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Embaixadora Ana Ilíc, Embaixadora da Sérvia em Portugal

Uma Amizade que Atravessa o Continente: Embaixadora Ana Ilić sobre 145 Anos de Relações entre a Sérvia e Portugal

A Embaixadora da Sérvia em Portugal aborda a cooperação, a geopolítica, os laços lusófonos, a Expo 2027 e o lado humano da diplomacia.

A Sérvia e Portugal podem situar-se em extremos opostos do continente europeu, mas, como explica a Embaixadora Ana Ilić nesta entrevista, estão unidos por uma longa amizade e por uma abertura partilhada a uma cooperação mais profunda. Quando os dois países se aproximam de 145 anos de relações diplomáticas, estabelecidas em 1882, a Embaixadora da Sérvia em Portugal reflete sobre uma relação marcada pelo respeito mútuo, por um diálogo político estável e por um significativo potencial por explorar.

Aborda as vias mais promissoras para a cooperação bilateral: das tecnologias de informação, inovação e energias renováveis à educação, turismo e cultura, e os esforços concretos da Embaixada para aproximar as empresas sérvias e portuguesas.

Analisa também a posição da Sérvia no atual panorama geopolítico europeu e global, o seu equilíbrio em matéria de política externa, os seus laços com países lusófonos como Cabo Verde e o seu contributo para a cooperação regional nos Balcãs e na Europa do Sudeste. Com os olhos postos na Expo 2027 em Belgrado, descreve o que o evento representa para a Sérvia e para a região e como Portugal e os parceiros lusófonos podem envolver-se.

Por fim, reflete sobre a distinção de Melhor Embaixadora Acreditada em Portugal nos Prémios Raia Diplomática 2025, as lições da sua carreira e o que a motiva diariamente no trabalho de representação da Sérvia em Portugal.

Como descreveria o atual estado das relações bilaterais entre a Sérvia e Portugal, mais de 140 anos após o estabelecimento de relações diplomáticas em 1882?

Temos muito orgulho em poder dizer que no próximo ano celebraremos 145 anos de relações diplomáticas entre a Sérvia e Portugal, dois países separados por quase todo o continente europeu, mas unidos por uma relação longa e amistosa. Ao longo destes mais de 140 anos, a Europa e o sistema internacional mudaram profundamente, tal como a Sérvia e Portugal, mas a relação entre os nossos dois países permaneceu caracterizada pelo respeito mútuo e por uma genuína vontade de manter o diálogo. Hoje, acredito que temos uma base muito sólida sobre a qual construir uma parceria ainda mais forte.

O nosso diálogo político é bom, marcado pelo respeito mútuo e pela compreensão entre os nossos dois países, apesar da diferença de posições que temos no que diz respeito ao Kosovo-Metohija.

Descreveria, por isso, as nossas relações bilaterais como positivas e estáveis, com contactos políticos muito bons e um potencial considerável de desenvolvimento futuro. Existe uma base importante de entendimento mútuo entre as nossas instituições, mas acredito que podemos tornar a nossa relação muito mais visível e dinâmica ao nível das nossas sociedades. É particularmente encorajador que exista um interesse genuíno de ambas as partes em descobrir novas áreas de cooperação. O meu papel como Embaixadora é ajudar a transformar esse interesse em iniciativas concretas e parcerias duradouras. Acredito que os nossos laços económicos, culturais, científicos e entre pessoas ainda têm considerável margem de crescimento.

Apesar da distância geográfica, a Sérvia e Portugal são, em muitos aspetos, mais próximos do que podem parecer à primeira vista. Ambas as sociedades atribuem grande importância à família, à cultura, à tradição, à hospitalidade e ao desporto, e estes valores humanos comuns constituem uma excelente base para uma maior aproximação.

Acredito também que a Sérvia e Portugal têm uma oportunidade particularmente interessante neste momento. A Sérvia é um país profundamente empenhado na Europa e no seu futuro, enquanto Portugal tem uma valiosa perspetiva europeia, atlântica e lusófona. A tarefa que temos pela frente não é, portanto, reinventar a relação, mas dar-lhe maior substância e visibilidade.

Que áreas de cooperação entre os dois países considera mais promissoras para aprofundar nos próximos anos?

Ocorrem-me várias áreas nas quais vejo um potencial muito significativo. Acima de tudo, a cooperação económica, particularmente em setores como as tecnologias de informação e a digitalização, nos quais a Sérvia tem registado resultados significativos, bem como a inovação e as energias renováveis, áreas em que podemos aprender com a rica experiência de Portugal, assim como a agricultura, o turismo, as infraestruturas e a indústria transformadora.

A Sérvia desenvolveu um forte ecossistema tecnológico e de inovação e dispõe de uma mão de obra altamente qualificada, enquanto Portugal acumulou considerável experiência em áreas como a transformação digital, as energias renováveis, o turismo e os serviços. Existem, portanto, oportunidades de cooperação não apenas baseadas no comércio, mas também no investimento, em empresas conjuntas e no intercâmbio de conhecimentos especializados.

Igualmente importantes são a ciência e a educação. Aquilo em que tenho trabalhado e que gostaria de ver mais é a cooperação direta entre universidades e instituições de investigação sérvias e portuguesas, bem como uma maior mobilidade de estudantes, investigadores e jovens profissionais. Tenho orgulho em dizer que o número de projetos em que cooperamos através de formatos da UE, como o Erasmus, está a crescer todos os anos. Os resultados destes intercâmbios e investimentos nem sempre são imediatamente visíveis, mas criam ligações duradouras entre sociedades. O mesmo se aplica ao curso de língua sérvia que criámos no ano passado na Universidade de Lisboa, do qual me sinto particularmente orgulhosa.

O turismo é outra área com considerável potencial. Mais portugueses deveriam ter a oportunidade de descobrir a Sérvia, e mais cidadãos sérvios deveriam descobrir Portugal para além dos destinos que já conhecem, Lisboa e Porto, para onde a nossa companhia aérea nacional voa várias vezes por semana.

Permita-me também destacar a cultura e as indústrias criativas. Uma vez que tanto a Sérvia como Portugal têm identidades culturais fortes, e precisamente porque as nossas tradições são diferentes, o intercâmbio cultural pode ser particularmente enriquecedor.

Em última análise, vejo a maior oportunidade em passar de uma cooperação ocasional para uma rede mais sistemática de parcerias.

Como tem trabalhado para aproximar as comunidades empresariais sérvia e portuguesa?

Tem havido várias iniciativas concretas da nossa Embaixada para ligar as comunidades empresariais sérvia e portuguesa.

Uma delas foi a participação da Embaixada no Millennium Portugal Exportador 2025, no Porto, um dos principais eventos portugueses dedicados às exportações e à internacionalização empresarial. A Sérvia teve o seu próprio stand e aproveitou a oportunidade para estabelecer contactos diretos com empresas portuguesas. Estes contactos já resultaram em manifestações concretas de interesse em encontrar parceiros sérvios em áreas como marketing, assuntos públicos e relações públicas, produção de media e turismo, comércio e sourcing, indústria vitivinícola, bem como infraestruturas hídricas e municipais. As propostas vão desde a identificação de fornecedores e distribuidores sérvios até oportunidades de importação-exportação, projetos conjuntos e cooperação tecnológica.

