Num contexto em que o turismo tende a concentrar-se nos destinos mais conhecidos, há projetos que procuram inverter essa lógica e revelar um país mais autêntico, diverso e, muitas vezes, esquecido. É com esse propósito que surge Portugal Less Traveled, uma iniciativa fundada por Carla Andresson e Sónia Nolasco, que aposta na valorização do interior de Portugal como destino turístico de excelência.
Mais do que promover locais, este projeto assume uma missão mais ampla: dar voz às comunidades, preservar tradições e destacar a riqueza cultural e gastronómica de regiões menos exploradas. Com uma visão que ultrapassa o conceito tradicional de operador turístico, as fundadoras posicionam-se como verdadeiras embaixadoras destes territórios, criando experiências que ligam visitantes à essência do país.
“O nosso objetivo é ser a principal referência neste nicho de ‘less traveled.’ Mais do que operadores turísticos ou agências, queremos ser embaixadores destas regiões, representar os sabores, as tradições e contribuir para a manutenção das mesmas”, afirmam Carla Andresson e Sónia Nolasco, sintetizando a filosofia que orienta este projeto inovador.
Começando pela ideia central, que motivações pessoais ou experiências vos levaram a criar um projeto dedicado especificamente às regiões menos turísticas de Portugal? Foi uma viagem, uma memória de infância ou aperceção de uma lacuna no mercado?
Sonia: Eu já escrevo sobre a Beira Baixa como blogger há uns 20 anos, sempre com a intenção de dar voz a região. Acho que esta necessidade começou na minha experiência como imigrante na comunidade portuguesa onde foi criada nos EUA. Na comunidade existiam os Clubes dos Açorianos, dos Bairradinos, dos Serranos, dos Ribatejanos, dos Minhotos, etc… mas quando alguém me perguntava de onde era a minha família, e eu dizia do distrito de Castelo Branco na Beira Baixa, praticamente ninguém percebia muito bem onde isso ficava. Apercebi-me que os próprios portugueses não conheciam, e dai esta vontade de dar voz. Muitos anos depois, comecei a escrever para um blog sobre a gastronomia portuguesa, e isso levou-me a fazer alguns roteiros por Portugal e também a escrever um livro. Nessa altura conheci pessoas ligadas ao turismo, e anos depois quando me mudei para Portugal comecei a trabalhar no turismo em Lisboa. Mas o bichinho da Beira continuava lá… Quando partilhava com os meus clientes o meu entusiasmo sobre a região da Beira via um grande interesse da parte deles. Deu para perceber que se alguém promovesse e vendesse mais estas regiões, havia um mercado para explorar. Mas sozinha, não era possível concretizar estes objetivos. Então falei com a minha prima Carla; chegamos a conclusão que juntas podíamos realmente dar andamento a este sonho. A Carla também foi imigrante nos EUA, mas vive em Portugal há mais de 20 anos, ela tem raízes na Beira, e tem experiência como empresária.
Carla: A ideia inicial começou com a Sónia, e eu estava a adorar todas as ideias que ela ia partilhando comigo. Tive a sorte de passar os verões da minha infância na Beira Baixa com a minha avó, e guardo memórias maravilhosas desses tempos. À medida que as conversas foram evoluindo, aproveitei para alinhar com a minha prima nesta visão. Para mim, tornou-se rapidamente um projeto de coração: uma região que adoro profundamente e uma clara lacuna no mercado fizeram-me acreditar que este projeto tinha realmente pernas para andar. Além disso, a minha experiência como empresária na Costa de Prata mostrou-me que havia tantas coisas lindas para descobrir no interior de Portugal. Muitas vezes encaminhava hóspedes para irem conhecer essas zonas, comprar azeite local e viver experiências autênticas—o que reforçou ainda mais a convicção de que este projeto fazia todo o sentido.
Como é que a vossa experiência profissional anterior ajudou a moldar e a implementar este projeto? Que competências de cada uma foram mais críticasnos primeiros tempos?
