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Dmitry Sokolov

Dmitry Sokolov, ex-diplomata russo: «A Ucrânia tornou-se uma praça-forte da OTAN contra Moscovo»

O ex-diplomata da Rússia em Madrid, Lisboa e Cidade do México analisa a operação militar, o fim da unipolaridade e a ascensão dos BRICS.

Dmitry Sokolov é um ex-diplomata russo que durante décadas representou o seu país no México, em Portugal e em Espanha. A sua carreira proporcionou-lhe uma dupla perspetiva: o funcionamento da política externa russa por dentro e a observação direta da opinião pública e dos meios de comunicação ocidentais.

Nesta conversa, Sokolov apresenta uma leitura do conflito na Ucrânia que rompe com a narrativa dominante na Europa. Sustenta que a operação militar de 2022 não foi uma invasão unilateral, mas o culminar de décadas de pressão: expansão da OTAN, incumprimento dos Acordos de Minsk, revoluções coloridas que transformaram a Ucrânia numa «praça-forte» contra Moscovo. Ao mesmo tempo, recorda os seus anos em Madrid, Lisboa e Cidade do México e reflete sobre a russofobia histórica, a desinformação mediática e o surgimento de um mundo multipolar.

Após décadas de carreira diplomática, como avalia o conflito militar entre a Rússia e a Ucrânia a partir da perspetiva de alguém que conhece de perto tanto a política externa russa como a opinião pública europeia?

O conflito militar entre a Rússia e a Ucrânia é, na realidade, a luta das elites globalistas neoliberais contra o meu país, para evitar o desmoronamento do seu poder mundial. Consideram que uma Rússia independente é um obstáculo à concretização dos referidos objetivos, porque leva a cabo uma política independente baseada nos seus interesses nacionais. E esses interesses consistem em salvaguardar a sua soberania em todos os aspetos: política externa, política interna, economia, cultura, etc., e não obedecer a imposições vindas do exterior.

O propósito de destruir ou submeter a Rússia surgiu há séculos. Existem bastantes estudos sobre as relações do meu país com a Europa Ocidental, que durante cinco séculos foi o centro do poder mundial. Posso citar, por exemplo, o livro de Guy Mettan, Russie-Occident, une guerre de mille ans. Também é muito interessante a obra de Emmanuel Todd, A Derrota do Ocidente. Na minha opinião, encontram-se reflexões muito pertinentes nos livros, artigos e entrevistas de Jeffrey Sachs, por exemplo, em «European Russophobia and Europe’s Rejection of Peace: A Two-Century Failure».

Falando do passado recente, gostaria de recordar que, após o desaparecimento da União Soviética e a dissolução do Pacto de Varsóvia, a Rússia ansiava por integrar-se plenamente no mundo em processo de globalização, renunciando à ideologia comunista e ao seu imenso arsenal militar, e desejava participar na construção de uma Casa Comum Europeia. Mas o Ocidente não quis tratar a Rússia como um parceiro igual. Em vez de dissolver a OTAN e negociar um sistema coletivo de segurança, esqueceu as promessas de não expandir a aliança «nem uma polegada para Leste». Assegurava aos dirigentes russos as suas boas intenções e, ao mesmo tempo, apoiava os terroristas chechenos e incentivava sentimentos antirrussos nas repúblicas ex-soviéticas através das ONG controladas. A OTAN avançava em direção às fronteiras da Rússia e eram provocadas revoluções coloridas na periferia do meu país.

Moscovo manifestava o seu desacordo e avisava os parceiros ocidentais de que não se conformaria com o desprezo pelos seus interesses. Ao mesmo tempo, continuava a colaborar de boa-fé com os EUA, a UE e a OTAN. Estava a construir quatro espaços comuns com a União Europeia, mantinha duas cimeiras anuais e 17 diálogos sobre questões internacionais e bilaterais, desenvolvia o comércio e uma cooperação multifacetada mutuamente vantajosa. Sendo Primeiro Conselheiro da Direção-Geral de Cooperação Pan-Europeia, participei em 2008 na preparação da documentação para que helicópteros do Exército russo participassem na missão da UE no Chade e na República Centro-Africana. Em 2005, navios da Marinha russa participaram na patrulha da OTAN no Mediterrâneo. Funcionava o Conselho OTAN-Rússia.