Uma plataforma muito importante para nós tem sido, ao longo do meu mandato, a Web Summit em Lisboa. Tendo estado presentes durante anos, em 2025 a Sérvia apresentou cerca de 60 startups com os seus próprios stands, enquanto a delegação sérvia incluiu aproximadamente 300 inovadores, empresários e representantes de empresas. A importância deste setor para a Sérvia é ilustrada pelo facto de as nossas exportações de software terem ultrapassado 4,5 mil milhões de dólares.

Gostaria também de destacar o nosso trabalho de fortalecimento da rede de amizade sérvio-portuguesa e a sua utilização para desenvolver laços locais e empresariais. De 28 a 30 de maio de 2026, a Embaixada participou no primeiro encontro da Associação de Amizade Portugal-Sérvia em Torres Novas. O programa foi muito além do protocolo: além de uma receção com o Presidente da Câmara, uma sessão empresarial dedicada reuniu empresários sérvios e portugueses para apresentarem as suas empresas e explorarem oportunidades de cooperação direta.

No âmbito do programa empresarial, a Câmara de Comércio e Indústria da Sérvia fez uma apresentação abrangente do ambiente empresarial e de investimento da Sérvia, proporcionando às empresas portuguesas uma panorâmica das oportunidades de investimento na Sérvia e das possibilidades de estabelecer cooperação com parceiros sérvios. O programa incluiu também uma componente cultural que apresentou o património histórico e cultural da Sérvia.

Assim, o nosso foco tem sido muito prático: criar oportunidades para que empresas sérvias e portuguesas se encontrem diretamente, identifiquem parceiros e investidores e transformem contactos institucionais em cooperação empresarial concreta.

Temos muito orgulho em poder dizer que no próximo ano celebraremos 145 anos de relações diplomáticas entre a Sérvia e Portugal, dois países separados por quase todo o continente europeu, mas unidos por uma relação longa e amistosa

Qual o papel da cultura, do desporto e da música na aproximação entre os povos sérvio e português?

Diria que a cultura, o desporto e a música estão entre as formas mais eficazes de diplomacia, porque falam diretamente às pessoas, criando uma ligação humana imediata.

O desporto é uma ponte particularmente natural entre a Sérvia e Portugal. Ambos os países têm uma forte cultura desportiva e uma paixão genuína pela competição. Ambos os países têm atletas mundialmente conhecidos — Ronaldo e Đoković, que, dado o muito que contribuem para a visibilidade dos nossos países, estão entre os seus melhores diplomatas públicos. Embora a Sérvia não possa reivindicar muito sucesso no futebol, muitos dos nossos futebolistas jogaram em clubes portugueses e, dada a tradição internacionalmente reconhecida da Sérvia no basquetebol, no ténis e no polo aquático, encontro muitos adeptos dos nossos desportos aqui em Portugal.

A música é igualmente poderosa. As tradições musicais sérvias e as tradições portuguesas, como o fado, são distintas, mas ambas demonstram como a música pode expressar emoção e identidade, até memória coletiva. As diferenças culturais não separam necessariamente as pessoas; muito frequentemente, criam curiosidade e incentivam o diálogo, que também esperamos impulsionar ao trazer os nossos músicos a Portugal, onde seremos país convidado na edição de 2027 do festival “Terras Sem Sombra”. Talvez os portugueses encontrem então algo nas nossas tradições musicais de que gostem tanto como nós gostamos do fado na Sérvia!

Como vê a posição da Sérvia no atual panorama geopolítico europeu e mundial?

A Sérvia é um país europeu, geográfica, histórica e culturalmente, e, uma vez que o nosso futuro está estreitamente ligado ao futuro da Europa, a integração europeia continua a ser uma prioridade estratégica para a Sérvia e um quadro importante para o nosso desenvolvimento político e económico.

No entanto, não podemos ignorar o facto de vivermos num período de profunda transformação geopolítica. Muitas coisas estão em mutação: o ambiente de segurança na Europa mudou e as relações económicas estão a ser reavaliadas, enquanto questões como a segurança energética, a soberania tecnológica, a migração e a conectividade global adquiriram nova importância. É por isso que a Sérvia está a fazer o seu melhor para manter relações com uma ampla variedade de parceiros internacionais. No atual ambiente internacional, manter a comunicação e a capacidade de dialogar com diferentes atores é um importante instrumento diplomático.

Além disso, a estabilidade dos Balcãs Ocidentais continua a ser uma prioridade fundamental para a Sérvia. A nossa região tem uma história complicada e estamos plenamente conscientes de que a paz e a estabilidade não podem ser tomadas como garantidas, razão pela qual o diálogo e a cooperação regional são tão importantes para nós.

O nosso objetivo é proteger os interesses nacionais da Sérvia, permanecendo simultaneamente um parceiro europeu construtivo, contribuindo para a estabilidade regional e prosseguindo o nosso caminho europeu. Acreditamos que a diplomacia é particularmente importante precisamente quando as circunstâncias internacionais são difíceis.

Belgrado (foto de Imagen de stevanaksentijevic en Pixabay)

Que desafios e oportunidades enfrenta a Sérvia na sua política externa, nomeadamente no equilíbrio entre as diferentes esferas de influência?

A Sérvia tem de navegar num ambiente de segurança europeu em rápida mudança, ao mesmo tempo que aborda as suas próprias prioridades nacionais e mantém relações com uma ampla variedade de parceiros internacionais, dada a complexidade do atual ambiente internacional.

Isto exige uma política externa centrada no diálogo e no pragmatismo, e baseada numa compreensão clara dos interesses nacionais. Acreditamos que manter a comunicação com diferentes parceiros é importante, particularmente num período em que as relações internacionais se estão a tornar cada vez mais fragmentadas.

Ao mesmo tempo, a integração europeia da Sérvia exige um trabalho substancial e contínuo. Não é simplesmente uma questão geopolítica; envolve reformas, reforço institucional, transformação económica e alinhamento com as normas europeias, que devem produzir resultados concretos em benefício de todos os nossos cidadãos.

É por isso que vejo o processo de integração europeia não apenas como um objetivo de política externa, mas também como uma oportunidade para a Sérvia continuar a modernizar as suas instituições e a sua economia.

O desafio é gerir diferentes relações de forma responsável, garantindo ao mesmo tempo que a Sérvia continua a ser um parceiro previsível e construtivo. Na minha opinião, a diplomacia consiste precisamente em criar espaço para a cooperação mesmo — ou especialmente — quando não é possível um acordo completo.

Como caracteriza a relação da Sérvia com os países lusófonos, em especial Cabo Verde?

Temos tradicionalmente mantido relações amistosas com o mundo lusófono, desempenhando Portugal um papel importante como ponte para a comunidade lusófona mais ampla.

A nossa relação com Cabo Verde é particularmente interessante e bastante emblemática das nossas relações com os países lusófonos de África. As relações diplomáticas foram estabelecidas em 1976 e têm as suas raízes nos contactos de longa data entre a Jugoslávia e os países do mundo em desenvolvimento, também no âmbito do Movimento dos Não-Alinhados. Há uma forte dimensão histórica na nossa relação, que vejo como uma excelente base a partir da qual olhar para o futuro e identificar novas áreas de cooperação prática.

Durante as minhas várias visitas a Cabo Verde, às quais regresso sempre com muito gosto, tive a oportunidade de me reunir com representantes de várias instituições e de constatar em primeira mão o potencial que existe em áreas como o turismo, a agricultura, a cultura, a educação e o desporto.

