desde 2021, ocupa também a posição de Secretário‑Geral da Câmara de Comércio e Indústria Luso‑Chinesa (CCILC). É membro fundador e vice‑presidente do think‑tank Amigos da Nova Rota da Seda (ANRS) e membro executivo da Federação das Associações Empresariais de Hong Kong no Mundo (FHKBAW). É autor de artigos de opinião sobre temas de política externa, desenvolvimento económico e posicionamento estratégico de Portugal no contexto internacional, com foco particular nas relações Portugal‑China e na promoção de investimento e cooperação tecnológica. Bernardo Mendia tem desenvolvido a sua carreira profissional centrada nas relações institucionais e comerciais entre a Europa e a China, com ênfase na internacionalização das empresas portuguesas e na construção de pontes empresariais e diplomáticas.


















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