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Fotografía de Daniel Lloyd Blunk Fernandez por cortesía de Unsplash

Três modernos, um moderníssimo e uns literatos selvagens

Luis Sebastián Rosado, café La Rama Dorada, colónia Coyoacán, Cidade do México, maio de 2026.

Monsiváis já o dissera: discípulos de Marinetti e de Tzara, os seus poemas, ruidosos, disparatados, piegas, travaram combate no terreno do simples arranjo tipográfico e nunca ultrapassaram o nível do entretenimento infantil. Monsiváis falava de los estridentistas, mas eu apliquei esse mesmo juízo —num longo ensaio publicado pela editora Sexto Piso— a los real visceralistas; e, depois da minha última passagem por Madrid, penduro esse mesmo sambenito ao pescoço de todos aqueles que se dizem parte de el Movi_Miento, uma corrente tão nebulosa que nem sequer possui um nome para designar os que a professam.

No mês passado coube-me a desgraça de coincidir em Madrid, no Café Gijón, com alguns deles e com Tony, dono de uma agência de viagens em Paris e meu compadre del alma daqueles tempos em que um homem era jovem, estudante e não tinha um peso no bolso na Cidade Luz. Tony, que à sua maneira teve culpa e foi testemunha de tudo, não me deixará mentir: foi muito desagradável.

Eu estava sentado à minha mesa, por volta das oito da noite, à espera de Tony e de Vanesa —ou Vane—, a sua elegante amiga ou talvez amante —ou sei lá eu, nem quero saber, porque com uma personagem como Tony nunca se fazem perguntas—, quando três deles me rodearam. Pensei: que fazem aqui, que vêm fazer comigo, que contas vêm saldar. A verdade é que eles também tinham combinado encontrar-se com Tony. Enfim, falámos durante uns vinte minutos —nunca como então odiei tanto a impontualidade de Tony e da coquete Vanesa—. Em abono da verdade, devo dizer que a plática foi culta e ordenada: perguntaram-me pelos livros que eu trazia comigo, passei-lhos para as mãos e começámos a conversar sobre eles.

José Manuel, um homem alto e magro, de pequenas madeixas prateadas, tinha-os lido a todos; não sei como, mas, à medida que a conversa avançava, dei-me conta de quão difícil seria encontrar um livro que aquele homem não tivesse lido. Luis, mais baixo, com um bigode à Clemenceau, concentrou-se num que tinha que ver com a Grécia, O Colosso de Marússia, de Henry Miller, que trata de uma viagem que o autor fez por Atenas, Creta, Corfu e outros lugares da Grécia pouco antes do rebentar da Segunda Guerra Mundial. É considerado um dos grandes livros de viagens do século passado, disse ele; capta muito bem a essência do povo grego, tanto do moderno daquela época como do clássico. O terceiro, Micky, um pouco barrigudo, com cara de aventureiro bonacheirão, não falava de livros; limitava-se a beber.

Depois chegou Tony, e eu continuava vivo. Disse que via que já nos conhecíamos, que melhor assim, que não eram necessárias apresentações. Vane estava com ele. Quis perguntar-lhe por…, mas ela sentou-se do outro lado da mesa a conversar com os de el Movi_Miento sobre Bolaño, e pareceu-me impróprio lançar a pergunta por cima do mármore.

Assim, pus-me a beber; não tinha porquê, mas foi o que aconteceu. Pedi um conhaque —ali chamam-lhe brandy— e continuei a escutar, sentindo que, se me deixasse resvalar por aquela ladeira, as coisas acabariam por se torcer. Primeiro foi Luis quem foi à casa de banho; ao regressar, despachou-se com um seco «Inominável». José Manuel assentiu e disse: «Já o tinha avisado na sexta-feira passada». Quis perguntar se se referiam ao estado dos sanitários, só para dizer alguma coisa e voltar a entrar na conversa, mas, nesse instante, apareceu outro de el Movi_Miento, um tal Eire.