A educação pode ser uma ponte especialmente poderosa. Os programas de bolsas e académicos sérvios já ajudaram a criar ligações entre jovens dos nossos países. O programa “World in Serbia” trará vários novos estudantes à Sérvia este ano, do que me sinto muito orgulhosa. Estes contactos sobrevivem frequentemente durante décadas e criam redes que mais tarde se tornam valiosas nas relações diplomáticas, académicas e económicas.

Espero também que a nossa cooperação política e parlamentar se intensifique, na sequência de uma reunião entre os nossos ministros dos Negócios Estrangeiros durante a 81.ª sessão da AGNU, bem como da criação do primeiro grupo parlamentar de amizade com a Sérvia no parlamento de Cabo Verde.

Permita-me acrescentar que Portugal é bastante importante neste contexto, uma vez que o facto de estarmos aqui em Lisboa nos dá uma oportunidade valiosa de compreender melhor o espaço lusófono e de desenvolver ligações que se estendem para além da relação bilateral Sérvia-Portugal.

Que contributo pode a Sérvia dar para o reforço da cooperação regional nos Balcãs e na Europa do Sudeste?

A Sérvia tem tanto um interesse como uma responsabilidade de contribuir para a estabilidade e a cooperação regionais. A nossa posição geográfica significa que estamos estreitamente ligados a praticamente todos os grandes desenvolvimentos na Europa do Sudeste.

Sempre acreditei que a cooperação prática é a abordagem mais eficaz, e é exatamente essa a abordagem que a Sérvia tem praticado. Conectividade, infraestruturas, comércio, energia, turismo, educação e livre circulação de pessoas podem criar benefícios tangíveis e, ao mesmo tempo, construir confiança entre países que historicamente atravessaram períodos de tensão, mas que têm de cooperar se quiserem desenvolver-se.

A cooperação económica é particularmente importante. Quando empresas de países vizinhos trabalham em conjunto, quando as pessoas viajam, estudam e investem além-fronteiras, não só as sociedades se tornam cada vez mais interligadas, como as economias também beneficiam enormemente.

A Sérvia apoia também iniciativas destinadas a reforçar a cooperação económica regional e a aproximar os Balcãs Ocidentais do espaço económico europeu, e prova-o regularmente ao participar em numerosas plataformas e fóruns regionais, facilitando uma cooperação mais estreita.

Para mim, a cooperação regional não é uma alternativa à integração europeia. Pelo contrário, poder-se-ia dizer que Balcãs Ocidentais mais conectados e prósperos podem contribuir para uma Europa mais forte e mais estável.

A Expo 2027 em Belgrado está já a ser preparada. O que representa este evento para a Sérvia e para a região?

A EXPO 2027, que trará mais de 140 países de todo o mundo a Belgrado no próximo verão, é uma oportunidade excecional para a Sérvia e também para todos os Balcãs Ocidentais, pois colocará a nossa região no centro da atenção internacional.

O tema, “Jogar pela Humanidade – Desporto e Música para Todos”, é particularmente adequado devido ao tópico de que falámos nesta entrevista, sobre o desporto e a música serem linguagens universais, que unem pessoas de diferentes nacionalidades, gerações e origens culturais.

Para a Sérvia, a EXPO é também uma oportunidade de demonstrar a transformação que ocorreu no país e de apresentar as nossas capacidades em áreas como a inovação, a tecnologia, a cultura, as infraestruturas e as indústrias criativas. Por outro lado, não gostaria que a EXPO fosse vista simplesmente como uma exposição, uma vez que o seu verdadeiro valor reside nas relações que pode criar — entre países, empresas, universidades, instituições culturais e pessoas. Espero que o legado da EXPO 2027 seja medido não apenas em infraestruturas, mas também nas parcerias e amizades que dela surgirem.

Para a região, é também uma oportunidade importante de demonstrar que a Europa do Sudeste é capaz de acolher grandes eventos internacionais e de contribuir ativamente para conversas globais sobre o futuro.

Como pretende envolver Portugal e os parceiros lusófonos neste projeto da Expo 2027?

A EXPO, especialmente dado o seu tema, cria naturalmente oportunidades para Portugal e os países lusófonos, dada a sua forte tradição no desporto, na música e na criatividade cultural. Mas gostaria também de ver participação em áreas como a inovação, a educação, o turismo, a tecnologia e os negócios.

Portugal e os países lusófonos têm um contributo importante a dar à EXPO 2027, e espero muito que vejamos uma presença forte e visível deles em Belgrado. Não só isso — espero que as relações estabelecidas em Belgrado resultem em cooperação que continue para além da própria EXPO. Uma exposição pode durar três meses, mas uma parceria entre duas universidades, duas empresas ou duas instituições culturais pode durar décadas.

Por essa razão, vejo a Expo 2027 como uma oportunidade não só de convidar Portugal a Belgrado, mas também de aprofundar a relação entre a Sérvia, Portugal e a comunidade lusófona mais ampla.

Que mensagem gostaria de deixar a quem ainda não conhece Belgrado e que poderá visitar a cidade em 2027?

A minha mensagem seria muito simples: venham a Belgrado com a mente aberta e deixem que a cidade vos surpreenda, o que certamente acontecerá!

Belgrado é uma cidade com uma história muito longa, mas é também jovem e energética, em constante mudança. É uma cidade moldada e definida pelo encontro de diferentes culturas e civilizações, o que se reflete na sua arquitetura, gastronomia, música e vida quotidiana.

A confluência dos rios Sava e Danúbio é uma das caraterísticas mais belas da cidade, mas o que sei que os visitantes mais recordam, como os meus amigos do estrangeiro não se cansam de me dizer, é a sua atmosfera e a hospitalidade do seu povo.

A EXPO 2027 proporcionará uma excelente razão para visitar Belgrado, mas espero que os visitantes aproveitem a oportunidade para ir além dela e descobrir a própria Sérvia, o património cultural, a natureza, a comida, o vinho e a música pelos quais somos conhecidos.

Aos visitantes portugueses em particular, diria: venham descobrir um país europeu que talvez conheçam menos bem do que alguns dos vossos destinos tradicionais. Espero que cheguem como visitantes e partam como amigos e com vontade de regressar.

Foi distinguida como Melhor Embaixadora Acreditada em Portugal na segunda edição dos Prémios Raia Diplomática. Que significado tem para si este reconhecimento?

Recebi o reconhecimento com grande gratidão e um forte sentido de responsabilidade. Para mim, não é simplesmente um prémio pessoal. Vejo-o como um reconhecimento do trabalho que toda a equipa da Embaixada tem realizado para fortalecer a relação entre a Sérvia e Portugal.

O que torna o reconhecimento particularmente significativo para mim é que vem de uma instituição portuguesa e reflete uma valorização da importância das relações Sérvia-Portugal.

Vejo também esse reconhecimento como um incentivo para continuar. A diplomacia é uma profissão de longo prazo. Nem sempre se veem imediatamente os resultados do trabalho, mas cada conversa, cada novo contacto e cada iniciativa bem-sucedida podem contribuir para uma relação mais forte no futuro.

Que lições ou experiências da sua trajetória considera mais determinantes para o trabalho que desenvolve em Portugal?

Uma das lições mais importantes que a minha carreira diplomática me ensinou é que as relações internacionais dependem, em última análise, das pessoas.

É claro que a diplomacia envolve instituições, acordos, negociações e posições formais. Mas por trás de tudo isto estão indivíduos que têm de comunicar, compreender-se mutuamente e, em muitos casos, construir confiança ao longo de um longo período de tempo.

