Entre papéis antigos, uma entrevista esquecida de Borges ao seu mentor e um lugar fantasma que só existe na fronteira entre a literatura e a história.
Quando citei Gog na tertúlia de sexta-feira, com o entusiasmo de quem acaba de descobrir um tesouro, verificou-se que todos já o tinham lido.
— Papini lê-se aos dezoito anos — disseram-me.
Talvez. Ou talvez fosse assim no tempo deles. Eu descobri o livro na biblioteca do meu avô, em Ourense, numa primeira edição espanhola publicada pela Editorial Cisne em 1960, e só há relativamente pouco tempo é que finalmente lhe pus as mãos em cima.
A primeira coisa que me chamou a atenção, ao ler as aventuras fantásticas da personagem — além de me fazerem lembrar certa literatura comercial americana do início do século —, foi a semelhança entre parte daqueles relatos e os contos de Borges.
Impressionou-me especialmente o capítulo dedicado a uma «cidade abandonada», situada a leste de Khamil, em pleno deserto. Em resumo, o protagonista, Gog — um milionário que percorre o planeta entrevistando as personalidades do seu tempo (Gerald Ford, Gandhi…) —, conta como, numa das suas viagens, se afasta da caravana acompanhado por um guia e acaba por encontrar uma cidade muralhada, com torres de vigia redondas, aparentemente desabitada. O guia, recusando-se a revelar o nome do lugar, afirma que a cidade está amaldiçoada e não quer entrar. Gog, pelo contrário, encontra uma passagem e descreve aquela cidade misteriosa: ruas e palácios fechados, bem conservados e limpos, mas vazios. Sem que aconteça propriamente desgraça alguma, Papini consegue, graças ao seu génio narrativo, transmitir o terror que lentamente se vai entranhando no visitante.
A cidade descrita por Papini em Gog — aquele recinto perfeito, sem homens mas não sem vestígios — recorda inevitavelmente as cidades invisíveis dos contos de Borges: Tlön, que é ao mesmo tempo território e enciclopédia, ou aquelas ruínas circulares onde o sonho engendra realidades que desconhecem a sua própria origem (Ficções, 1944).
Teria um deles podido inspirar-se no outro? E, a ser assim, quem inspirou quem?
Já há algum tempo que me fazia essa pergunta quando tive de tratar da herança do meu querido amigo Jorge Raschetti. Em vida, Jorge contara-me que não só chegara a cumprimentar Borges, como o seu escritório em Buenos Aires tratara do divórcio do escritor. Como agradecimento, Borges ofereceu-lhe o manuscrito — datilografado e com anotações manuscritas — de um dos seus contos.
Chegado agora o triste momento da despedida definitiva, a viúva pediu-me que enviasse esse manuscrito para uma universidade americana interessada em conservá-lo na sua biblioteca, com a qual Jorge já tinha celebrado um acordo antes de falecer.
Foi assim que o manuscrito chegou, por fim, às minhas mãos.
Ao abrir a pasta azul com elásticos que o protegia, encontrei, para minha enorme surpresa, um segundo manuscrito: a entrevista que Borges fez a Papini em 1965. O diálogo entre os dois génios foi publicado nesse mesmo ano na revista Sur, quando Borges já era uma figura central da literatura em língua espanhola e Papini um velho quase cego, afastado da vida pública.
Tal como no caso anterior, o manuscrito estava datilografado e continha anotações e rasuras manuscritas que suspeito pertencerem ao próprio Borges.
Poderia ter ficado com aquela descoberta? Poderia. Mas estimava demasiado Jorge para fazer semelhante coisa. O que me permiti, em todo o caso, foi atrasar a passagem daqueles fólios pelas minhas mãos até os ter estudado com a devida atenção. No Além, se há coisa que não falta, é tempo; e suponho que Jorge não se terá incomodado com a demora no cumprimento das suas últimas vontades.
Procurei então na Internet a versão publicada da entrevista e comecei a compará-la com o manuscrito. E veja-se só: uma parte fora censurada — precisamente aquela em que ambos falavam de Gog e de «A cidade abandonada».
No manuscrito, a lápis, quem quer que tenha feito a anotação — continuemos a imaginar que foi Borges — escreveu o seguinte: Padre Estêvão da Silveira de Moura; Coimbra; CXVII-MIS-CH-42.
A tinta vermelha, aparentemente pela mesma mão, lê-se: «É verdade».
À primeira vista, aquele pormenor, assim que eu enviasse o manuscrito para os Estados Unidos, iria tornar-se, no mínimo, tema de artigo para algum doutorando. Naturalmente, perguntei-me o que me impedia de o investigar primeiro.
Se se introduz o nome daquele sacerdote na Internet, não se obtém resultado satisfatório algum. Mas há outras maneiras de seguir uma pista.
Qualquer pessoa com conhecimentos elementares da história da China sabe que, durante a época moderna, os únicos ocidentais autorizados a entrar no país eram os jesuítas. Como fui formado por eles e conservo bons contactos, telefonei ao irmão Amorós e pedi-lhe que investigasse o nome do jesuíta português. Quinze dias depois, enviava-me umas notas redigidas por um confrade seu, responsável pela biblioteca do Colégio de El Salvador, em Saragoça.
Diziam o seguinte: «Matteo Ricci — outro jesuíta famoso, acrescento eu, a título de contexto — menciona com algum pormenor, nas suas cartas de 1605, a viagem do seu companheiro de ordem, o português Silveira de Moura, a caminho de Khamil — aquela cidade fronteiriça que os mapas antigos designam, alternadamente, por Camul, Khamil ou Qamil. Silveira de Moura procurava vestígios das raízes do culto nestoriano na China, a fim de demonstrar a origem do cristianismo naquela parte do continente asiático. Crê-se que o padre Estêvão tenha morrido em Coimbra em meados do século XVII.»
