Press "Enter" to skip to content
Carolina Ramalho, CEO de Conectare

Conectare: Ligar o Brasil e a Europa com o Tourism Intelligence

Numa altura em que os destinos turísticos procuram diferenciar‑se num mercado global cada vez mais competitivo, a mera promoção de imagem já não basta. É preciso transformar dados, relacionamentos e conhecimento de mercado em decisões concretas. É precisamente nesse domínio que atua a Conectare, uma consultoria que se define a partir do conceito de Tourism Intelligence indo muito além do marketing turístico tradicional, focado na visibilidade, para trabalhar a tomada de decisão, a identificação de oportunidades reais de negócio e a articulação estratégica entre os players do setor.

Com sede na Espanha e raízes no Brasil, a Conectare opera como uma ponte entre os mercados turísticos europeu, brasileiro e latino‑americano, aproximando destinos, operadores, companhias aéreas e compradores internacionais. Nesta entrevista exclusiva à Raia Diplomática, Carolina Ramalho, CEO da Conectare, partilha a sua visão sobre o papel dos eventos B2B presenciais, o equilíbrio entre crescimento turístico e sustentabilidade, a construção de confiança num setor profundamente relacional, e a forma como iniciativas como o Meeting Brasil Europa estão a redefinir a aproximação comercial entre o Brasil e o mercado ibérico.

A Conectare define-se como uma consultoria de Tourism Intelligence. Em que medida esse conceito vai além do marketing turístico tradicional?

O marketing turístico tradicional normalmente trabalha visibilidade. A inteligência turística trabalha tomada de decisão.

Na Conectare, inteligência significa compreender mercados emissores, comportamento de compra, posicionamento de destinos, conectividade aérea, perfil de operadores, oportunidades comerciais e capacidade real de inserção de produtos turísticos em diferentes mercados internacionais.

Mais do que promover destinos, nosso trabalho é identificar onde existem oportunidades concretas de negócios e aproximar os parceiros certos.

Muitas vezes, o problema não está na qualidade do destino, mas na falta de acesso aos decisores adequados ou na ausência de uma estratégia internacional estruturada.

Por isso, trabalhamos muito próximos do trade turístico internacional, especialmente operadores, companhias aéreas, associações e buyers estratégicos, conectando os destinos brasileiros aos profissionais que efetivamente influenciam ou decidem a comercialização desses produtos no exterior.

Sediada na Espanha e com raízes no Brasil, a Conectare opera num eixo atlântico. Como descreve o “core business” da empresa hoje?

A Conectare atua como ponte estratégica entre os mercados turísticos do Brasil, Europa e América Latina.

Nosso foco está principalmente na abertura e desenvolvimento de mercados internacionais para destinos brasileiros, especialmente no mercado ibérico, aproximando esses players do trade turístico internacional.

Isso envolve desde inteligência de mercado e articulação institucional até relacionamento comercial, curadoria de contatos e geração de oportunidades de negócios.

Ao mesmo tempo, também acompanhamos o movimento inverso: compreender o perfil e as demandas do turista europeu para ajudar destinos brasileiros a posicionarem melhor seus produtos, experiências e estratégias comerciais.

Hoje, existe um desafio muito grande de transformar promoção em resultado comercial efetivo. E é justamente nessa conexão entre estratégia, relacionamento e negócios que a Conectare atua.

Meeting Brasil em Portugal

O turismo é frequentemente o primeiro embaixador económico entre nações. Como avalia o papel das embaixadas, agências turísticas oficiais e câmaras de comércio na abertura de mercados, face ao trabalho de uma consultoria privada como a Conectare?

O turismo tem um papel muito importante na diplomacia econômica porque, muitas vezes, é a porta de entrada da relação entre países. Antes de existir investimento, comércio ou intercâmbio empresarial mais profundo, normalmente existe circulação de pessoas, percepção de destino e construção de imagem internacional.

Nesse contexto, embaixadas, órgãos oficiais de turismo e câmaras de comércio têm um papel fundamental na abertura institucional dos mercados, no fortalecimento das relações bilaterais e na criação de ambientes favoráveis para cooperação internacional.

Ao mesmo tempo, o trabalho de uma empresa privada como a Conectare acontece numa camada mais operacional e comercial.

Enquanto as instituições públicas atuam na promoção institucional e nas relações diplomáticas, a Conectare trabalha diretamente na articulação entre os players do mercado, aproximando destinos, operadores, companhias aéreas, compradores e parceiros estratégicos.

São atuações complementares.

Na prática, muitas vezes as oportunidades surgem justamente quando existe alinhamento entre promoção institucional e desenvolvimento comercial estruturado.

O mercado turístico internacional é muito baseado em relacionamento, confiança e continuidade. Por isso, a combinação entre presença institucional e articulação privada tende a gerar resultados muito mais consistentes na abertura e consolidação de mercados.