No entanto, a pressão do Ocidente contra a Rússia foi aumentando. As elites norte-americanas viam com preocupação a crescente interligação entre o meu país e a União Europeia, sobretudo com a Alemanha. Quando, em 2003, Moscovo, Berlim e Paris não apoiaram a invasão do Iraque — decidida na famosa reunião de José Manuel Durão Barroso, Tony Blair, George W. Bush e José María Aznar na ilha Terceira —, isso soou em Washington como um sinal de alarme. Em 2008, na cimeira da Aliança Atlântica em Bucareste, os EUA, apesar da oposição da Alemanha e da França, conseguiram que a declaração correspondente incluísse as seguintes palavras: «A Ucrânia e a Geórgia serão membros da OTAN» — segundo as sondagens, naquele ano, muitíssimos mais ucranianos eram contra a adesão ao bloco do que a favor. A adaptação da Ucrânia às necessidades da Aliança acelerou-se: destacamentos, exercícios, introdução de padrões, infraestruturas…

Em 2013, estava a ser preparada a Associação da Ucrânia com a União Europeia. O presidente Viktor Yanukovych suspendeu — não cancelou — a assinatura do acordo perante a incerteza sobre como compatibilizar essa associação com as condições comerciais e económicas preferenciais existentes com a Rússia, com a qual a Ucrânia tinha desenvolvido relações de cooperação. Anteriormente, a UE tinha recusado que as três partes interessadas elaborassem um acordo. «É apenas um assunto entre Bruxelas e Kiev», disseram-nos os dirigentes da UE. A decisão de Yanukovych foi utilizada como pretexto para o tristemente célebre Euromaidan, isto é, manifestações antigovernamentais violentas, incentivadas pelos EUA e pelos seus aliados europeus.

Após o sangrento golpe de Estado de 2014, os novos dirigentes de Kiev, colocados por Washington — existe uma gravação da conversa telefónica entre Victoria Nuland, então secretária de Estado adjunta, e o embaixador norte-americano na Ucrânia, Geoffrey Pyatt, na qual escolhiam candidatos para a junta de Kiev — começaram a reprimir russos e russófonos e a língua russa, e desencadearam a guerra contra as regiões de Donetsk e Lugansk, que não se tinham conformado com a tomada ilegal do poder. Levaram a cabo bombardeamentos de cidades e localidades do Donbass e ataques contra a população civil, o que provocou cerca de 14 mil mortos nos oito anos seguintes.

Tudo isso, juntamente com a glorificação dos colaboradores nazis durante a Segunda Guerra Mundial — davam-se os seus nomes a ruas e estádios e erigiam-se monumentos — e a promoção de organizações neonazis, levou a Rússia a iniciar, em 2022, a Operação Militar Especial. Nos meios de comunicação ocidentais impõem a ridícula imagem de Putin que, certo dia, ao acordar, decidiu invadir a Ucrânia e restaurar a URSS ou o Império Russo. Analistas sérios apoiam o que foi explicado acima. Por exemplo, o antigo analista da CIA George Beebe considera que os dirigentes russos viram na atuação do Ocidente na Ucrânia a iminente adesão desta à OTAN. E agiram em consequência, para não terem de se ver envolvidos num conflito com a Aliança antes que se fechasse a janela de oportunidade.

Ora, todos os objetivos da Operação Militar Especial foram várias vezes enunciados pelas autoridades russas. O principal é eliminar a ameaça proveniente do território da Ucrânia — o que implica a sua desmilitarização —, proteger os russos e russófonos e assegurar os seus direitos humanos, alegadamente espezinhados por Kiev, com a consequente erradicação do neonazismo.

Não se tratava de aquisições territoriais, mas a atuação do Ocidente tornou-as agora inevitáveis. Vejamos:

  • 2013. Um acordo trilateral sobre a associação da Ucrânia à UE teria assegurado a permanência da Crimeia no território daquele país. O Ocidente não quis.
  • 2014–2022. O cumprimento dos Acordos de Minsk teria mantido Donetsk e Lugansk dentro da Ucrânia. O antigo presidente francês François Hollande e a antiga chanceler alemã Angela Merkel confessaram que os referidos acordos não tinham sido assinados para serem cumpridos, mas apenas para dar tempo a Kiev para se rearmar e «resolver» o problema do Donbass pela força.
  • Março–abril de 2022. Se o acordo de Istambul entre a Rússia e a Ucrânia, já rubricado por Kiev, tivesse sido assinado e implementado, ter-se-ia evitado o avanço do Exército russo e a consequente reunificação com o meu país de todo o Donbass, além das regiões de Zaporíjia e Kherson. O Ocidente, na pessoa de Boris Johnson, fez fracassar esse acordo.