Sonia: Em conjunto com a filha da Carla, a Savannah, eu liderei a criação do nosso website www.portugallesstraveled.com. Eu desenvolvi o conteúdo e a Savannah o design. Trabalhei muitos anos em jornais, revistas e em publicidade. O que fiz para o nosso website, já eu tinha feito para clientes e empresas. O conteúdo foi baseado em várias viagens e pesquisas que fizemos, eu e a Carla, durante meses no terreno. Enquanto eu e a Savannah trabalhávamos no website, a Carla tratou da empresa e de toda a burocracia. A experiência que ela tem como empresária foi indispensável.
Quais são os principais objetivos do “Portugal Less Traveled”? É puramente turístico, ou há uma missão de desenvolvimento regional, preservação cultural e apoio às comunidades locais por trás do projeto?
Sonia: É engraçado…porque antes de me mudar para Portugal, eu tinha começado a imaginar um projeto com missão de desenvolvimento regional e preservação cultural. E como digo, o bichinho estava lá sempre. Nessa altura, eu ainda não tinha oportunidade de viver em Portugal e essa missão teria de ser cumprida a distância. Mas a mudança para Portugal aconteceu e com a minha ligação ao turismo, tudo acabou por se encaixar. Apesar do turismo massificado ser algo que temos de gerir bem, esta experiência fez-me perceber como também pode ter um impacto positivo. Os tempos são outros, e já ninguém consome da mesma maneira—e isso ameaça muito a nossa identidade cultural. O turismo pode ser uma solução para sobrevivência de alguns pequenos produtores e artesãos que possam fazer do seu ofício uma atração turística. É uma maneira de proteger, preservar e promover. Há várias associações criadas para proteger as tradições, mas cada vez mais estas entidades precisam de apoio para justificar a sua existência, e muitas delas estão à procura de parcerias para dinamizar os seus projetos.
Não chega só visitar, temos de deixar dinheiro no território, e não só em hotéis e restaurantes. É preciso educar os nossos clientes sobre as necessidades dos locais e como podemos contribuir, principalmente em meios mais pequenos. Na minha experiência, as pessoas que estão a visitar, se souberem como podem ter um impacto positivo, querem colaborar para que isso aconteça.
Compete a nós no turismo fazê-lo.
Carla: O Portugal Less Traveled não é só turismo. Claro que queremos que as pessoas descubram lugares incríveis, mas o objetivo vai muito além disso. Pensamos sempre em preservar aquilo que cada região tem de mais autêntico—a cultura, as tradições, as pessoas e os sabores.
Há também uma grande vontade de apoiar as comunidades locais, pequenos produtores e negócios familiares, ajudando a dar visibilidade ao que já existe, em vez de mudar ou descaracterizar os lugares.
No fundo, queremos que quem nos visita leve boas memórias… e que as regiões fiquem ainda mais valorizadas por isso.

Como conciliam o desejo de dar a conhecer estes destinos com o risco de os “massificar” ? Que estratégias têm para promover um turismo sustentável e respeitador desde o início?
Sónia: Nas zonas que desejamos vender temos feito muito trabalho de terreno para perceber o que os locais pensam e querem. Falamos com moradores, restaurantes, hotéis, postos de turismo, motoristas, e com associações culturais (e outras) que conhecem bem as necessidades de preservação de cada local.
No caso da Beira Interior e Serra da Estrela há um potencial enorme, mas é preciso haver condições e visão para que o turismo tenha um impacto positivo. Vamos usar a Serra da Estrela como exemplo.
Tradicionalmente o turista português faz praia e pouco turismo de montanha e natureza—o que tem feito com que o investimento no interior não tenha chegado como devia.