Vinha, sorriso travesso mediante, com uma bolsa de pano a tiracolo de uma livraria; cumprimentou todos e, sem sequer chegar a sentar-se, já mostrava as suas aquisições: a coleção completa dos Mumin, de Tove Jansson, em versão banda desenhada, editada pela Salamandra. «Não consegui resistir», disse. «Em pequeno li-os todos e, postos assim, tão bonitos na estante, disse para comigo: levo um. Depois pensei que quem diz um também pode levar o número dois, para não ter de voltar amanhã…». Acabei por contar seis exemplares sobre o tampo da mesa.

Mal tinha começado a folheá-los, já com a segunda taça pelo meio, quando pela porta apareceu Roma, voluptuosa artista de cabaré que sempre me parecera a filha que Cleópatra não teve. Por estar com ela eu tinha feito tantos quilómetros desde a Cidade do México, mas quase não tive ocasião nem de a cumprimentar, pois lançou uma saudação geral a todos para tirar, por sua vez, da sua ampla mala, três cadernos de capas negras e elásticos, ao estilo Moleskine. «Os cadernos de poesia de Cesárea Tinajero!», uivou, mais do que falou. «Calientitos, vindos diretamente do deserto de Sonora!»

Todos aplaudimos, eu o primeiro. Tinha chegado o meu momento de brilhar, ou assim pensei. Como toda a gente saberá, houve dois movimentos real visceralistas no México: um primeiro, nos anos vinte, dirigido por Cesárea Tinajero, e um segundo, na segunda metade dos anos setenta, dirigido por Arturo Belano e Ulises Lima. Bolaño explica-o muito bem em Os Detetives Selvagens, e eu bastante melhor no meu ensaio, trabalho em que me tinha embarcado com a esperança de me exibir diante de Vane e Roma, que se tinham autodenominado embaixadoras do real visceralismo na Europa.

Certamente —como já me tinham ouvido dizer ao princípio— sou muito crítico quanto à qualidade literária desse grupo, e assim tive de o manifestar, pois aquilo seria lido por mais pessoas, e ainda por cima pessoas de certo nível, para além de Vane e Roma. Mas há que reconhecer que me interessei por essa minoria para impressionar estas duas diablesas e que, por isso, levava na minha pasta um par de exemplares que queria oferecer-lhes e dedicar-lhes.

A nossa mesa estava completa; numa mesa próxima, Vane, Roma e Eire tinham tomado lugar para estudar o manuscrito, e era ali que eu também tinha de me sentar. Perderam-me a boa educação e o cerimonial com os meus companheiros de mesa no momento de me levantar e recolher os meus haveres. Quando quis alcançar o Parnaso, a mesa acabava de se completar com outros dois de el Movi_Miento recém-chegados: um tal Chufa, que nome cristão teria, digo eu, embora todos lhe chamassem Chufa, e outro que respondia pelo nome de Jesús.

E «Jesus!» foi precisamente o que eu disse para comigo ao ver-me ali plantado, de pé, entre duas mesas, já despedido das pessoas com quem estivera e sem lugar na segunda, sem que a ninguém parecesse importar a minha situação ridícula nem oferecer-me uma cadeira. No fim fui à casa de banho para disfarçar. E à casa de banho não se passava nada. Nada de nada. O estabelecimento acabava de receber uma bela remodelação; o balcão e os móveis luziram como novos, e as instalações sanitárias também. Além disso, achei-a até bastante coquete, com aqueles quadros de época pendurados nas paredes.