Quanto mais o conflito se prolongar, piores serão as condições de acordo para Kiev e para os seus patrocinadores ocidentais. Os dirigentes da Europa Ocidental e os meios de comunicação falam muito em estabelecer contactos com a Rússia — o que fazem os seus embaixadores e o delegado da UE em Moscovo? — e em procurar uma solução «negociada» para o conflito.

Ao mesmo tempo, fala-se em pressionar a Rússia para a obrigar a negociar, aceleram-se os preparativos para uma guerra contra o meu país — quase todos os dias os políticos da OTAN falam disso —, mantêm-se os fornecimentos de armas ao regime de Kiev, com as quais este continua os ataques terroristas, e concertam-se posições de ultimato à Rússia, exigindo praticamente a sua capitulação. Juram apoiar indefinidamente Zelensky e o seu círculo criminoso para conservar este regime neonazi como uma praça-forte dirigida contra o meu país.

Assim não se negoceia. Nestas circunstâncias, a Rússia vê-se obrigada a continuar a realizar a Operação Militar Especial até alcançar os seus objetivos.

Dmitry Sokolov e a sua esposa Irina, na sua despedida oficial da sua missão em Espanha

E quanto à opinião pública em Espanha e Portugal?

É fortemente influenciada por séculos de russofobia, além da atual propaganda pró-OTAN, que se apoia no controlo total dos principais meios de comunicação pelas elites globalistas neoliberais. É tremendo ver e ouvir todos os dias a quantidade de mentiras sobre a Rússia, os preconceitos e as informações parciais divulgadas por esses meios.

Repetem-se uma e outra vez afirmações absurdas sobre a ameaça representada pelo meu país, prestes a invadir a Europa Ocidental até chegar a Lisboa; ao mesmo tempo, diz-se que a economia russa está em ruínas, que não dispõe de armas modernas, que o exército está desorganizado, que não conseguiu grande coisa em mais de quatro anos de guerra e que basta apoiar mais a Ucrânia para derrotar Moscovo, continuar a pressionar e obrigá-la, a partir de uma posição de força, a sentar-se à mesa para negociar as condições ocidentais de rendição.

Diz-se que a Rússia sofre um isolamento por parte da «Comunidade Internacional» — que, na realidade, representa um quarto dos Estados-membros da ONU. E no recentemente realizado Fórum Económico de São Petersburgo havia representantes de mais de 140 países. Que grande isolamento!

A desinformação é por vezes subtil. Por exemplo, noticia-se, como se fosse algo perfeitamente normal, a detenção de um navio da «frota fantasma» que transportava «mercadoria ilegal». Na realidade, tanto a designação «fantasma» como a suposta ilegalidade são pura invenção do Ocidente; os navios russos atuam no quadro do direito internacional, e considerar isso ilegal foi uma decisão de uma minoria de países — apenas o Conselho de Segurança da ONU tem o direito de impor sanções e, portanto, determinar os correspondentes incumprimentos.

Mas, em geral, a propaganda pró-OTAN baseia-se na repetição constante de mentiras, mesmo das mais disparatadas.

Os ataques russos contra alvos ucranianos, segundo os meios de comunicação ocidentais, causam sempre vítimas civis e são imediatamente comentados com indignação e condenação. Os ataques terroristas quotidianos ucranianos que matam civis, crianças e mulheres — incluindo os bombardeamentos da residência estudantil em Starobelsk e do autocarro de uma equipa de futebol infantil — são normalmente tratados assim: «segundo os russos… a informação não foi verificada». Não é terrorismo? É assim que se defendem os valores da UE?

Além disso, não é dada qualquer informação positiva ou, pelo menos, objetiva sobre a vida no meu país. Consequentemente, as pessoas em geral estão mal informadas e acreditam que não se pode viajar para a Rússia. Pelo contrário, apesar dos obstáculos impostos pelo Ocidente aos viajantes russos, o meu país concede vistos sem restrições; é possível obtê-los até sem ir aos serviços consulares, através da internet.