Mas as tendências estão a mudar e com o aumento da procura, por turistas estrangeiros, pelo nosso país, com hábitos de consumo diferentes, temos razões para começar a ver o interior como uma aposta no turismo. Esta falta de investimento tem prejudicado lugares magníficos como a Serra da Estrela que havendo melhores condições consegue-se desenvolver turisticamente sem perturbar. Mas é preciso haver organização e segurança para quem visita e quem vive no terreno. Num artigo recente no Expresso, Artur Costa Pais, administrador executivo da Turistrela, falou disto mesmo. Uma das coisas que ele defende são parques dissuasores para os automóveis em vários pontos de entrada na serra, que se enquadrem num projeto de telecabine para levar as pessoas à zona mais alta, a Torre, como se vê noutros destinos de montanha europeus. Quem visita a Serra da Estrela para ir à neve, desanima, a maioria das vezes, com o caos de trânsito, para chegar ao ponto mais alto do país. Esta situação acaba por gerar também um problema ambiental. No mesmo artigo, Artur Costa Pais, disse que nunca viu ninguém do governo ou das entidades com responsabilidade no território a preocupar-se com esse cenário, que degrada claramente o turismo. Compete a nós, no turismo, e aos governantes, criar soluções, para o desenvolvimento. Tem de haver visão, implementação da mesma e manutenção.
Poderiam detalhar os serviços que oferecem? Desenham itinerários completamente personalizados, organizam pequenos grupos, ou focam-se em experiências temáticas (gastronomia, natureza, património imaterial)?
Sonia: Neste momento, desenhamos itinerários completamente personalizados, criamos pacotes temáticos e vendemos experiências a la carte. Também fazemos chamadas consultivas para quem simplesmente quer informações e recomendações.
O nosso objetivo é ser a principal referência neste nicho de “less traveled.” Mais do que operadores turísticos ou agências, queremos ser embaixadores destas regiões, representar os sabores, as tradições e contribuir para a manutenção das mesmas
O que é que verdadeiramente distingue o “Portugal Less Traveled” das demais agências de viagens ou plataformas turísticas? É o conhecimento profundo do terreno, a curadoria das experiências, a relação com os “locais”?
Sonia: Acho que o que nos distingue é o sentimento que temos enraizado em nós , fruto da nossa ligação familiar à Beira Baixa, de querer fazer justiça à região e aos sítios que achamos que também merecem visibilidade nacional e internacional.
Carla: Mais do que conhecimento profundo que temos da região, das pessoas e das tradições, é aproximar essas pessoas locais, as empresas e produtores da região, contribuindo para o seu desenvolvimento, e por conseguinte vender sensações únicas, experiências inesquecíveis, sabores e cheiros característicos de uma Beira Baixa, que tem um encanto único e diferenciador a nível nacional. Esta paixão que transmitimos a quem nos visita, em conjunto com o trabalho fantástico que é feito pelas pequenas empresas, produtores locais e comunidades reais, cria ligações autênticas e únicas—e é isso que torna este projeto diferente.
Quem são os principais “partners” deste projeto? Falamos de alojamentos familiares, produtores agrícolas, artesãos, guias especializados? Como constroem e mantêm estas relações de confiança?
Sonia: Os nossos partners são os guias locais, os restaurantes, os hotéis, os chefs de cozinha, etc. e, claro, a nossa família, os amigos, e os seus contactos no terreno. Nós estamos a vender lugares que conhecemos pessoalmente. São sítios onde já fomos felizes e aos quais temos ligações fortes. Mas também estamos a descobrir muito além do que já conhecíamos.
Temos passado bastante tempo com operadores turísticos nestas zonas, e encontramos ótimas ideias e excelente talento—o que falta é passar isso para fora, não só da região, mas para o país e principalmente para fora do país. E nós temos a certeza de que conseguimos passar essa mensagem. Até porque, o nosso grande objetivo a curto e longo prazo é ser a voz de um Portugal profundo, principalmente da Beira e Serra da Estrela, que muitas vezes ficam excluídas quando se vende o país.
Porquê escolheram determinadas regiões para trabalhar (Beira Interior, Alto Alentejo e a zona norte do distrito de Lisboa)?
Sonia: Escolhemos regiões onde de alguma forma temos ligações pessoais, seja família, amigos ou lembranças. Por termos experiências próprias nestas regiões sabemos que há muito potencial para se fazer turismo.
