Num momento em que a Europa enfrenta um recrudescimento do discurso de ódio, da polarização social e da intolerância religiosa, o diálogo inter-religioso e intercultural assume um papel cada vez mais central na prevenção de conflitos e na construção de sociedades mais coesas. É neste contexto que o Embaixador António de Almeida-Ribeiro, Secretário-Geral em funções do Centro Internacional para o Diálogo Inter-religioso e Inter-cultural Rei Abdullah bin Abdulaziz (KAICIID), defende uma abordagem preventiva baseada na criação de confiança entre comunidades, na literacia religiosa e no envolvimento de líderes políticos, religiosos e da sociedade civil.
Com sede em Lisboa desde 2022 e tendo Espanha como um dos seus Estados-membros fundadores, o KAICIID desenvolve programas em várias regiões do mundo para combater o discurso de ódio, promover a mediação e reforçar o papel das comunidades religiosas na construção da paz. Nesta entrevista, o Embaixador António de Almeida-Ribeiro faz um balanço da contribuição espanhola para a missão do Centro, reflete sobre os desafios atuais da coexistência religiosa na Europa e explica por que razão considera que o diálogo deve deixar de ser encarado como uma resposta de emergência para passar a integrar, de forma permanente, as políticas públicas de coesão social e prevenção de conflitos.
Como avalia o contributo de Espanha como Estado-membro fundador do KAICIID para a missão do Centro ao longo destes anos, e como pode avaliar a sua última visita oficial a Espanha?
Espanha tem sido um parceiro fundamental para o KAICIID desde a sua fundação em 2012. Ao longo destes anos, demonstrou uma compreensão muito clara da importância do diálogo inter-religioso e intercultural para a construção de sociedades mais coesas e resilientes. Hoje, esta missão torna-se particularmente relevante. Num contexto marcado por desafios crescentes à convivência entre comunidades, Espanha tem demonstrado um compromisso consistente com a promoção do diálogo como resposta a estes desafios.
A minha recente visita ao país permitiu-me reafirmar este compromisso. Tive encontros muito positivos com representantes institucionais, organizações da sociedade civil e outros parceiros que partilham esta visão. Encontrei uma grande disponibilidade para aprofundar a cooperação e uma convicção genuína de que a coesão social se constrói através do envolvimento das comunidades e da criação de espaços de encontro.
Saí de Espanha com confiança renovada no papel que o país continuará a desempenhar no trabalho do KAICIID e na promoção do diálogo a nível europeu e internacional.
A herança histórica espanhola confere ao país uma voz particularmente credível no diálogo inter-religioso europeu e global?
Ao longo de diferentes períodos da sua história, Espanha foi o palco de encontros entre as tradições cristã, judaica e islâmica, tornando-se um espaço fundamental de intercâmbio cultural, intelectual e religioso que marcou profundamente a Europa. É verdade que esta experiência não esteve isenta de desafios ou tensões, mas deixou-nos ensinamentos de grande valor sobre a convivência entre comunidades diversas.
Aquilo que considero mais relevante é a forma como o país tem sabido olhar para esse legado histórico como uma fonte de inspiração para responder aos desafios atuais. Num momento em que muitas sociedades enfrentam divisões e discursos de exclusão, Espanha recorda-nos que a diversidade pode ser uma fonte de enriquecimento mútuo e de progresso coletivo. Esta mensagem continua a ser extremamente importante, tanto na Europa como noutras regiões do mundo.
É por isso que o KAICIID investe na formação e na capacitação de líderes religiosos em áreas como a mediação, os direitos humanos e a comunicação para a paz, mas também em temáticas como a ação climática e a prevenção do discurso de ódio
Como avalia a transferência da sede do KAICIID de Viena para Lisboa em 2022, e que oportunidades de cooperação ibérica identifica para reforçar o impacto do diálogo inter-religioso na Península e na Europa?