A Conectare esteve na FITUR Madrid 2026 e trabalha na gestão de Hosted Buyers (compradores convidados) para a ABAV Expo e o BTM. Num mundo pós-pandemia, onde o digital parecia substituir a feira física, por que razão os eventos B2B presenciais voltaram a ser estratégicos, e qual o valor acrescentado que a Conectare traz nesse ecossistema?

A pandemia acelerou muito os processos digitais no turismo, mas também deixou evidente que relacionamento continua sendo um dos ativos mais importantes do setor, especialmente no turismo B2B internacional.

As plataformas digitais facilitam o acesso, mas não substituem confiança, conexão humana e construção de relacionamento de longo prazo.

No turismo internacional, muitas decisões estratégicas ainda acontecem presencialmente: negociações comerciais, definição de campanhas cooperadas, construção de parcerias, expansão de produtos e até decisões relacionadas à conectividade aérea.

Por isso, os eventos B2B apresentam tanta força no pós-pandemia. O mercado percebeu que presença física não é apenas networking social, mas desenvolvimento comercial.

No caso dos programas de Hosted Buyers em eventos como a ABAV Expo e o BTM, a EMBRATUR desempenha um papel fundamental no apoio a essas iniciativas e na curadoria dos compradores internacionais convidados, enquanto a Conectare colabora nesse processo, especialmente por seu relacionamento com o mercado internacional e pelo conhecimento dos principais players do trade turístico.

Esse trabalho exige acompanhamento constante dos mercados, entendimento sobre perfil de distribuição turística e conhecimento sobre quais compradores realmente possuem potencial de geração de negócios para os destinos e empresas brasileiras.

Mais do que volume de reuniões, o foco está na qualidade das conexões e na possibilidade de transformar esses encontros em relações comerciais duradouras.

Hoje, uma feira eficiente não é a que reúne mais pessoas, mas a que consegue gerar conexões mais relevantes.

O turismo tem um papel muito importante na diplomacia econômica porque, muitas vezes, é a porta de entrada da relação entre países. Antes de existir investimento, comércio ou intercâmbio empresarial mais profundo, normalmente existe circulação de pessoas, percepção de destino e construção de imagem internacional

A gestão e curadoria de compradores internacionais exige uma rede de confiança transnacional. Como se constrói essa credibilidade entre operadores turísticos europeus e emissores brasileiros, num contexto onde a informalidade às vezes pesa mais do que o contrato?

No turismo internacional, credibilidade se constrói principalmente através de relacionamento contínuo e confiança de longo prazo.

Os operadores turísticos trabalham com parceiros com quem se sentem seguros para desenvolver produtos, investir comercialmente e manter relações consistentes ao longo do tempo. E isso vai muito além de contratos formais.

Existe um componente humano muito forte no turismo B2B internacional.

Por isso, o contato direto continua sendo tão importante. Participar dos eventos nos diferentes mercados, acompanhar os operadores, entender as mudanças do setor e manter proximidade com os parceiros faz diferença na construção dessa confiança.

No caso da relação entre Europa e Brasil, existe também um desafio cultural relevante. Os mercados possuem ritmos, expectativas e formas de negociação diferentes. Parte do trabalho da Conectare é justamente atuar como ponte entre essas realidades, aproximando interesses e facilitando conexões mais sólidas entre os players dos dois lados.

A credibilidade não nasce apenas da promoção de um destino, mas da capacidade de construir relações consistentes, transparentes e duradouras.

E isso exige tempo, presença e recorrência no mercado.

A inteligência artificial e os big data estão a transformar a forma como se antecipam tendências de viagem. Como a Conectare enxerga esse movimento?


As ferramentas de inteligência artificial e análise de dados já fazem parte do turismo internacional e ajudam muito na identificação de tendências, comportamento de consumo e movimentação de mercados.

Mas, no turismo B2B, especialmente no turismo internacional, relacionamento continua sendo um ativo extremamente estratégico.

Os dados mostram tendências. As relações mostram intenção real de mercado.

Uma plataforma pode indicar aumento de buscas por determinado destino, mas a decisão de inserir um produto numa operadora, ampliar uma malha aérea ou investir comercialmente em um mercado ainda depende muito de confiança, relacionamento e percepção estratégica.

Na Conectare, vemos a tecnologia como uma ferramenta complementar à inteligência de mercado, mas não como substituição da presença humana, da articulação institucional e da construção de relações de longo prazo.

O turismo internacional ainda é um setor profundamente baseado em confiança.

O turismo de massas enfrenta hoje uma crise de legitimidade ambiental. Como concilia a ambição de crescimento dos destinos brasileiros  que precisam de mais visitantes europeus  com a pressão por turismo regenerativo, de baixo impacto e distribuído territorialmente?