Aprendi também a importância de ouvir. A diplomacia não consiste simplesmente em explicar a posição do seu país; consiste igualmente em compreender as prioridades, sensibilidades e expectativas da outra parte.

Outra lição importante é a paciência. Algumas iniciativas diplomáticas levam anos a produzir resultados. Uma conversa que hoje parece relativamente pequena pode tornar-se a base para um projeto significativo no futuro.

Trabalhar em Portugal reforçou a minha convicção sobre a importância da diplomacia pessoal. Quanto mais viajo pelo país, me reúno com instituições portuguesas e contacto com diferentes comunidades, mais vejo quantas oportunidades existem para a Sérvia e Portugal trabalharem em conjunto.

A minha experiência ensinou-me que a boa diplomacia começa com respeito e curiosidade — respeito pelo outro país e curiosidade genuína pelo seu povo e pelas suas perspetivas.

O que mais a motiva no dia a dia da representação da Sérvia em Portugal?

Como acredito firmemente que a diplomacia é sobre pessoas, o que mais me motiva, dia após dia, é a possibilidade de criar ligações — ligações entre pessoas, instituições, empresas e culturas.

Representar o próprio país é uma grande responsabilidade, mas é também um privilégio. Cada dia oferece uma oportunidade de explicar melhor a Sérvia, corrigir equívocos onde existam e, igualmente importante, ouvir e compreender melhor Portugal.

A minha maior recompensa e, ao mesmo tempo, motivação adicional é quando vejo um contacto transformar-se em algo concreto: quando uma empresa começa a cooperar com um parceiro sérvio, quando estudantes descobrem oportunidades de estudar nos países um do outro, quando artistas colaboram, ou quando alguém que sabia muito pouco sobre a Sérvia fica genuinamente interessado em visitar. Podem parecer pequenas conquistas, mas a diplomacia é frequentemente construída precisamente a partir dessas pequenas conquistas e depende sempre de não descartar pequenos passos em direção a um objetivo maior.

Isso, em última análise, é o que me motiva: construir relações que possam durar mais do que qualquer mandato diplomático individual.

A Sérvia e Portugal podem situar-se em extremos opostos do continente europeu, mas, como explica a Embaixadora Ana Ilić nesta entrevista, estão unidos por uma longa amizade e por uma abertura partilhada a uma cooperação mais profunda. Quando os dois países se aproximam de 145 anos de relações diplomáticas, estabelecidas em 1882, a Embaixadora da Sérvia em Portugal reflete sobre uma relação marcada pelo respeito mútuo, por um diálogo político estável e por um significativo potencial por explorar.

Aborda as vias mais promissoras para a cooperação bilateral — das tecnologias de informação, inovação e energias renováveis à educação, turismo e cultura — e os esforços concretos da Embaixada para aproximar as empresas sérvias e portuguesas.

Analisa também a posição da Sérvia no atual panorama geopolítico europeu e global, o seu equilíbrio em matéria de política externa, os seus laços com países lusófonos como Cabo Verde e o seu contributo para a cooperação regional nos Balcãs e na Europa do Sudeste. Com os olhos postos na Expo 2027 em Belgrado, descreve o que o evento representa para a Sérvia e para a região e como Portugal e os parceiros lusófonos podem envolver-se.

Por fim, reflete sobre a distinção de Melhor Embaixadora Acreditada em Portugal nos Prémios Raia Diplomática 2025, as lições da sua carreira e o que a motiva diariamente no trabalho de representação da Sérvia em Portugal.

Como descreveria o atual estado das relações bilaterais entre a Sérvia e Portugal, mais de 140 anos após o estabelecimento de relações diplomáticas em 1882?

Temos muito orgulho em poder dizer que no próximo ano celebraremos 145 anos de relações diplomáticas entre a Sérvia e Portugal, dois países separados por quase todo o continente europeu, mas unidos por uma relação longa e amistosa. Ao longo destes mais de 140 anos, a Europa e o sistema internacional mudaram profundamente, tal como a Sérvia e Portugal, mas a relação entre os nossos dois países permaneceu caracterizada pelo respeito mútuo e por uma genuína vontade de manter o diálogo. Hoje, acredito que temos uma base muito sólida sobre a qual construir uma parceria ainda mais forte.

O nosso diálogo político é bom, marcado pelo respeito mútuo e pela compreensão entre os nossos dois países, apesar da diferença de posições que temos no que diz respeito ao Kosovo-Metohija.

Descreveria, por isso, as nossas relações bilaterais como positivas e estáveis, com contactos políticos muito bons e um potencial considerável de desenvolvimento futuro. Existe uma base importante de entendimento mútuo entre as nossas instituições, mas acredito que podemos tornar a nossa relação muito mais visível e dinâmica ao nível das nossas sociedades. É particularmente encorajador que exista um interesse genuíno de ambas as partes em descobrir novas áreas de cooperação. O meu papel como Embaixadora é ajudar a transformar esse interesse em iniciativas concretas e parcerias duradouras. Acredito que os nossos laços económicos, culturais, científicos e entre pessoas ainda têm considerável margem de crescimento.

Apesar da distância geográfica, a Sérvia e Portugal são, em muitos aspetos, mais próximos do que podem parecer à primeira vista. Ambas as sociedades atribuem grande importância à família, à cultura, à tradição, à hospitalidade e ao desporto, e estes valores humanos comuns constituem uma excelente base para uma maior aproximação.

Acredito também que a Sérvia e Portugal têm uma oportunidade particularmente interessante neste momento. A Sérvia é um país profundamente empenhado na Europa e no seu futuro, enquanto Portugal tem uma valiosa perspetiva europeia, atlântica e lusófona. A tarefa que temos pela frente não é, portanto, reinventar a relação, mas dar-lhe maior substância e visibilidade.

Que áreas de cooperação entre os dois países considera mais promissoras para aprofundar nos próximos anos?

Ocorrem-me várias áreas nas quais vejo um potencial muito significativo. Acima de tudo, a cooperação económica, particularmente em setores como as tecnologias de informação e a digitalização, nos quais a Sérvia tem registado resultados significativos, bem como a inovação e as energias renováveis, áreas em que podemos aprender com a rica experiência de Portugal, assim como a agricultura, o turismo, as infraestruturas e a indústria transformadora.

A Sérvia desenvolveu um forte ecossistema tecnológico e de inovação e dispõe de uma mão de obra altamente qualificada, enquanto Portugal acumulou considerável experiência em áreas como a transformação digital, as energias renováveis, o turismo e os serviços. Existem, portanto, oportunidades de cooperação não apenas baseadas no comércio, mas também no investimento, em empresas conjuntas e no intercâmbio de conhecimentos especializados.

Igualmente importantes são a ciência e a educação. Aquilo em que tenho trabalhado e que gostaria de ver mais é a cooperação direta entre universidades e instituições de investigação sérvias e portuguesas, bem como uma maior mobilidade de estudantes, investigadores e jovens profissionais. Tenho orgulho em dizer que o número de projetos em que cooperamos através de formatos da UE, como o Erasmus, está a crescer todos os anos. Os resultados destes intercâmbios e investimentos nem sempre são imediatamente visíveis, mas criam ligações duradouras entre sociedades. O mesmo se aplica ao curso de língua sérvia que criámos no ano passado na Universidade de Lisboa, do qual me sinto particularmente orgulhosa.

O turismo é outra área com considerável potencial. Mais portugueses deveriam ter a oportunidade de descobrir a Sérvia, e mais cidadãos sérvios deveriam descobrir Portugal para além dos destinos que já conhecem, Lisboa e Porto, para onde a nossa companhia aérea nacional voa várias vezes por semana.