Por fim, o prestável bibliotecário acrescentava: «Diga ao seu amigo para tentar a Biblioteca Joanina de Coimbra. Muitos fundos da Companhia foram doados para lá.»
E foi precisamente isso que fiz. Depois de contactar previamente a biblioteca por correio eletrónico e de me alegrar ao saber que a cota indicada no manuscrito de Borges pertencia, de facto, aos seus fundos, organizei a viagem, aproveitando o último feriado de San Isidro, àquela cidade de ruas estreitas, pátios, escadarias e arcos medievais.
E ali estava o «CXVII-MIS-CH-42». Isto é: CXVII = estante 117; MIS = missões; CH = Cathay/China; 42 = número do maço.
Tratava-se de um extenso manuscrito do falecido padre Estêvão da Silveira de Moura. Não era propriamente um livro, mas antes apontamentos manuscritos soltos, fragmentos de diários, muitas vezes sem ordem e, não raro, sem datas precisas. Tudo se encontrava cuidadosamente acondicionado numa caixa de cartão bem conservada.
Dispunha de apenas um dia para o examinar, pelo que tentei concentrar-me em tudo o que soasse a chinês — e não era pouco — até que, no fim da manhã, o encontrei: umas notas sobre uma viagem inverosímil a uma cidade muralhada, abandonada e perfeita, para lá das montanhas que bordejam o deserto de Gobi. Uma cidade que não figura em mapa algum e à qual o missionário também não deu nome.
«Não chegámos ao lugar por ciência nem por guia — escreve o padre Estêvão —, mas por extravio.» Conta que, depois de se separar dos seus intérpretes tártaros na sequência de uma tempestade de areia, vagueou durante três dias por uma região estéril até avistar, no horizonte, uma muralha circular de pedra negra e lisa que mal se erguia acima do terreno.
Diz ter encontrado uma porta entreaberta, ladeada por dois colossos de bronze: um, revestido de armadura de escamas e com uma espada partida; o outro, nu, segurando um livro fechado. Não encontrou aldrabas nem sinos, mas a porta abriu-se sozinha quando lhe tocou.
O interior da cidade estava limpo, intacto, mas desabitado. As ruas eram direitas como corredores de palácio e, nas praças, encontrou quatro estátuas de pedra branca, cada uma sobre um pedestal lavrado com uma escrita desconhecida: um leão, um camelo, um cavalo e um dragão alado.
Todos estes elementos, de uma forma ou de outra, aparecem igualmente no romance de Papini.
No centro encontrou um templo sem altar e, dentro dele, uma estela da altura de um homem, inscrita com caracteres siríacos entrelaçados com ideogramas. O missionário reconheceu o símbolo nestoriano — uma cruz de braços iguais inscrita num círculo — e acrescentou apenas uma frase, escrita com a sua caligrafia mais trémula:
«Cheguei a uma cidade onde Cristo foi recordado sem nunca ter sido conhecido.»
Noutras páginas, descreve um palácio central com portas duplas, sob as quais se encontra uma inscrição em grego antigo: Μνήμη τοῦ ἀπρόσιτου («Memória do Inacessível»). Ao tentar abri-las, não encontrou resistência, mas o interior era um vazio perfeito: uma sala sem paredes, sem teto, sem chão, apenas uma luz pálida e persistente, «como se o espaço inteiro se tivesse convertido num signo».
Estes são os elementos que Borges viria depois a aproveitar nos seus contos.
O padre Estêvão abandonou a cidade sem nome ao fim de três dias. Não se despediu, não rezou, não tentou registar o caminho de regresso. Diz que, pouco depois de partir, se voltou e a cidade já não se avistava, como se o deserto a tivesse engolido.
Não tive tempo para investigar mais, mas consegui o que procurava: descobri que Papini não só inspirou Borges, como lhe forneceu as chaves de um manuscrito que Borges, egoisticamente, não quis partilhar com os seus leitores.
Pelo contrário, Borges apropriou-se dele para aproveitar também, nos seus contos, a parte que Papini não tinha utilizado.
Pois bem: assim que terminar este artigo, enviarei os dois manuscritos de Borges para os Estados Unidos e, em breve, teremos uma plêiade de investigadores americanos à caça do maço «CXVII-MIS-CH-42». Não excluiria sequer que, dentro de alguns anos, se filmasse um documentário destinado a fixar no mapa a cidade sem nome de Papini. Mas essa será outra história. Além disso, eu tinha prometido no título deste artigo um crime.
E esse crime, devo confessá-lo, é meu.
Se algum de vós visitar a Biblioteca Joanina de Coimbra, verá que, como sucede também aqui, tudo está informatizado. Mas os livros e as caixas continuam a conservar aqueles envelopes de cartão com as fichas pautadas onde se registavam os nomes dos leitores que tinham solicitado a consulta do material. Hoje são inteiramente inúteis, mas, para não danificar as obras, não foram retirados.
E que raros nomes constavam da caixa do padre Estêvão? Apenas dois: Papini e Borges.
Era demasiado irresistível.
Desde o último San Isidro, consta também, a esferográfica, o meu.
Se algum comissário português vier ao meu escritório à procura de provas incriminatórias do grafito ilegal que deixei no património nacional do seu país, facilitei-lhe bastante a tarefa. Belamente emoldurada com passe-partout creme e moldura dourada, encontra-se a fotografia que tirei à vetusta ficha antes de a voltar a colocar no envelope da caixa.
Guardem-me o segredo!
Dr. José Vicente Rubio Eire













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