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Filipa Dâmaso, fundadora de FD Academia de Português

Filipa Dâmaso: “Investir na língua portuguesa é investir em relações mais sólidas e numa internacionalização mais eficaz”

Com mais de duas décadas de experiência no ensino da língua portuguesa em Espanha, Filipa Dâmaso decidiu transformar a sua experiência e visão pedagógica num projeto próprio: a FD Academia de Português. A academia nasceu com o propósito de oferecer um ensino mais próximo, personalizado e orientado para resultados, ajudando sobretudo hispanofalantes a ganhar confiança na comunicação em português europeu.

Nesta entrevista, a fundadora da FD Academia de Português fala sobre os desafios de ensinar português a profissionais espanhóis, as dificuldades provocadas pela proximidade entre o português e o espanhol e a importância de adaptar a aprendizagem às necessidades concretas de cada aluno ou empresa. Filipa Dâmaso aborda também o papel crescente do português no contexto empresarial e internacional, defendendo que dominar a língua pode ser uma vantagem competitiva para empresas espanholas que procuram reforçar a sua presença em Portugal e noutros mercados lusófonos.


Com uma abordagem que cruza a experiência como professora, educadora social e escritora, Filipa Dâmaso encara o ensino da língua como um processo que deve considerar cada aluno na sua individualidade. O ensino online, a comunicação em situações reais e a valorização da cultura lusófona fazem parte de uma metodologia que procura ir além da gramática e transformar o conhecimento da língua numa verdadeira competência de comunicação.

Como é que estrutura os cursos de português para clientes corporativos em Espanha e que metodologias utiliza para adaptar o ensino às necessidades específicas de cada empresa?

A minha abordagem aos cursos de português para clientes corporativos começa sempre por um diagnóstico das necessidades da empresa. Procuro compreender o setor de atividade, os objetivos da formação, o perfil dos colaboradores, a proficiência linguística e as situações reais em que irão utilizar o português, seja em reuniões, negociaciações atendimentos ao cliente, apresentações orais e escritas ou gestão de equipas e recursos humanos.

Com base nesta análise, estruturo um plano de formação personalizado, definindo objetivos claros, conteúdos relevantes e uma progressão adaptada ao ritmo de aprendizagem dos alunos.

Priviligio o uso de motodologias próprias de ensino e, sempre que possível, materiais da própria empresa, como e-mails, documentos técnicos ou casos práticos, afim de adequar a apredizagem a cada contexto profissional.

A metodologia é, essencialmente, comunicativa, afetiva e orientada para a ação. As aulas privilegiam a interação, a resolução de situações reais e o desenvolvimento das competências linguísticas necessárias para o desempenho profissional. Extremamente necessárias são, também, as atividades de consolidação, feedback contínuo e avaliações periódicas, pois permitem acompanhar a evolução da aprendizagem e manter a motivação dos alunos ao longo do processo.

Quais são os principais desafios que enfrenta ao ensinar português a profissionais espanhóis, e existe alguma barreira linguística particular entre o português e o espanhol que exija uma abordagem diferenciada?

Ensinar português a profissionais espanhóis apresenta desafios muito específicos. O principal é a proximidade entre as duas línguas, que, embora facilite a compreensão inicial, também favorece a interferência linguística. É comum, em processos iniciais de formação, os alunos recorrerem a estruturas, vocabulário ou pronúncias equivalentes, quando existem diferenças importantes que podem comprometer a clareza e a correção da comunicação.

Por este motivo, dou particular importância aos chamados “falsos amigos”, à pronúncia e à prosódia do português europeu, bem como às particularidades culturais da comunicação em contexto profissional.

Outro desafio é a diversidade de perfis dentro das empresas. Na mesma ação de formação podem coexistir colaboradores com diferentes níveis de conhecimento, funções e objetivos. Para responder a esta realidade, adapto as atividades e os materiais às necessidades de cada grupo, privilegiando uma abordagem flexível, prática e orientada para tarefas reais do seu dia a dia profissional.