Permita-me também destacar a cultura e as indústrias criativas. Uma vez que tanto a Sérvia como Portugal têm identidades culturais fortes, e precisamente porque as nossas tradições são diferentes, o intercâmbio cultural pode ser particularmente enriquecedor.

Em última análise, vejo a maior oportunidade em passar de uma cooperação ocasional para uma rede mais sistemática de parcerias.

Como tem trabalhado para aproximar as comunidades empresariais sérvia e portuguesa?

Tem havido várias iniciativas concretas da nossa Embaixada para ligar as comunidades empresariais sérvia e portuguesa.

Uma delas foi a participação da Embaixada no Millennium Portugal Exportador 2025, no Porto, um dos principais eventos portugueses dedicados às exportações e à internacionalização empresarial. A Sérvia teve o seu próprio stand e aproveitou a oportunidade para estabelecer contactos diretos com empresas portuguesas. Estes contactos já resultaram em manifestações concretas de interesse em encontrar parceiros sérvios em áreas como marketing, assuntos públicos e relações públicas, produção de media e turismo, comércio e sourcing, indústria vitivinícola, bem como infraestruturas hídricas e municipais. As propostas vão desde a identificação de fornecedores e distribuidores sérvios até oportunidades de importação-exportação, projetos conjuntos e cooperação tecnológica.

Uma plataforma muito importante para nós tem sido, ao longo do meu mandato, a Web Summit em Lisboa. Tendo estado presentes durante anos, em 2025 a Sérvia apresentou cerca de 60 startups com os seus próprios stands, enquanto a delegação sérvia incluiu aproximadamente 300 inovadores, empresários e representantes de empresas. A importância deste setor para a Sérvia é ilustrada pelo facto de as nossas exportações de software terem ultrapassado 4,5 mil milhões de dólares.

Gostaria também de destacar o nosso trabalho de fortalecimento da rede de amizade sérvio-portuguesa e a sua utilização para desenvolver laços locais e empresariais. De 28 a 30 de maio de 2026, a Embaixada participou no primeiro encontro da Associação de Amizade Portugal-Sérvia em Torres Novas. O programa foi muito além do protocolo: além de uma receção com o Presidente da Câmara, uma sessão empresarial dedicada reuniu empresários sérvios e portugueses para apresentarem as suas empresas e explorarem oportunidades de cooperação direta.

No âmbito do programa empresarial, a Câmara de Comércio e Indústria da Sérvia fez uma apresentação abrangente do ambiente empresarial e de investimento da Sérvia, proporcionando às empresas portuguesas uma panorâmica das oportunidades de investimento na Sérvia e das possibilidades de estabelecer cooperação com parceiros sérvios. O programa incluiu também uma componente cultural que apresentou o património histórico e cultural da Sérvia.

Assim, o nosso foco tem sido muito prático: criar oportunidades para que empresas sérvias e portuguesas se encontrem diretamente, identifiquem parceiros e investidores e transformem contactos institucionais em cooperação empresarial concreta.

Qual o papel da cultura, do desporto e da música na aproximação entre os povos sérvio e português?

Diria que a cultura, o desporto e a música estão entre as formas mais eficazes de diplomacia, porque falam diretamente às pessoas, criando uma ligação humana imediata.

O desporto é uma ponte particularmente natural entre a Sérvia e Portugal. Ambos os países têm uma forte cultura desportiva e uma paixão genuína pela competição. Ambos os países têm atletas mundialmente conhecidos — Ronaldo e Đoković, que, dado o muito que contribuem para a visibilidade dos nossos países, estão entre os seus melhores diplomatas públicos. Embora a Sérvia não possa reivindicar muito sucesso no futebol, muitos dos nossos futebolistas jogaram em clubes portugueses e, dada a tradição internacionalmente reconhecida da Sérvia no basquetebol, no ténis e no polo aquático, encontro muitos adeptos dos nossos desportos aqui em Portugal.

A música é igualmente poderosa. As tradições musicais sérvias e as tradições portuguesas, como o fado, são distintas, mas ambas demonstram como a música pode expressar emoção e identidade, até memória coletiva. As diferenças culturais não separam necessariamente as pessoas; muito frequentemente, criam curiosidade e incentivam o diálogo, que também esperamos impulsionar ao trazer os nossos músicos a Portugal, onde seremos país convidado na edição de 2027 do festival “Terras Sem Sombra”. Talvez os portugueses encontrem então algo nas nossas tradições musicais de que gostem tanto como nós gostamos do fado na Sérvia!

Como vê a posição da Sérvia no atual panorama geopolítico europeu e mundial?

A Sérvia é um país europeu, geográfica, histórica e culturalmente, e, uma vez que o nosso futuro está estreitamente ligado ao futuro da Europa, a integração europeia continua a ser uma prioridade estratégica para a Sérvia e um quadro importante para o nosso desenvolvimento político e económico.

No entanto, não podemos ignorar o facto de vivermos num período de profunda transformação geopolítica. Muitas coisas estão em mutação: o ambiente de segurança na Europa mudou e as relações económicas estão a ser reavaliadas, enquanto questões como a segurança energética, a soberania tecnológica, a migração e a conectividade global adquiriram nova importância. É por isso que a Sérvia está a fazer o seu melhor para manter relações com uma ampla variedade de parceiros internacionais. No atual ambiente internacional, manter a comunicação e a capacidade de dialogar com diferentes atores é um importante instrumento diplomático.

Além disso, a estabilidade dos Balcãs Ocidentais continua a ser uma prioridade fundamental para a Sérvia. A nossa região tem uma história complicada e estamos plenamente conscientes de que a paz e a estabilidade não podem ser tomadas como garantidas, razão pela qual o diálogo e a cooperação regional são tão importantes para nós.

O nosso objetivo é proteger os interesses nacionais da Sérvia, permanecendo simultaneamente um parceiro europeu construtivo, contribuindo para a estabilidade regional e prosseguindo o nosso caminho europeu. Acreditamos que a diplomacia é particularmente importante precisamente quando as circunstâncias internacionais são difíceis.

Que desafios e oportunidades enfrenta a Sérvia na sua política externa, nomeadamente no equilíbrio entre as diferentes esferas de influência?

A Sérvia tem de navegar num ambiente de segurança europeu em rápida mudança, ao mesmo tempo que aborda as suas próprias prioridades nacionais e mantém relações com uma ampla variedade de parceiros internacionais, dada a complexidade do atual ambiente internacional.

Isto exige uma política externa centrada no diálogo e no pragmatismo, e baseada numa compreensão clara dos interesses nacionais. Acreditamos que manter a comunicação com diferentes parceiros é importante, particularmente num período em que as relações internacionais se estão a tornar cada vez mais fragmentadas.

Ao mesmo tempo, a integração europeia da Sérvia exige um trabalho substancial e contínuo. Não é simplesmente uma questão geopolítica; envolve reformas, reforço institucional, transformação económica e alinhamento com as normas europeias, que devem produzir resultados concretos em benefício de todos os nossos cidadãos.

É por isso que vejo o processo de integração europeia não apenas como um objetivo de política externa, mas também como uma oportunidade para a Sérvia continuar a modernizar as suas instituições e a sua economia.

O desafio é gerir diferentes relações de forma responsável, garantindo ao mesmo tempo que a Sérvia continua a ser um parceiro previsível e construtivo. Na minha opinião, a diplomacia consiste precisamente em criar espaço para a cooperação mesmo — ou especialmente — quando não é possível um acordo completo.