Como imaginam o “Portugal Less Traveled” dentro de 5 anos? Almejam expandir geograficamente dentro de Portugal, diversificar o tipo de viajante, ou talvez solidificar-se como uma referência incontornável para um nicho específico?
Sonia: O nosso objetivo é ser a principal referência neste nicho de “less traveled.” Mais do que operadores turísticos ou agências, queremos ser embaixadores destas regiões, representar os sabores, as tradições e contribuir para a manutenção das mesmas, porque acreditamos que estas pessoas merecem ter visibilidade nacional e internacional. Cinco anos é muito tempo, mas queremos muito e imaginamos que a “Portugal Less Traveled,” possa vir a ser a voz destas regiões no turismo de Portugal. A expansão para outras regiões está no nosso horizonte a longo prazo, porque temos uma paixão enorme pela Beira Baixa e queremos, realmente, contribuir para o desenvolvimento da região.
Carla: Do meu lado, imagino também o projeto a crescer de forma sustentável, sempre mantendo a ligação próxima com as comunidades locais. Mais do que crescer rapidamente, queremos consolidar uma rede forte de parceiros em diferentes regiões do país. Gostaria que daqui a alguns anos, o “Portugal Less Traveled,” fosse reconhecido não só pelos os viajantes, mas também pelas próprias comunidades como um projeto que ajuda a dar visibilidade ao que existe de mais autêntico em Portugal.
Se pudessem dar um único conselho a um viajante que queira sair dos roteiros convencionais em Portugal, qual seria?
Sonia: É importante falar com alguém que conhece as regiões antes de começar essa viagem. Mesmo que não seja uma agência ou operador turístico, pode ser o posto de turismo nessas localidades, bloggers ou grupos nas redes, mas devem de ter alguma ideia de como navegar estes territórios. Digo isto porque apesar de serem lugares fantásticos para conhecer, às vezes chegar lá é o mais difícil. Nem sempre há transportes diretos, o que para quem não quer conduzir dificulta. Para quem gosta de conduzir, as vezes gerir as distâncias ou caminhos antigos sem noção do território não é fácil e perde-se muito tempo porque não houve planejamento prévio. Por esta razão é que oferecemos uma chamada consultiva para quem deseja esse tipo de serviço.
Carla: O meu conselho seria viajar com tempo e curiosidade. Muitas das melhores experiências em Portugal acontecem fora dos grandes centros e surgem quando paramos num pequeno restaurante local, visitamos um produtor ou simplesmente conversamos com quem vive na região. O interior do país tem uma riqueza enorme e vale a pena explorá-la sem pressa. Muitas vezes é nesses lugares menos conhecidos que se encontram as memórias marcantes de uma viagem.
E qual foi, para vocês, a descoberta mais surpreendente nestas regiões menos viajadas — aquela que até vos surpreendeu a vocês, que as conhecem tão bem?
Sonia: Os sabores! Eu já conhecia muitas receitas tradicionais, mas nestas viagens fomos conhecendo novos chefes de cozinha que se inspiram na qualidade e variedade dos produtos que existem nestas regiões, mas estão a dar-lhe os seus toques pessoais. Também descobrimos hotéis encantadores com muita alma. Verdadeiros tesouros! E a maior descoberta (ou talvez recompensa) foi conhecer pessoas locais que nos foram apresentadas por família/amigos que nos fazem acreditar muito no projeto. Nós já tínhamos noção do potencial… são camadas, cada visita, cada pesquisa revela mais uma camada. Estamos a adorar.
Carla: Concordo com a Sónia em relação aos sabores—foram realmente surpreendentes. Mas, para mim, acima de tudo, foi a boa vontade das pessoas: a vontade genuína de divulgar os seus produtos, a disponibilidade para ajudar e o orgulho com que nos diziam tudo o que há de bom na região. Isso marcou-me profundamente.













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