Lisboa é uma cidade profundamente ligada ao diálogo entre culturas. Pela sua história, pela sua posição geográfica e pela sua ligação com a Europa, África e ao Continente Americano. A cidade e o país oferecem um contexto particularmente favorável para uma organização cuja missão passa por aproximar comunidades e promover o entendimento entre diferentes tradições religiosas e culturais.
Simultaneamente, a cooperação na Península Ibérica partilha uma história marcada pelo contacto com diferentes povos, culturas e religiões, bem como desafios comuns relacionados com a integração, a diversidade e a coesão social.
Vejo um enorme potencial para aprofundar projetos conjuntos envolvendo universidades locais, como por exemplo a Universidade Católica Portuguesa com quem desenvolvemos um projeto este mês tendo como base o papel de Manuscritos Religiosos para a promoção do diálogo nos dias de hoje. Penso que autarquias, organizações da sociedade civil e líderes religiosos dos dois países podem ser grandes impulsionadores desses projectos. Acredito que a Península Ibérica pode afirmar-se como uma referência europeia na promoção do diálogo intercultural e inter-religioso.
Num momento em que a Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância alerta para níveis alarmantes de discurso de ódio na Europa, com crianças e jovens como os grupos mais vulneráveis, como caracteriza o estado da coexistência religiosa no continente hoje?
Vivemos um momento de grande complexidade. O aumento do discurso de ódio, da polarização e da discriminação, muitas vezes amplificados pelas redes sociais, representa um desafio sério para a convivência nas nossas sociedades.
Os jovens estão particularmente expostos a estes fenómenos e sabemos que muitos enfrentam situações difíceis de exclusão ou hostilidade ligadas à sua identidade religiosa, cultural ou étnica.
Contudo, seria injusto olhar apenas para os sinais de alerta. Em toda a Europa existem comunidades ativas, líderes religiosos empenhados, professores dedicados e organizações da sociedade civil que trabalham diariamente para promover o respeito mútuo e fortalecer a confiança entre pessoas de diferentes origens. A religião continua a ser uma dimensão muito importante na vida de milhões de pessoas globalmente, sabemos que mais de 75% da população mundial tem uma identidade religiosa, como tal não pode não ser tida em conta esta identidade. Quando utilizada para alimentar divisões, os seus efeitos podem ser muito negativos; mas quando é colocada ao serviço do diálogo e do entendimento, torna-se uma força poderosa para a coesão social.
O nosso paperl no KAICIID passa precisamente por apoiar e dar visibilidade a estas iniciativas, criando pontes entre comunidades e ajudando a transformar boas práticas locais em exemplos que possam inspirar outros contextos.
O KAICIID trabalha na Europa no combate ao discurso de ódio, na educação inclusiva para refugiados e na promoção de plataformas como o Conselho de Liderança Muçulmano-Judaica. Quais são, na sua avaliação, as maiores ameaças à coexistência pacífica na Europa atual?
Uma das maiores ameaças é, sem dúvida, a rapidez com que a desinformação e o discurso de ódio circulam hoje no espaço digital. Narrativas de divisão conseguem alcançar milhões de pessoas em muito pouco tempo e, frequentemente, encontram terreno fértil em contextos de insegurança ou desconfiança.
Preocupa-me também a crescente fragilidade dos laços de confiança dentro das próprias sociedades. Quando as pessoas deixam de confiar nas instituições, nos seus vizinhos ou em grupos diferentes dos seus, torna-se mais fácil alimentar preconceitos e discursos divisivos.
Há ainda um terceiro desafio que considero fundamental: a falta de oportunidades para o encontro. Muitas vezes, as pessoas formam opiniões sobre comunidades que nunca conheceram verdadeiramente. Quando não existem espaços para o diálogo e para o contacto humano, os estereótipos tendem a ocupar esse espaço.
É precisamente por isso que o KAICIID investe tanto na criação de plataformas de diálogo, na criação de um ecossistema de diálogo, porque acima de tudo é preciso garantir que permitimos que essas plataformas cresçam e subsistem durante largos anos. A nossa experiência mostra que é muito mais eficaz construir relações de confiança antes das crises do que tentar reconstruí-las depois de um conflito já estar instalado.