Quanto à Ucrânia, não se informa sobre a essência neonazi do regime de Kiev. Um dos exemplos recentes: Zelensky repatriou e organizou um funeral com honras de Estado para os restos mortais de Andrey Melnik, um dos fundadores da Organização dos Nacionalistas Ucranianos, que tinha colaborado com o regime nazi da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial e participado nos massacres atrozes de polacos, russos, judeus…

É difícil para mim saber e compreender qual é, na realidade, a opinião pública maioritária. Por um lado, viajando bastante por Espanha e contactando com pessoas entre 2022 e 2025, nunca encontrei uma única vez rejeição ou recusa em comunicar comigo. Pelo contrário, senti muito carinho por parte de pessoas de diferentes comunidades e condições quando sabiam que eu era russo.

Por outro lado, isso não se traduzia no ambiente informativo, nem numa manifestação palpável a nível geral. Todos pareciam conformar-se com a suposta ideia dominante de que a Ucrânia é um país democrático que defende os valores europeus.

Apenas um punhado de bloguistas e politólogos independentes no YouTube faz chegar a verdade sobre os acontecimentos e a situação real.

Acredita que um mundo multipolar pode contribuir para encontrar a paz ou, pelo contrário, considera que a fragmentação dos poderes gera mais instabilidade?

Creio que a construção de um mundo multipolar é um processo complexo. A fragmentação do mundo e a criação da multipolaridade não são a mesma coisa. Estamos a observar que os EUA e os seus aliados, habituados a ser vassalos de Washington, resistem veementemente, tentando travar a perda do seu poder global. Cresce o número e o poder dos países do Oriente e do Sul que não desejam obedecer ao hegemon.

Ora, o desaparecimento da unipolaridade, por si só, não cria perigo; os riscos e as ameaças à segurança provêm dos Estados. Por isso, deverão chegar a acordo e alcançar um equilíbrio estável para que o mundo multipolar seja mais seguro e favorável para todos. Neste sentido, desempenham um papel importante organizações internacionais e regionais como os BRICS, a Organização de Cooperação de Xangai, a ASEAN, a União Africana, a CELAC, etc.

Os BRICS reúnem nações com geografias, culturas e sistemas políticos muito diferentes. Vê nesta plataforma um modelo viável para o desenvolvimento equitativo dos países ou considera que as suas diferenças internas são um obstáculo difícil de superar?

Creio que os países membros dos BRICS, apesar das diferenças, avançam com segurança no caminho da criação de uma plataforma viável para o desenvolvimento progressivo das suas nações e também para contribuir positivamente para a solução dos problemas globais.

Os BRICS promovem a igualdade entre os Estados, o direito internacional, a soberania, o respeito pelos interesses de cada Estado, pela sua forma de organização interna e pela sua singularidade civilizacional. Estes princípios básicos permitem encontrar soluções para os problemas que surgem entre as nações.

«Falando do passado recente, gostaria de recordar que, após o desaparecimento da União Soviética e a dissolução do Pacto de Varsóvia, a Rússia ansiava por integrar-se plenamente no mundo em processo de globalização, renunciando à ideologia comunista, ao seu imenso arsenal militar e desejosa de participar na construção de uma Casa Comum Europeia.»

A partir da sua experiência na Europa Ocidental, como perceciona a recetividade dos países do Sul Global a uma arquitetura de segurança alternativa à tradicional?

Na minha opinião, no mundo atual não existe uma estrutura de segurança global. A ONU fracassou nessa tentativa. Os países do Sul Global não estão apenas recetivos à criação de uma nova arquitetura de segurança; estão a criar as suas próprias organizações deste tipo, como, por exemplo, a Organização de Cooperação de Xangai.

Foi diplomata em Espanha, México e Portugal. Que diferenças fundamentais encontrou na forma de fazer política externa em cada um destes países?

Fui diplomata no México e em Portugal há muito tempo. Não falarei da situação atual.

No México, testemunhei um período interessante: após décadas de monopólio do poder pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI), chegou à presidência o representante do Partido de Ação Nacional (PAN), Vicente Fox.