Como caracteriza a relação da Sérvia com os países lusófonos, em especial Cabo Verde?

Temos tradicionalmente mantido relações amistosas com o mundo lusófono, desempenhando Portugal um papel importante como ponte para a comunidade lusófona mais ampla.

A nossa relação com Cabo Verde é particularmente interessante e bastante emblemática das nossas relações com os países lusófonos de África. As relações diplomáticas foram estabelecidas em 1976 e têm as suas raízes nos contactos de longa data entre a Jugoslávia e os países do mundo em desenvolvimento, também no âmbito do Movimento dos Não-Alinhados. Há uma forte dimensão histórica na nossa relação, que vejo como uma excelente base a partir da qual olhar para o futuro e identificar novas áreas de cooperação prática.

Durante as minhas várias visitas a Cabo Verde, às quais regresso sempre com muito gosto, tive a oportunidade de me reunir com representantes de várias instituições e de constatar em primeira mão o potencial que existe em áreas como o turismo, a agricultura, a cultura, a educação e o desporto.

A educação pode ser uma ponte especialmente poderosa. Os programas de bolsas e académicos sérvios já ajudaram a criar ligações entre jovens dos nossos países. O programa “World in Serbia” trará vários novos estudantes à Sérvia este ano, do que me sinto muito orgulhosa. Estes contactos sobrevivem frequentemente durante décadas e criam redes que mais tarde se tornam valiosas nas relações diplomáticas, académicas e económicas.

Espero também que a nossa cooperação política e parlamentar se intensifique, na sequência de uma reunião entre os nossos ministros dos Negócios Estrangeiros durante a 81.ª sessão da AGNU, bem como da criação do primeiro grupo parlamentar de amizade com a Sérvia no parlamento de Cabo Verde.

Permita-me acrescentar que Portugal é bastante importante neste contexto, uma vez que o facto de estarmos aqui em Lisboa nos dá uma oportunidade valiosa de compreender melhor o espaço lusófono e de desenvolver ligações que se estendem para além da relação bilateral Sérvia-Portugal.

Que contributo pode a Sérvia dar para o reforço da cooperação regional nos Balcãs e na Europa do Sudeste?

A Sérvia tem tanto um interesse como uma responsabilidade de contribuir para a estabilidade e a cooperação regionais. A nossa posição geográfica significa que estamos estreitamente ligados a praticamente todos os grandes desenvolvimentos na Europa do Sudeste.

Sempre acreditei que a cooperação prática é a abordagem mais eficaz, e é exatamente essa a abordagem que a Sérvia tem praticado. Conectividade, infraestruturas, comércio, energia, turismo, educação e livre circulação de pessoas podem criar benefícios tangíveis e, ao mesmo tempo, construir confiança entre países que historicamente atravessaram períodos de tensão, mas que têm de cooperar se quiserem desenvolver-se.

A cooperação económica é particularmente importante. Quando empresas de países vizinhos trabalham em conjunto, quando as pessoas viajam, estudam e investem além-fronteiras, não só as sociedades se tornam cada vez mais interligadas, como as economias também beneficiam enormemente.

A Sérvia apoia também iniciativas destinadas a reforçar a cooperação económica regional e a aproximar os Balcãs Ocidentais do espaço económico europeu, e prova-o regularmente ao participar em numerosas plataformas e fóruns regionais, facilitando uma cooperação mais estreita.

Para mim, a cooperação regional não é uma alternativa à integração europeia. Pelo contrário, poder-se-ia dizer que Balcãs Ocidentais mais conectados e prósperos podem contribuir para uma Europa mais forte e mais estável.

A Expo 2027 em Belgrado está já a ser preparada. O que representa este evento para a Sérvia e para a região?

A EXPO 2027, que trará mais de 140 países de todo o mundo a Belgrado no próximo verão, é uma oportunidade excecional para a Sérvia e também para todos os Balcãs Ocidentais, pois colocará a nossa região no centro da atenção internacional.

O tema, “Jogar pela Humanidade – Desporto e Música para Todos”, é particularmente adequado devido ao tópico de que falámos nesta entrevista, sobre o desporto e a música serem linguagens universais, que unem pessoas de diferentes nacionalidades, gerações e origens culturais.

Para a Sérvia, a EXPO é também uma oportunidade de demonstrar a transformação que ocorreu no país e de apresentar as nossas capacidades em áreas como a inovação, a tecnologia, a cultura, as infraestruturas e as indústrias criativas. Por outro lado, não gostaria que a EXPO fosse vista simplesmente como uma exposição, uma vez que o seu verdadeiro valor reside nas relações que pode criar — entre países, empresas, universidades, instituições culturais e pessoas. Espero que o legado da EXPO 2027 seja medido não apenas em infraestruturas, mas também nas parcerias e amizades que dela surgirem.

Para a região, é também uma oportunidade importante de demonstrar que a Europa do Sudeste é capaz de acolher grandes eventos internacionais e de contribuir ativamente para conversas globais sobre o futuro.

Como pretende envolver Portugal e os parceiros lusófonos neste projeto da Expo 2027?

A EXPO, especialmente dado o seu tema, cria naturalmente oportunidades para Portugal e os países lusófonos, dada a sua forte tradição no desporto, na música e na criatividade cultural. Mas gostaria também de ver participação em áreas como a inovação, a educação, o turismo, a tecnologia e os negócios.

Portugal e os países lusófonos têm um contributo importante a dar à EXPO 2027, e espero muito que vejamos uma presença forte e visível deles em Belgrado. Não só isso — espero que as relações estabelecidas em Belgrado resultem em cooperação que continue para além da própria EXPO. Uma exposição pode durar três meses, mas uma parceria entre duas universidades, duas empresas ou duas instituições culturais pode durar décadas.

Por essa razão, vejo a Expo 2027 como uma oportunidade não só de convidar Portugal a Belgrado, mas também de aprofundar a relação entre a Sérvia, Portugal e a comunidade lusófona mais ampla.

Que mensagem gostaria de deixar a quem ainda não conhece Belgrado e que poderá visitar a cidade em 2027?

A minha mensagem seria muito simples: venham a Belgrado com a mente aberta e deixem que a cidade vos surpreenda, o que certamente acontecerá!

Belgrado é uma cidade com uma história muito longa, mas é também jovem e energética, em constante mudança. É uma cidade moldada e definida pelo encontro de diferentes culturas e civilizações, o que se reflete na sua arquitetura, gastronomia, música e vida quotidiana.

A confluência dos rios Sava e Danúbio é uma das caraterísticas mais belas da cidade, mas o que sei que os visitantes mais recordam, como os meus amigos do estrangeiro não se cansam de me dizer, é a sua atmosfera e a hospitalidade do seu povo.

A EXPO 2027 proporcionará uma excelente razão para visitar Belgrado, mas espero que os visitantes aproveitem a oportunidade para ir além dela e descobrir a própria Sérvia, o património cultural, a natureza, a comida, o vinho e a música pelos quais somos conhecidos.

Aos visitantes portugueses em particular, diria: venham descobrir um país europeu que talvez conheçam menos bem do que alguns dos vossos destinos tradicionais. Espero que cheguem como visitantes e partam como amigos e com vontade de regressar.

Foi distinguida como Melhor Embaixadora Acreditada em Portugal na segunda edição dos Prémios Raia Diplomática. Que significado tem para si este reconhecimento?