O crescimento turístico e a sustentabilidade não deveriam ser vistos como conceitos opostos. O desafio está no modelo de desenvolvimento adotado.

Durante muito tempo, o turismo foi medido quase exclusivamente por volume de visitantes. Hoje, existe uma discussão muito mais ampla sobre impacto econômico, capacidade de carga, distribuição territorial e benefício real para as comunidades locais.

No caso do Brasil, existe ainda uma diferença importante em relação a muitos destinos europeus que já enfrentam problemas severos de overtourism. O Brasil possui enorme diversidade territorial e potencial para desenvolver produtos turísticos de forma mais distribuída e descentralizada.

Isso abre espaço para um turismo internacional mais equilibrado, que valorize cultura, natureza, experiências autênticas e permanência mais longa nos destinos.

O turista europeu também mudou muito nos últimos anos. Existe uma procura crescente por experiências mais sustentáveis, contato com comunidades locais, gastronomia, identidade cultural e destinos menos massificados.

Por isso, acredito que o futuro não está em trazer mais turistas a qualquer custo, mas em atrair visitantes mais alinhados com o perfil e a capacidade de cada destino.

Nesse contexto, inteligência de mercado se torna fundamental. É preciso entender quais mercados fazem sentido para cada produto, qual perfil de visitante o destino deseja atrair e como desenvolver estratégias de crescimento mais sustentáveis no longo prazo.

O turismo pode ser uma ferramenta muito positiva de desenvolvimento econômico e valorização territorial, desde que exista planejamento e visão estratégica.

O Meeting Brasil é um evento jovem na Península Ibérica, mas com o peso institucional da Embratur por trás. Na sua visão, que lacuna do mercado o Meeting Brasil Europa preenche na relação entre o trade brasileiro e o mercado ibérico?

O Meeting Brasil Europa é uma iniciativa da Expan+, liderada por seu Diretor de Negócios, Jair Pasquini, e vem ocupando um espaço muito relevante na aproximação entre o trade turístico brasileiro e o mercado ibérico.

Embora a presença do evento na Europa seja mais recente, o Meeting Brasil possui uma trajetória consolidada de mais de 30 anos de atuação na América Latina, com dezenas de edições realizadas em diferentes mercados internacionais. Isso traz ao projeto uma maturidade comercial e uma rede de relacionamento já muito estruturada no turismo internacional. 

Nesta ação, a Conectare atua nas articulações estratégicas com operadores, parceiros institucionais e players do turismo internacional.

Na minha visão, o principal diferencial do Meeting Brasil está na Reunião de Produtos, que coloca destinos, hotéis e empresas brasileiras frente a frente com os gestores de produto das principais operadoras de turismo dos mercados por onde o evento passa.

Isso é extremamente estratégico, porque são esses profissionais que efetivamente desenham, contratam, posicionam e comercializam os produtos brasileiros no mercado internacional.

Enquanto muitas feiras acabam gerando contatos amplos, o Meeting Brasil trabalha uma lógica direcionada e comercial, promovendo reuniões qualificadas entre quem vende o Brasil e quem decide inserir o destino nas prateleiras internacionais.

Além disso, o evento fortalece a presença institucional e comercial do Brasil no mercado ibérico ao longo do ano, criando continuidade nas relações e ampliando as oportunidades de negócios entre os dois mercados.

Se tivesse de apontar um único projeto ou edição de evento em que a Conectare tenha deixado uma marca indelével na forma como Brasil e Europa se reconectam turisticamente, qual seria e que lições retém?

Mais do que um único projeto isolado, acredito que a principal contribuição da Conectare esteja justamente na construção contínua de pontes entre o Brasil e os mercados europeus, especialmente através da aproximação entre destinos brasileiros e os decisores do trade turístico internacional.

Mas, se tivesse de destacar uma iniciativa com impacto representativo, apontaria o trabalho desenvolvido junto ao mercado espanhol, especialmente nas articulações relacionadas à promoção de Pernambuco e na aproximação entre operadores espanhóis e o turismo brasileiro através de eventos, agendas estratégicas e programas de negócios.

O mais interessante nesse processo é perceber como o relacionamento contínuo consegue transformar percepção de mercado.

Muitas vezes, o operador europeu conhece o Brasil de forma muito limitada ou concentrada em poucos produtos tradicionais. Quando existe aproximação estratégica, contato direto com os destinos, reuniões qualificadas e continuidade nas relações, o mercado passa a enxergar novas possibilidades comerciais.

A principal lição talvez seja justamente essa: no turismo internacional, conexões relevantes não se constroem apenas através de campanhas, mas através de presença constante, confiança e relacionamento de longo prazo.

O turismo é um setor profundamente humano. E, muitas vezes, são as relações construídas ao longo do tempo que acabam abrindo espaço para novos fluxos, novos produtos e novas oportunidades entre países.

Be First to Comment

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Raia Diplomática

Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.