Como podem as comunidades religiosas contribuir ativamente para essa confiança, sendo frequentemente mais próximas das realidades locais do que as instituições formais?
As comunidades religiosas desempenham um papel único porque estão profundamente enraizadas na vida quotidiana das pessoas. Os seus líderes acompanham famílias, conhecem as preocupações das comunidades e estão presentes tanto nos momentos de celebração como nos momentos de maior dificuldade, porque fazem parte da vida da sua comunidade e estão instrinsicamente ligados a ela.
Essa proximidade cria níveis de confiança que dificilmente podem ser alcançados por estruturas mais distantes da realidade local. Quando um líder religioso promove o diálogo, combate a desinformação ou incentiva o respeito por outras comunidades, a sua mensagem tem frequentemente um impacto muito significativo.
É por isso que o KAICIID investe na formação e na capacitação de líderes religiosos em áreas como a mediação, os direitos humanos e a comunicação para a paz, mas também em temáticas como a ação climática e a prevenção do discurso de ódio. Ao longo dos anos, já trabalhámos com milhares de líderes em diferentes regiões do mundo e formamos anualmente grupos de Fellows com o propósito que estes se tornem agentes de mudança positiva dentro das suas próprias comunidades.
O KAICIID dá formação comunidades religiosas com conhecimentos sobre estruturas políticas e direitos humanos, e forma decisores políticos em literacia religiosa. Esta abordagem dupla é, na sua opinião, a chave para uma resposta mais eficaz à fragmentação social?
Muitas vezes, a fragmentação social resulta de uma falta de compreensão entre diferentes setores da sociedade que raramente dialogam entre si.
Por um lado, encontramos líderes religiosos profundamente comprometidos com as suas comunidades, mas que nem sempre conhecem os processos políticos ou os instrumentos disponíveis para defender os seus interesses e contribuir para as políticas públicas. Por outro, encontramos decisores políticos que reconhecem a importância da diversidade religiosa, mas que nem sempre compreendem plenamente o seu impacto na vida das pessoas. O objetivo do KAICIID é aproximar estes dois universos. Quando líderes religiosos compreendem melhor o funcionamento das instituições e quando responsáveis políticos desenvolvem uma maior literacia religiosa, torna-se mais fácil construir soluções inclusivas e eficazes.
A nossa experiência mostra que os desafios atuais exigem precisamente esta capacidade de criar pontes entre diferentes perspetivas. É nesse encontro que surgem muitas das respostas mais sustentáveis para as sociedades contemporâneas.
A resposta ao discurso de ódio exige mais do que medidas legais ou tecnológicas, exige educação, investigação e colaboração entre instituições e sociedade civil. Que papel atribui à educação inclusiva e à literacia inter-religiosa na prevenção primária do radicalismo?
A educação continua a ser uma das ferramentas mais poderosas que temos para prevenir a intolerância e o radicalismo. As leis são necessárias e as plataformas tecnológicas têm responsabilidades importantes, mas nenhuma dessas respostas substitui a capacidade de formar cidadãos informados, críticos e preparados para viver em sociedades diversas.
A educação inclusiva ajuda-nos a compreender o outro antes de o julgarmos ou temermos. Ensina-nos a questionar discursos simplistas, a reconhecer a desinformação e a valorizar diferentes perspetivas.
A literacia inter-religiosa desempenha aqui um papel particularmente importante. Não se trata apenas de conhecer diferentes religiões, mas de compreender como as crenças, as culturas e as identidades influenciam as sociedades em que vivemos. Quando os jovens aprendem a história das contribuições de diferentes comunidades para o desenvolvimento da nossa civilização, passam a olhar para a diversidade como uma riqueza comum e não como uma ameaça.
Essa mudança de perspetiva pode parecer simples, mas tem um impacto profundo na forma como construímos sociedades mais inclusivas e resistentes ao extremismo.
O programa She4Dialogue do KAICIID visa reforçar a presença de mulheres nos fóruns de decisão. Por que razão a inclusão de mulheres e de outras vozes marginalizadas é fundamental para desmontar dinâmicas de ódio e fragmentação?