Recebi o reconhecimento com grande gratidão e um forte sentido de responsabilidade. Para mim, não é simplesmente um prémio pessoal. Vejo-o como um reconhecimento do trabalho que toda a equipa da Embaixada tem realizado para fortalecer a relação entre a Sérvia e Portugal.

O que torna o reconhecimento particularmente significativo para mim é que vem de uma instituição portuguesa e reflete uma valorização da importância das relações Sérvia-Portugal.

Vejo também esse reconhecimento como um incentivo para continuar. A diplomacia é uma profissão de longo prazo. Nem sempre se veem imediatamente os resultados do trabalho, mas cada conversa, cada novo contacto e cada iniciativa bem-sucedida podem contribuir para uma relação mais forte no futuro.

Que lições ou experiências da sua trajetória considera mais determinantes para o trabalho que desenvolve em Portugal?

Uma das lições mais importantes que a minha carreira diplomática me ensinou é que as relações internacionais dependem, em última análise, das pessoas.

É claro que a diplomacia envolve instituições, acordos, negociações e posições formais. Mas por trás de tudo isto estão indivíduos que têm de comunicar, compreender-se mutuamente e, em muitos casos, construir confiança ao longo de um longo período de tempo.

Aprendi também a importância de ouvir. A diplomacia não consiste simplesmente em explicar a posição do seu país; consiste igualmente em compreender as prioridades, sensibilidades e expectativas da outra parte.

Outra lição importante é a paciência. Algumas iniciativas diplomáticas levam anos a produzir resultados. Uma conversa que hoje parece relativamente pequena pode tornar-se a base para um projeto significativo no futuro.

Trabalhar em Portugal reforçou a minha convicção sobre a importância da diplomacia pessoal. Quanto mais viajo pelo país, me reúno com instituições portuguesas e contacto com diferentes comunidades, mais vejo quantas oportunidades existem para a Sérvia e Portugal trabalharem em conjunto.

A minha experiência ensinou-me que a boa diplomacia começa com respeito e curiosidade — respeito pelo outro país e curiosidade genuína pelo seu povo e pelas suas perspetivas.

O que mais a motiva no dia a dia da representação da Sérvia em Portugal?

Como acredito firmemente que a diplomacia é sobre pessoas, o que mais me motiva, dia após dia, é a possibilidade de criar ligações — ligações entre pessoas, instituições, empresas e culturas.

Representar o próprio país é uma grande responsabilidade, mas é também um privilégio. Cada dia oferece uma oportunidade de explicar melhor a Sérvia, corrigir equívocos onde existam e, igualmente importante, ouvir e compreender melhor Portugal.

A minha maior recompensa e, ao mesmo tempo, motivação adicional é quando vejo um contacto transformar-se em algo concreto: quando uma empresa começa a cooperar com um parceiro sérvio, quando estudantes descobrem oportunidades de estudar nos países um do outro, quando artistas colaboram, ou quando alguém que sabia muito pouco sobre a Sérvia fica genuinamente interessado em visitar. Podem parecer pequenas conquistas, mas a diplomacia é frequentemente construída precisamente a partir dessas pequenas conquistas e depende sempre de não descartar pequenos passos em direção a um objetivo maior.

Isso, em última análise, é o que me motiva: construir relações que possam durar mais do que qualquer mandato diplomático individual.A Embaixadora da Sérvia em Portugal aborda a cooperação, a geopolítica, os laços lusófonos, a Expo 2027 e o lado humano da diplomacia.

A Sérvia e Portugal podem situar-se em extremos opostos do continente europeu, mas, como explica a Embaixadora Ana Ilić nesta entrevista, estão unidos por uma longa amizade e por uma abertura partilhada a uma cooperação mais profunda. Quando os dois países se aproximam de 145 anos de relações diplomáticas, estabelecidas em 1882, a Embaixadora da Sérvia em Portugal reflete sobre uma relação marcada pelo respeito mútuo, por um diálogo político estável e por um significativo potencial por explorar.

Aborda as vias mais promissoras para a cooperação bilateral — das tecnologias de informação, inovação e energias renováveis à educação, turismo e cultura — e os esforços concretos da Embaixada para aproximar as empresas sérvias e portuguesas.

Analisa também a posição da Sérvia no atual panorama geopolítico europeu e global, o seu equilíbrio em matéria de política externa, os seus laços com países lusófonos como Cabo Verde e o seu contributo para a cooperação regional nos Balcãs e na Europa do Sudeste. Com os olhos postos na Expo 2027 em Belgrado, descreve o que o evento representa para a Sérvia e para a região e como Portugal e os parceiros lusófonos podem envolver-se.

Por fim, reflete sobre a distinção de Melhor Embaixadora Acreditada em Portugal nos Prémios Raia Diplomática 2025, as lições da sua carreira e o que a motiva diariamente no trabalho de representação da Sérvia em Portugal.

Como descreveria o atual estado das relações bilaterais entre a Sérvia e Portugal, mais de 140 anos após o estabelecimento de relações diplomáticas em 1882?

Temos muito orgulho em poder dizer que no próximo ano celebraremos 145 anos de relações diplomáticas entre a Sérvia e Portugal, dois países separados por quase todo o continente europeu, mas unidos por uma relação longa e amistosa. Ao longo destes mais de 140 anos, a Europa e o sistema internacional mudaram profundamente, tal como a Sérvia e Portugal, mas a relação entre os nossos dois países permaneceu caracterizada pelo respeito mútuo e por uma genuína vontade de manter o diálogo. Hoje, acredito que temos uma base muito sólida sobre a qual construir uma parceria ainda mais forte.

O nosso diálogo político é bom, marcado pelo respeito mútuo e pela compreensão entre os nossos dois países, apesar da diferença de posições que temos no que diz respeito ao Kosovo-Metohija.

Descreveria, por isso, as nossas relações bilaterais como positivas e estáveis, com contactos políticos muito bons e um potencial considerável de desenvolvimento futuro. Existe uma base importante de entendimento mútuo entre as nossas instituições, mas acredito que podemos tornar a nossa relação muito mais visível e dinâmica ao nível das nossas sociedades. É particularmente encorajador que exista um interesse genuíno de ambas as partes em descobrir novas áreas de cooperação. O meu papel como Embaixadora é ajudar a transformar esse interesse em iniciativas concretas e parcerias duradouras. Acredito que os nossos laços económicos, culturais, científicos e entre pessoas ainda têm considerável margem de crescimento.

Apesar da distância geográfica, a Sérvia e Portugal são, em muitos aspetos, mais próximos do que podem parecer à primeira vista. Ambas as sociedades atribuem grande importância à família, à cultura, à tradição, à hospitalidade e ao desporto, e estes valores humanos comuns constituem uma excelente base para uma maior aproximação.

Acredito também que a Sérvia e Portugal têm uma oportunidade particularmente interessante neste momento. A Sérvia é um país profundamente empenhado na Europa e no seu futuro, enquanto Portugal tem uma valiosa perspetiva europeia, atlântica e lusófona. A tarefa que temos pela frente não é, portanto, reinventar a relação, mas dar-lhe maior substância e visibilidade.

Que áreas de cooperação entre os dois países considera mais promissoras para aprofundar nos próximos anos?

Ocorrem-me várias áreas nas quais vejo um potencial muito significativo. Acima de tudo, a cooperação económica, particularmente em setores como as tecnologias de informação e a digitalização, nos quais a Sérvia tem registado resultados significativos, bem como a inovação e as energias renováveis, áreas em que podemos aprender com a rica experiência de Portugal, assim como a agricultura, o turismo, as infraestruturas e a indústria transformadora.

