Os símbolos são uma representação da realidade e os meios de identificação com determinadas vivências. São o significante, a que atribuímos determinado significado.
Desde a antiguidade gravámos símbolos. Esculpímo-los em todos os materiais. Bordámo-los nos panos. Gravámo-los nos metais e nas pedras.
Através dos símbolos forja-se uma identidade comum, transmitida de geração em geração.
Os Comandos constituem uma comunidade com uma identidade própria, que se integra numa comunidade politica mais vasta:
Um Povo
Uma comunidade com símbolos:
O código, o crachá, o estandarte, a boina vermelha, são alguns dos símbolos mais representativos.
Porém, outros símbolos nos convocam, nos “tocam”.
A divisa “audaces fortuna juvat”.
O monumento ao “esforço Comando”.
Os “nomes”, Lamego, Cic de Luanda, Montepuez, Brá, Amadora, St.ª. Guida.
A operação “siroco”.
O “Hino dos Comandos”.
O “Sei, Quero e Posso”.
O “DONNE moi ma de chance” da acção psicológica.
A história, “feita” pelos vinte mil homens “que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando”.
Essa simbologia que singulariza uma identidade, manifesta-se no Código Comando, na exaltação dos valores:
“O Amor à Pátria”
“O Amor ao trabalho”
“O espírito de sacrifício”
“A prática da camaradagem”
“A prática da solidariedade”
“A Afirmação de pessoa de carácter leal e determinado”
“A Recusa da indignidade e da mentira”
“A exaltação dos que lutaram e venceram os obstáculos”
“O servir sem preocupação de paga”.
“O cumprimento da missão”
Os Comandos são homens que, ficaram para sempre irmanados porque se identificaram e interiorizaram determinados símbolos
Os Comandos constituem eles próprios um símbolo.
O Gládio que simboliza a justiça, os cinco castelos Mouros que perpetuam a memória dos que tombaram desde os primórdios da Pátria. O vermelho do sangue derramado, pelos que caíram no campo da honra. É a nossa identidade que desfila, quando os nossos símbolos desfilam.
Esta identidade simbólica é constante e sucessivamente e ritualizada. Nos desfiles, nos Juramentos de Bandeira, nas cerimónias evocativas dos que caíram – 25 de Novembro – nos dias festivos especiais, 29 de Junho, nos convívios das companhias, são rituais que reforçam, dinamizam e cimentam essa identidade. Nenhum grupo na comunidade Portuguesa, possui uma identidade tão forte. Nos grupos de antigos combatentes ou fora deles. É uma identidade que atravessa todas os grupos sociais. Dos mais conservadores aos mais liberais. Dos grupos religiosos (muçulmanos, católicos) aos agnósticos. Dos trabalhadores aos empresários. Do Norte ao Sul. Do Continente às Regiões Autónomas. Do Solo Pátrio à Diáspora. Dos Comandos de “agora” aos Comandos de “outrora”. Dos Comandos formados na guerra, aos Comandos formados nos novos territórios que se tornaram estados soberanos. Sempre o mesmo espírito. O mesmo querer. A mesma vontade de servir. A reacção do grupo à morte recente de um Comando em Kabul exprime essa força, essa identidade. Esta realidade resulta de um processo de integração que se desenvolveu ao longo dos últimos 40 anos.
Não há ex-Comandos. Só Comandos. Nas fileiras e fora delas. No activo e na reserva. Uma vez Comando sempre Comando.
Os Comandos são homens que, ficaram para sempre irmanados porque se identificaram e interiorizaram determinados símbolos.
É um processo imparável, independente da vontade deste ou daquele elemento do grupo. É sabido que os grupos atingem maior ou menor importância social, em resultado do desempenho de alguns dos seus membros, que pelas suas características, podem incutir (ou retirar) maior dinâmica ao próprio grupo. Os símbolos formam-nos num grande colectivo, uno coeso e forte.
Um frémito percorre o nosso corpo ao vermos ou ouvirmos um dos símbolos que interiorizámos. Quando sentimos este frémito, sabemos que pertencemos ao grupo.
Ao vermos uma miniatura do crachá numa lapela, um autocolante colado no pára brisas, ou uma tatuagem no braço ou ao ouvirmos o grito MAMA SUME.
Mesmo afastados de um convívio frequente ou desenquadrados das estruturas formais – Batalhões, Companhia, Associação, fazemos parte deste grupo.
Há um sentimento de pertença ao grupo, mesmo quando nos afastamos da estrutura ou quando nos afastam (expulsão). Um Comando será sempre, para si próprio e para os outros um Comando. O Frémito permanece. Já transcende a racionalidade. É do exclusivo domínio das emoções.
Num credo se chamaria a ISTO comunhão. Num partido convicção. Num grupo como os “Comandos” como se designará?
Nesta comunidade “entra-se” na maioridade. Anteriormente conhecemos a existência do grupo, respeitamos, a sua “áurea” a sua “mística”, desejamos ser um “deles”. A entrada é abrupta, exigente, muitas vezes até violenta. É nesse clima de tensão levado ao extremo que interiorizamos a nossa simbologia. A “quente”, na prova de fogo moldamo-nos e moldam-nos. Participamos nos ritos de passagem. Já não voltaremos ao ponto de partida. A viagem não tem regresso. Entranha-se. Interioriza-se. “Quero”.
Nesta viagem sem regresso, chegamos diferentes e melhores. A densidade psicológica do ritual iniciático, Individualiza-nos. Singulariza-nos. Distingue-nos. Assim nos temos burilado nos últimos 40 anos. Assim os Comandos se tornaram um “grupo social” forte e respeitado na comunidade em que se integram. Em tempo de crise dos valores, de desmembramento, de desagregação, e de fragilização dos grupos (persistem apenas activos os grupos corporativos na defesa dos seus interesses profissionais, ou económicos) ou em que os grupos se transformam em turbas anomistas (como as claques dos clubes), os Comandos permanecem, intervêm, participam. Reforçam a sua identidade simbólica. Aqui reside o “Mistério”.
Sem os símbolos os “Comandos” perderiam a sua verdadeira essência.
Afirmam-se, mesmo que alguém LHES possa “dizer”, como Tito Lívio disse ao general cartaginês, Aníbal Barca: “tu sabes vencer Aníbal, mas não sabes tirar proveito da tua vitória”.
Varela de Matos
Nota: Este artigo foi publicado na 1ª edição da Raia Diplomática em 2009.








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