Mas a condição constante da política mexicana, a vizinhança de uma superpotência não mudou. «Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos». Esta frase é atribuída ao presidente do país dos séculos XIX-XX, Porfirio Díaz.

Neste contexto, o México precisava de um contrapeso. Colegas mexicanos e os meus contactos nos círculos políticos sentiam a falta da URSS desaparecida; a Rússia, naquela altura, era demasiado fraca para desempenhar o papel de contrapeso.

Portugal, nos anos 2003–2007 , a minha missão em Lisboa, demonstrava o desejo de desenvolver boas relações com a Rússia. No Ministério dos Negócios Estrangeiros mantinha contactos proveitosos e frequentes com os diplomatas portugueses.

Pareceu-me muito interessante a relação de Lisboa com os países lusófonos. Quando perguntava aos meus colegas portugueses de onde eram, respondiam-me: Angola, Cabo Verde, até Timor-Leste.

Também me surpreendeu a relação com o Brasil. Sentia que, ao contrário da perceção espanhola da Hispano-América, Portugal se via geopoliticamente menos importante do que aquele gigante sul-americano e aceitava essa condição com normalidade. Ao mesmo tempo, Lisboa continuava a manter uma posição ativa na defesa da língua e da cultura portuguesas.

A Espanha estava muito voltada para a União Europeia. Em 1986, quando esse país entrou na União Europeia, todos os meios de comunicação proclamavam: «Finalmente somos europeus!». Isso entristecia-me. Era como subvalorizar o próprio mérito de ser uma grande nação, com uma história, cultura, tradições e diversidade extraordinárias.

Até hoje, parece-me que se dá mais importância a este vetor da política externa do que a outros, como, por exemplo, a Ibero-América e África.

Uma reflexão: tenho o hábito de ouvir todas as manhãs as notícias das estações de rádio locais. Em Portugal e em França — onde estive numa missão curta de três meses em 2008 — dão diariamente informações sobre países africanos; sente-se que África está ao lado e é importante. Em Madrid nunca senti isso. Parece que, ultimamente, o Governo espanhol tem feito esforços para intensificar a sua política africana, mas não o notei no ambiente informativo.

Espanha e Portugal partilham, em parte, a cultura e uma história ibérica comum em diferentes períodos históricos, mas a sua relação com a Rússia foi diferente. Que fatores históricos ou culturais considera que explicam essa diferença?

Espanha e Portugal são muito semelhantes por ocuparem a mesma Península Ibérica, mas, ao mesmo tempo, distinguem-se bastante, inclusive na política e na cultura. Ao longo da história, mais de uma vez atuaram em lados e coligações diferentes nos conflitos mundiais, o que também determinou as suas relações com a Rússia.

Para o meu país, ao longo da história, as relações com Madrid e Lisboa foram condicionadas pelas circunstâncias concretas de cada momento. Não vejo uma grande diferença.

Se falarmos do século passado, talvez durante o período da Guerra Civil Espanhola as relações de Moscovo com Madrid fossem intensas, enquanto com Lisboa não existiram relações entre 1917 e 1974.

Com a queda dos regimes autoritários em Espanha e Portugal, a URSS e a Rússia desenvolveram em relação a estes países uma política baseada no Direito Internacional, na igualdade, na não ingerência nos assuntos internos e numa cooperação multifacetada mutuamente vantajosa.

Até 2022, as relações desenvolviam-se positivamente, mas desde então Madrid e Lisboa participam ativamente na guerra do Ocidente contra o meu país — não vejo diferença entre ambas. Mais considerações encontram-se na primeira parte deste texto.

Quanto às culturas hispânica e lusófona, que adoro, na Rússia a influência espanhola tem sido mais palpável.

Houve algum momento durante as suas missões nestes três países em que sentisse que a diplomacia russa deveria adaptar a sua comunicação para ser melhor compreendida?

Sempre senti que a linguagem da nossa comunicação com os parceiros era adequada e que conseguíamos transmitir a nossa mensagem aos respetivos governos.

Outra questão é saber que decisões estes tomavam, dependendo da forma como entendiam os seus interesses nacionais ou da necessidade de ter em consideração a pressão das circunstâncias.

A eficácia do nosso soft power e a promoção de informação objetiva sobre o meu país junto do público em geral não eram suficientes para vencer o ambiente permanentemente russofóbico dos meios de comunicação ocidentais.

