A transição energética está a acelerar uma transformação silenciosa na Península Ibérica.
Novas infraestruturas energéticas, centros de dados, plataformas logísticas ou projetos industriais ligados à inovação estão a começar a redesenhar o mapa económico ibérico e a gerar novas dinâmicas de ligação entre territórios de Espanha e Portugal.
E, neste novo cenário, a Raia ibérica tem uma oportunidade especialmente interessante: tornar-se um espaço cada vez mais conectado, complementar e atrativo para projetos com dimensão internacional.
A recente criação do Observatório Ibérico da Energia entre Portugal e Espanha reflete bastante bem este momento. Para além da cooperação técnica entre ambos os países, este tipo de iniciativas evidencia algo muito mais profundo: determinados desafios ligados à energia, às infraestruturas ou à competitividade industrial começam a exigir visões cada vez mais partilhadas.
Sentar, perguntar, escutar e compreender não apenas que projetos existem, mas também que visão, prioridades ou capacidades existem por detrás deles
Neste contexto, a energia está provavelmente a obrigar, mais do que qualquer outro setor, a repensar o território a partir de uma lógica mais conectada.
As redes elétricas, a capacidade de armazenamento, as ligações logísticas ou as novas implantações industriais já não funcionam apenas dentro de limites administrativos clássicos. O que acontece em matéria energética em Portugal gera impacto em Espanha. E vice-versa. É precisamente aí que começam a surgir novas oportunidades para construir espaços económicos mais amplos, dinâmicos e competitivos.
O crescimento do porto de Sines é um bom exemplo disso. A sua evolução não afeta apenas o litoral português, mas está também a reforçar ligações logísticas, energéticas e empresariais que alcançam cada vez mais espaços da Península. Algo semelhante acontece com projetos ligados ao armazenamento energético, aos centros de dados ou às novas atividades industriais associadas à transição energética.
O próprio Mercado Ibérico da Eletricidade (MIBEL) demonstrou, há anos, que Portugal e Espanha podiam avançar para estruturas partilhadas capazes de gerar uma maior integração energética e uma visão mais ampla do território. Hoje começam a surgir novas oportunidades para transportar essa visão para outros domínios ligados à competitividade, à inovação ou à atração de atividade económica.
É neste cenário que surge uma das questões mais interessantes para o espaço ibérico nos próximos anos: quanto valor conjunto poderíamos construir se começássemos a pensar mais em termos de oportunidade partilhada?
Tudo isto exige algo tão simples e, ao mesmo tempo, tão poderoso como ter um interesse genuíno pelo que o outro está a fazer.
Sentar, perguntar, escutar e compreender não apenas que projetos existem, mas também que visão, prioridades ou capacidades existem por detrás deles. Não para reproduzir automaticamente o mesmo do outro lado da fronteira, mas para descobrir até que ponto nos podemos complementar, acrescentar valor mutuamente e construir projetos com maior dimensão, maior capacidade de atração e maior projeção internacional.
Ao mesmo tempo, isso implica também um exercício muito interessante de introspeção. Compreender aquilo em que somos realmente bons, o que podemos oferecer e de que forma determinadas capacidades, setores ou especializações se podem reforçar mutuamente quando são pensados a partir de uma lógica mais aberta e colaborativa.
Porque colaborar verdadeiramente não significa parecermo-nos mais. Significa compreender melhor aquilo que cada um pode acrescentar dentro de uma visão partilhada muito mais ampla.
Neste sentido, um dos elementos mais valiosos para os próximos anos provavelmente não terá apenas que ver com infraestruturas ou investimentos, mas também com a capacidade de criar espaços estáveis de conversa.
Espaços onde territórios próximos se possam conhecer melhor, partilhar prioridades, identificar oportunidades e pensar conjuntamente projetos de médio e longo prazo. Observatórios, redes setoriais, encontros empresariais ou fóruns permanentes podem desempenhar um papel importante nessa construção de confiança e visão partilhada.
Muitas vezes, as ligações mais interessantes não surgem apenas nos documentos estratégicos, mas na capacidade de gerar diálogo continuado, curiosidade pelo que o outro está a construir e vontade real de explorar novas possibilidades em conjunto.
Em última análise, talvez aí resida uma das oportunidades mais interessantes que a Península Ibérica tem hoje: descobrir até que ponto a energia, a inovação e as novas dinâmicas económicas podem também ajudar-nos a construir uma visão partilhada muito mais ambiciosa, conectada e competitiva do território.

Mayte Salazar (Badajoz, 1976) é licenciada em Direito e atualmente sócia fundadora da Garuda Consulting, uma empresa especializada em consultoria estratégica e internacionalização de projetos entre Espanha, Portugal e os países lusófonos.
Conta com uma sólida trajetória no desenvolvimento territorial e na cooperação institucional, tendo desenvolvido a sua carreira, mais recentemente, na Junta da Extremadura e na AICEP Portugal Global, nas áreas da promoção económica e da atração de investimento.
Atualmente, acompanha empresas e instituições no desenvolvimento de projetos no espaço ibérico e internacional, com especial enfoque nos mercados de língua portuguesa e da América Latina.























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