Como avalia o retorno do investimento das empresas espanholas na formação dos seus colaboradores em português, e já teve feedback de clientes sobre o impacto concreto nas suas operações comerciais?

O retorno do investimento na formação em português é, regra geral, visível tanto a nível do desempenho individual dos trabalhadores como dos resultados das empresas. Quando a formação está alinhada com os objetivos do negócio, os colaboradores ganham maior confiança para comunicar com clientes, parceiros e equipas em Portugal e noutros mercados lusófonos, potenciando o impacto positivo da comunicação.

A avaliação do impacto pode ser feita através de diferentes indicadores, como a evolução das competências linguísticas, a participação nas aulas, a capacidade de aplicar o português em situações reais de trabalho e o feedback dos própios participantes e dos seus responsáveis.

É conveniente, neste sentido, definir objetivos mensuráveis no início da formação para que seja possível acompanhar a progressão ao longo da mesma.

O feedback das empresas é sempre muito positivo, destacando uma maior autonomia dos colaboradores em reuniões, negociações, contactos comerciais, gestão de conflitos, bem como um aumento da confiança para interagir diretamente com clientes o parceiros de língua portuguesa.

O maior retorno da formação é, assim, a capacidade de transformar o conhecimento da língua numa competência que dê valor à empresa, facilitando a comunicação, a integração e o respeito, fortalecendo relações de negócio e aumentando a eficácia dos colaboradores no contexto internacional.

Considera que o português ainda é subvalorizado pelas empresas espanholas em comparação com outras línguas de negócio, e que argumentos usa para convencer um diretor-geral espanhol a investir na formação em português?

Antes pelo contrário. O português é uma língua global, falada por mais de 260 milhões de pessoas e presente em mercados com grande potencial de crescimento, como o Brasil, Angola, Moçambique e, naturalmente, Portugal, o principal parceiro comercial de Espanha.

No entanto, o desafio passa por mostrar às empresas que aprender português não é, apenas, adquirir uma competência linguística, mas investir numa ferramenta estratégica para os negócios. Quando uma empresa comunica na língua do seu cliente, cria relações de maior confiança, aproxima-se da cultura local e aumenta a sua capacidade de negociar e de identificar oportunidades.

É precisamente essa perspetiva que procuro transmitir ao mercado espanhol. Não vendo apenas cursos de português; proponho uma solução para empresas que pretendem internacionalizar-se, reforçar a sua presença em mercados lusófonos ou melhorar a comunicação com clientes e parceiros. A formação em português deve ser vista como um investimento com retorno, e não como um custo.

Ao longo de mais de duas décadas a trabalhar em Espanha, tenho assistido a uma mudança gradual de mentalidade. Cada vez mais empresas reconhecem que o domínio do português pode constituir uma vantagem competitiva e um fator diferenciador num mercado global. O meu papel, através da FD Academia de Português, é demonstrar que investir na língua portuguesa é investir em relações mais sólidas, em melhores oportunidades de negócio e numa internacionalização mais eficaz.

Como vê o papel do português como ponte para mercados lusófonos no contexto da internacionalização das empresas espanholas?

O português pode desempenhar um papel estratégico como ponte para mercados lusófonos, mas o seu valor depende muito do setor, da estratégia de internacionalização e dos mercados-alvo da empresa espanhola.

Neste âmbito, destaco três dimensões principais:

– Acesso a mercados de elevado potencial. O português é língua oficial em países que, em conjunto, representam mais de 260 milhões de pessoas, incluindo Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde e outros mercados africanos. Para empresas espanholas interessadas em energia, infraestruturas, turismo, banca, tecnologia, saúde ou bens de consumo, comunicar em português pode facilitar a entrada e a construção de relações comerciais.