Penso que deveríamos aproveitar a experiência dos ocidentais — influenciar a opinião pública através de uma rede de ONG, fundações e institutos teoricamente independentes.

O nosso canal de televisão Russia Today foi um sucesso; houve tempos em que podia ser visto livremente no Ocidente. Agora está proibido por fornecer informação verdadeira sobre a Rússia e o mundo. Mas mesmo antes do conflito aberto na Ucrânia, ao constatar que ultrapassava importantes canais mundiais, o Ocidente começou a dificultar a sua distribuição e o trabalho dos seus correspondentes.

O México, por seu lado, pertence a uma tradição latino-americana com uma visão muito particular da soberania e da não intervenção. Como é que isso influenciou o seu trabalho diplomático no país?

A minha estadia no México — é o único país latino-americano que conheço — ensinou-me a apreciar mais a vida, a amizade, o amor, a desfrutar aquilo que se tem todos os dias.

Os mexicanos que conheci, de diferentes condições sociais, sabiam valorizar todos os momentos da vida, as coisas simples, as relações humanas, a convivência; não desanimavam perante contratempos ou desgraças.

Se tivesse de resumir numa única frase o que a Ibero-América lhe ensinou sobre diplomacia, qual seria?

Numa única frase, diria até numa única palavra, sobre a diplomacia que aprendi no México: paciência.

Toda a carreira diplomática tem momentos inesperados. Poderia partilhar alguma anedota curiosa ou divertida dos seus anos em Madrid, Cidade do México ou Lisboa que ilustre os desafios ou as ironias da vida diplomática?

Quanto a situações particulares: uma vez convidei um colega espanhol para almoçar num restaurante perto da minha casa. Durante a refeição, apercebi-me de que tinha deixado a carteira no escritório e não poderia pagar a conta.

Então, sem interromper a conversa, quando já tínhamos terminado de comer, escrevi à minha mulher pelo WhatsApp, pedindo-lhe que viesse com o cartão de crédito.

Ela chegou tão rapidamente que não tive tempo de explicar a situação ao meu convidado. A Irina, é assim que se chama a minha mulher, aproximou-se da mesa e sentou-se, para surpresa do meu colega espanhol.

Assim, coloquei os dois numa situação incómoda, que pouco depois foi resolvida graças à capacidade da Irina para lidar com as pessoas e à experiência diplomática dos três.

A primeira vez que exerci funções de Encarregado de Negócios a.i., durante apenas 36 horas, quando ainda era Primeiro Conselheiro, estava na cadeira do dentista, literalmente com a boca aberta.

Ligou-me o ministro dos Negócios Estrangeiros de Espanha por causa de um assunto urgente. O dentista teve de retirar os instrumentos da minha boca para que eu pudesse falar.

Tudo acabou bem, embora tenha sido incómodo falar com o ministro e me tenha causado algum nervosismo.

Depois de tantos anos de serviço no exterior, como encontrou Moscovo quando regressou? Custou-lhe readaptar-se à vida na capital depois de viver em cidades tão diferentes como Madrid, Lisboa ou Cidade do México?

Ao regressar a Moscovo, depois de tantos anos fora, encontrei-a mais bonita, limpa e confortável para viver, deslocar-se, descansar e divertir-se.

Parques, transportes, restaurantes, setor dos serviços, teatros, museus, bancos, facilidades para tratar de documentos através do governo digital… Tudo ao mais alto nível universal.

Não me custou absolutamente nada readaptar-me à vida na minha cidade.

Agora que está reformado, como foi a transição de uma vida marcada pelo serviço externo para um ritmo mais pessoal? Foi libertadora ou, pelo contrário, sente falta da intensidade da diplomacia?

Depois de me reformar do serviço externo, não me atrai a vida tranquila de um reformado. Continuo a trabalhar.

Atualmente, trabalho na Academia de Medicina de Formação Contínua do Ministério da Saúde, na Direção de Atividades Internacionais. Portanto, o ritmo da minha vida continua a ser o do trabalho.

Tenho vários projetos: viajar, sobretudo para descobrir lugares que não conheço no meu extraordinário e enorme país; organizar o meu arquivo de fotografias, vídeos e áudio; estudar línguas e ler ou ouvir audiolivros; continuar a participar em debates sobre a atualidade internacional.

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