As Nações Unidas documentaram que a participação das mulheres nos processos de paz aumenta a durabilidade dos acordos até 35%. Este não é um dado simbólico, reflete uma evidência empírica sobre o que funciona. E a razão é relativamente simples: quando se excluem vozes, excluem-se perspetivas; quando se excluem perspetivas, os acordos que se alcançam são mais frágeis porque não refletem a totalidade das realidades que devem servir.
Ao longo dos anos tenho visto como muitas mulheres desempenham um papel essencial na construção de confiança dentro das comunidades, na resolução de conflitos locais e na aproximação entre grupos que raramente dialogam entre si.
O mesmo princípio aplica-se a outras vozes que tradicionalmente ficam à margem dos processos de decisão. Quando excluímos pessoas, perdemos conhecimento, experiência e perspetivas importantes. Quando as incluímos, aumentamos a nossa capacidade de encontrar respostas mais equilibradas e sustentáveis para os desafios que enfrentamos.
O programa She4Dialogue nasce precisamente dessa convicção: a de que o diálogo só é verdadeiramente transformador quando reflete a diversidade das sociedades que pretende servir.
Que mudanças estruturais gostaria de ver nas instituições europeias para que o diálogo inter-religioso e intercultural deixe de ser uma área marginal e passe a integrar um papel de destaque das políticas públicas?
Gostaria de ver uma mudança de perspetiva. Durante demasiado tempo, o diálogo inter-religioso e intercultural foi encarado como um tema secundário ou como uma preocupação exclusiva das comunidades religiosas. Na realidade, estamos a falar de coesão social, de integração, de prevenção de conflitos e de participação cívica — temas centrais para qualquer democracia.
A Europa possui uma longa tradição de pluralismo e diversidade. O desafio agora é traduzir esses valores em políticas públicas mais consistentes e mais ambiciosas.
Isso passa, desde logo, por reforçar a literacia religiosa e intercultural na formação de funcionários públicos, diplomatas e decisores políticos. Passa também por apoiar de forma mais estruturada as organizações da sociedade civil que trabalham diariamente na construção de pontes entre comunidades.
Mas talvez o mais importante seja criar espaços permanentes de diálogo entre líderes religiosos, instituições públicas e sociedade civil. A experiência mostra-nos que os problemas mais difíceis são muitas vezes evitados quando existe confiança construída previamente. Esperar pela crise para começar a dialogar é quase sempre chegar tarde demais.
Como Secretário-Geral em Funções do KAICIID, qual é o seu apelo direto aos líderes políticos, religiosos e sociais da Europa para que enfrentem, em conjunto, os desafios da polarização e da fragmentação social?.
O apelo do KAICIID foca-se na necessidade de um trabalho preventivo. Quando a discordância já se instalou, quando os preconceitos ganham espaço e quando a desconfiança é um fator dominante, o trabalho torna-se muito mais difícil.
Aos líderes políticos, diria que a dimensão religiosa continua a ser uma realidade importante para milhões de cidadãos e que compreendê-la é essencial para construir políticas públicas mais inclusivas e eficazes.
Aos líderes religiosos, deixaria um convite à responsabilidade e à liderança. As suas palavras têm um impacto real nas comunidades que servem. Por isso, têm também um papel fundamental na promoção do respeito, da convivência e da abertura ao diálogo.
E a todos os que têm responsabilidades públicas, deixaria uma convicção que acompanha o trabalho do KAICIID desde a sua criação: o diálogo não é um exercício simbólico nem um luxo reservado para tempos de estabilidade. É uma ferramenta prática para prevenir conflitos, fortalecer a confiança e criar soluções mais duradouras. Num momento em que tantas sociedades enfrentam divisões profundas, precisamos de mais espaços de encontro, mais capacidade de escuta e mais coragem para trabalhar em conjunto. É esse o desafio que temos pela frente e é também a oportunidade que não devemos desperdiçar.












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