– Construção de confiança. Embora muitos portugueses compreendam espanhol e parte dos profissionais brasileiros domine inglês ou espanhol, negociar na língua do cliente transmite proximidade e respeito pela cultura local. Em vendas, contratação pública e relações institucionais, isso pode fazer diferença na criação de confiança e na negociação.

– Integração regional. Para muitas empresas espanholas, Portugal funciona como um primeiro passo para a internacionalização. A proximidade geográfica, as cadeias de abastecimento integradas e o enquadramento comum da União Europeia tornam o mercado português um ambiente relativamente simples para ganhar experiência internacional antes de expandir para mercados lusófonos mais complexos.

Ao mesmo tempo, é importante evitar uma visão simplificada da “lusofonia”. Existem diferenças significativas entre o português europeu e o português brasileiro, bem como entre os contextos económicos e regulatórios de cada país. Uma estratégia eficaz requer adaptação local, e não apenas tradução linguística.

Do ponto de vista das empresas espanholas, investir em competências em português pode gerar vantagens competitivas, como: melhor comunicação comercial e pós-venda; maior eficácia nas negociações; facilidade na constituição de parcerias locais; reforço da imagem da empresa como parceiro de longo prazo. Por outro lado, o português, por si só, não garante sucesso. A internacionalização continua a depender de fatores como conhecimento do enquadramento jurídico, adaptação do produto, logística, capacidade financeira e compreensão das práticas empresariais de cada mercado.

O português, é assim, mais do que uma ferramenta de comunicação, podendo funcionar como um ativo estratégico para empresas espanholas que pretendam consolidar presença em mercados lusófonos. Quando combinado com conhecimento cultural e uma estratégia de internacionalização bem estruturada, contribui para reduzir barreiras de entrada, fortalecer relações de negócio e criar oportunidades de crescimento sustentável.

Com mais de 20 anos de experiência no ensino da língua portuguesa, o que a levou a criar a sua própria academia, a FD Academia de Português?

Depois de mais de 20 anos a ensinar português em Espanha, senti que era o momento de dar um passo em frente e criar um projeto que refletisse a minha visão do ensino da língua portuguesa. Ao longo destes anos, conheci centenas de alunos, compreendi as dificuldades específicas dos hispanofalantes e percebi que era possível oferecer uma abordagem mais próxima, mais personalizada e mais orientada para resultados.

A criação da FD Academia de Português nasceu, precisamente, dessa experiência. Quis construir uma escola onde aprender português fosse muito mais do que estudar gramática. Um espaço onde os alunos ganhassem confiança para comunicar, descobrissem a riqueza da cultura lusófona e desenvolvessem competências úteis para a vida pessoal e profissional.

Também me motivou a crescente importância do português no contexto ibérico e internacional. Cada vez mais empresas espanholas procuram profissionais com conhecimentos de português, e muitas pessoas reconhecem que dominar esta língua abre portas a novas oportunidades. Quis criar uma academia capaz de responder a essa procura com um ensino de excelência, adaptado às necessidades de cada aluno.

A maior recompensa continua a ser acompanhar a evolução dos estudantes e vê-los utilizar o português com naturalidade, seja numa reunião de trabalho, numa viagem, na universidade ou no dia a dia. É essa transformação que me inspira a continuar e que dá sentido ao trabalho desenvolvido pela FD Academia de Português.

A sua experiência como Educadora Social e Escritora influencia a forma como concebe os cursos e relaciona com os alunos?

Sem dúvida. A proximidade do docente à escrita, à literarura e ao mundo social é sempre um fator de motivação para os alunos.

Penso que tanto a minha faceta de Escritora como de Educadora Social tornam a minha docência mais aberta ao mundo e a uma sociedade cada vez mais diversa e plural. Quiçá, de todos, seja esse o ponto que mais me disntingue e impacto tem no meu perfil de ensino. Sensiblidade para ver os alunos como um todo, com passado, presente e futuro, mas, também, para perceber que precisam e merecem ser considerados na sua individualidade.