À saída passei pelo balcão. Ali estava Micky, de pé, a pedir uma bebida, e eu disse para comigo: pois outra, já que estamos em despesas. E assim continuou a descida. Quando renovámos os copos, outro escritor fazia a sua entrada no café, um tal Tomás García Yebra. Foi recebido com um sonoro aplauso; todos se levantaram e se dirigiram à porta para lhe apertar a mão, dar palmadas nas costas e prodigalizar-lhe todas as demais felicitações de rigor. Pelo que depressa deduzi, o tal Tomás tinha apresentado a sua última peça de teatro, Un padre transgresor, numa livraria de Malasaña poucos dias antes, por meio de uma leitura teatralizada. A sala enchera-se a tal ponto que tiveram de pedir a alguns dos que chegavam que não entrassem. O evento fora um êxito rotundo e agora tocava celebrá-lo.

Aproveitei esse momento, enquanto corriam as taças de champanhe, para me aproximar de Roma e propor-lhe que nos evaporássemos rumo ao melhor restaurante que ela escolhesse em Madrid. Virou-me as costas. Duas garrafas mais tarde, coube a Tomás regressar dos sanitários com o turbo ligado. «Uma afronta a este estabelecimento, ao que ele representou e às letras em geral!», sentenciou. E eu, para dizer a verdade, continuava sem entender nada.

Então Eire aproximou-se da mesa sem dizer palavra e, como se tal coisa, ao voltar entregou a Tomás o alforge vazio em que tinha trazido os seus livros dos Mumin. Não trocaram palavra, e eu reparei bem na cena, porque, como ninguém me dirigia a palavra, estava atento a tudo, e Tomás assentiu nomás e voltou às casas de banho. Regressou depois ao grupo; Eire tinha-lhe preparada uma taça. «Calvados para o campeão!», foi tudo o que disse ao aproximar-lha. Tomás esvaziou-a de um trago e partiu.

E eu, até esse momento, não tinha compreendido nada. Odiava Espanha, odiava aquele café, odiava aqueles escritores e, sobretudo, odiava Roma por não me fazer caso nenhum. Chufa deve ter percebido a minha desolação, porque me lançou o braço ao ombro para me dizer algo assim como: «Homem, tu não eras o que tinha escrito sobre los real visceralistas?» Pedi-lhe licença para me aproximar da zona das mesas e mostrar-lhe o meu livro. Quando voltei, tinha-se criado um inferno de mil diabos.

Um empregado apercebera-se de que tinham desaparecido dois quadros das casas de banho dos homens. Foi assim que compreendi tudo. O encarregado tinha-se virado contra Eire. «Isto é obra sua, que há uns dias nos estava a pedir que retirássemos os quadros que agora faltam. Diga-nos o que fez com eles!» O tal Eire, tranquilo, ou melhor, divertido, respondia que nada sabia desses quadros; que, por respeito, se impusera, sempre que viesse ao Café Gijón, ir apenas à casa de banho das senhoras e não à dos homens; e que, portanto, em momento algum passara por ali.

Os clientes começaram a aglomerar-se e a levantar a voz, apoiando uns o grupo, outros a direção, embora estes últimos fossem antes poucos. Foi então que compreendi que os dois retratos que tinham levado correspondiam a Fernando Fernán Gómez e a Umbral, dois escritores muito queridos do café, que a nova direção e a remodelação tinham desterrado para os urinóis. Como os quadros não iam aparecer e o tumulto ia crescendo, teve de fazer a sua entrada a Policía Nacional. Quando me pediram a documentação, comecei a vomitar.

Tony. La Taverne de Montmartre. Paris. Maio de 2026.

O que Luis Sebastián refere é certo. Os quadros apareceram poucos dias depois num pacote anónimo dirigido à Polícia Local. Como nessa altura o assunto já tinha saltado para os meios de comunicação, a direção do Café Gijón decidiu não voltar a pendurá-los, nem nas casas de banho nem em parte alguma. Na sua página de Instagram indicou que os tinha enviado a um restaurador, uma maneira diplomática de dizer que hoje estão a ganhar pó em Deus sabe que arrecadação.

Quanto à vomitadela do meu amigo, devo pedir desculpa em seu nome. Não é, em absoluto, aceitável.

Eire.

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