A FD Academia de Português privilegia o ensino online. Como adaptou a sua metodologia ao crescimento do ensino digital?

A transição para o ensino online foi, acima de tudo, uma oportunidade para repensar a forma como ensinamos português. Na FD Academia de Português, não nos limitámos a transportar as aulas presenciais para uma plataforma digital; adaptámos toda a metodologia para tirar partido das potencialidades do ensino online. As aulas são altamente interativas, com recurso a materiais digitais, exercícios dinâmicos, simulações de situações reais de comunicação e um acompanhamento muito próximo de cada aluno. O objetivo é que os estudantes participem ativamente, falem português desde a primeira aula e desenvolvam confiança na comunicação, independentemente da distância física.

Ao longo dos anos, fomos aperfeiçoando esta metodologia e percebemos que o ensino online oferece vantagens significativas. Permite maior flexibilidade de horários, facilita o acesso a alunos de diferentes cidades e países e possibilita um acompanhamento mais personalizado, respeitando o ritmo e os objetivos de cada pessoa.

Para os profissionais e para as empresas, esta flexibilidade é particularmente importante. As equipas podem frequentar formação sem interrupções na sua atividade, conciliando a aprendizagem com as exigências do trabalho.

Acredito que o sucesso do ensino online não depende da tecnologia, mas da metodologia e da qualidade da interação entre professor e aluno. Quando existe uma abordagem bem estruturada, objetivos claros e um acompanhamento contínuo, a aprendizagem pode ser tão ou mais eficaz do que no ensino presencial. É essa experiência que a FD Academia de Português oferece diariamente aos seus alunos.

Para quem está a considerar aprender português em Espanha, qual é o seu conselho sobre por onde começar?

Se o seu objetivo é comunicar com confiança em português europeu, seja por motivos profissionais, académicos ou pessoais, vale a pena investir numa escola dedicada ao ensino do português como língua estrangeira. Aprender português é muito mais fácil quando tem orientação desde o primeiro dia, especialmente para quem fala espanhol.

É precisamente essa a missão da FD Academia de Português: ajudar hispanofalantes a aprender português de forma prática, eficaz e adaptada às suas necessidades.

Na FD Academia de Português, os alunos desenvolvem não só a gramática e o vocabulário, mas também a pronúncia, a compreensão oral e a confiança para comunicar em situações reais. O acompanhamento personalizado permite evitar os erros mais comuns dos falantes de espanhol e acelerar a aprendizagem.

O mais importante é dar o primeiro passo. Com um bom método, prática consistente e o apoio certo, aprender português torna-se um processo motivador e recompensador. Se está a pensar começar, inscreva-se na FD Academia de Português e descubra como a língua portuguesa pode abrir novas oportunidades pessoais e profissionais.

O que gostaria que os espanhóis percebessem sobre a língua portuguesa que ainda não percebem?

Gostaria que percebessem que o português não é apenas uma língua muito próxima do espanhol, mas uma língua com identidade própria, riqueza cultural e enorme relevância internacional. A proximidade entre as duas línguas cria, frequentemente, a ilusão de que basta falar espanhol para comunicar eficazmente em português, no entanto, essa perceção pode levar a mal-entendidos linguísticos e culturais.

Aprender português não significa apenas adquirir uma nova competência linguística, significa, também, demonstrar respeito pelos interlocutores e pelas culturas dos países lusófonos. Esse esforço é geralmente valorizado e contribui para estabelecer relações de maior confiança, tanto no plano pessoal como profissional.

Além disso, o português é uma língua global, falada em vários continentes e com um peso económico crescente, sobretudo através do Brasil e dos países africanos de língua oficial portuguesa. Para as empresas espanholas, dominar o português representa uma vantagem competitiva que pode facilitar a internacionalização e a criação de oportunidades de negócio.

Gostaria que os espanhóis vissem o português como uma língua internacional, estratégica e culturalmente rica, cujo conhecimento abre portas e aproxima pessoas, empresas e mercados.

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