A Sérvia desenvolveu um forte ecossistema tecnológico e de inovação e dispõe de uma mão de obra altamente qualificada, enquanto Portugal acumulou considerável experiência em áreas como a transformação digital, as energias renováveis, o turismo e os serviços. Existem, portanto, oportunidades de cooperação não apenas baseadas no comércio, mas também no investimento, em empresas conjuntas e no intercâmbio de conhecimentos especializados.

Igualmente importantes são a ciência e a educação. Aquilo em que tenho trabalhado e que gostaria de ver mais é a cooperação direta entre universidades e instituições de investigação sérvias e portuguesas, bem como uma maior mobilidade de estudantes, investigadores e jovens profissionais. Tenho orgulho em dizer que o número de projetos em que cooperamos através de formatos da UE, como o Erasmus, está a crescer todos os anos. Os resultados destes intercâmbios e investimentos nem sempre são imediatamente visíveis, mas criam ligações duradouras entre sociedades. O mesmo se aplica ao curso de língua sérvia que criámos no ano passado na Universidade de Lisboa, do qual me sinto particularmente orgulhosa.

O turismo é outra área com considerável potencial. Mais portugueses deveriam ter a oportunidade de descobrir a Sérvia, e mais cidadãos sérvios deveriam descobrir Portugal para além dos destinos que já conhecem, Lisboa e Porto, para onde a nossa companhia aérea nacional voa várias vezes por semana.

Permita-me também destacar a cultura e as indústrias criativas. Uma vez que tanto a Sérvia como Portugal têm identidades culturais fortes, e precisamente porque as nossas tradições são diferentes, o intercâmbio cultural pode ser particularmente enriquecedor.

Em última análise, vejo a maior oportunidade em passar de uma cooperação ocasional para uma rede mais sistemática de parcerias.

Como tem trabalhado para aproximar as comunidades empresariais sérvia e portuguesa?

Tem havido várias iniciativas concretas da nossa Embaixada para ligar as comunidades empresariais sérvia e portuguesa.

Uma delas foi a participação da Embaixada no Millennium Portugal Exportador 2025, no Porto, um dos principais eventos portugueses dedicados às exportações e à internacionalização empresarial. A Sérvia teve o seu próprio stand e aproveitou a oportunidade para estabelecer contactos diretos com empresas portuguesas. Estes contactos já resultaram em manifestações concretas de interesse em encontrar parceiros sérvios em áreas como marketing, assuntos públicos e relações públicas, produção de media e turismo, comércio e sourcing, indústria vitivinícola, bem como infraestruturas hídricas e municipais. As propostas vão desde a identificação de fornecedores e distribuidores sérvios até oportunidades de importação-exportação, projetos conjuntos e cooperação tecnológica.

Uma plataforma muito importante para nós tem sido, ao longo do meu mandato, a Web Summit em Lisboa. Tendo estado presentes durante anos, em 2025 a Sérvia apresentou cerca de 60 startups com os seus próprios stands, enquanto a delegação sérvia incluiu aproximadamente 300 inovadores, empresários e representantes de empresas. A importância deste setor para a Sérvia é ilustrada pelo facto de as nossas exportações de software terem ultrapassado 4,5 mil milhões de dólares.

Gostaria também de destacar o nosso trabalho de fortalecimento da rede de amizade sérvio-portuguesa e a sua utilização para desenvolver laços locais e empresariais. De 28 a 30 de maio de 2026, a Embaixada participou no primeiro encontro da Associação de Amizade Portugal-Sérvia em Torres Novas. O programa foi muito além do protocolo: além de uma receção com o Presidente da Câmara, uma sessão empresarial dedicada reuniu empresários sérvios e portugueses para apresentarem as suas empresas e explorarem oportunidades de cooperação direta.

No âmbito do programa empresarial, a Câmara de Comércio e Indústria da Sérvia fez uma apresentação abrangente do ambiente empresarial e de investimento da Sérvia, proporcionando às empresas portuguesas uma panorâmica das oportunidades de investimento na Sérvia e das possibilidades de estabelecer cooperação com parceiros sérvios. O programa incluiu também uma componente cultural que apresentou o património histórico e cultural da Sérvia.

Assim, o nosso foco tem sido muito prático: criar oportunidades para que empresas sérvias e portuguesas se encontrem diretamente, identifiquem parceiros e investidores e transformem contactos institucionais em cooperação empresarial concreta.

Qual o papel da cultura, do desporto e da música na aproximação entre os povos sérvio e português?

Diria que a cultura, o desporto e a música estão entre as formas mais eficazes de diplomacia, porque falam diretamente às pessoas, criando uma ligação humana imediata.

O desporto é uma ponte particularmente natural entre a Sérvia e Portugal. Ambos os países têm uma forte cultura desportiva e uma paixão genuína pela competição. Ambos os países têm atletas mundialmente conhecidos — Ronaldo e Đoković, que, dado o muito que contribuem para a visibilidade dos nossos países, estão entre os seus melhores diplomatas públicos. Embora a Sérvia não possa reivindicar muito sucesso no futebol, muitos dos nossos futebolistas jogaram em clubes portugueses e, dada a tradição internacionalmente reconhecida da Sérvia no basquetebol, no ténis e no polo aquático, encontro muitos adeptos dos nossos desportos aqui em Portugal.

A música é igualmente poderosa. As tradições musicais sérvias e as tradições portuguesas, como o fado, são distintas, mas ambas demonstram como a música pode expressar emoção e identidade, até memória coletiva. As diferenças culturais não separam necessariamente as pessoas; muito frequentemente, criam curiosidade e incentivam o diálogo, que também esperamos impulsionar ao trazer os nossos músicos a Portugal, onde seremos país convidado na edição de 2027 do festival “Terras Sem Sombra”. Talvez os portugueses encontrem então algo nas nossas tradições musicais de que gostem tanto como nós gostamos do fado na Sérvia!

Como vê a posição da Sérvia no atual panorama geopolítico europeu e mundial?

A Sérvia é um país europeu, geográfica, histórica e culturalmente, e, uma vez que o nosso futuro está estreitamente ligado ao futuro da Europa, a integração europeia continua a ser uma prioridade estratégica para a Sérvia e um quadro importante para o nosso desenvolvimento político e económico.

No entanto, não podemos ignorar o facto de vivermos num período de profunda transformação geopolítica. Muitas coisas estão em mutação: o ambiente de segurança na Europa mudou e as relações económicas estão a ser reavaliadas, enquanto questões como a segurança energética, a soberania tecnológica, a migração e a conectividade global adquiriram nova importância. É por isso que a Sérvia está a fazer o seu melhor para manter relações com uma ampla variedade de parceiros internacionais. No atual ambiente internacional, manter a comunicação e a capacidade de dialogar com diferentes atores é um importante instrumento diplomático.

Além disso, a estabilidade dos Balcãs Ocidentais continua a ser uma prioridade fundamental para a Sérvia. A nossa região tem uma história complicada e estamos plenamente conscientes de que a paz e a estabilidade não podem ser tomadas como garantidas, razão pela qual o diálogo e a cooperação regional são tão importantes para nós.

O nosso objetivo é proteger os interesses nacionais da Sérvia, permanecendo simultaneamente um parceiro europeu construtivo, contribuindo para a estabilidade regional e prosseguindo o nosso caminho europeu. Acreditamos que a diplomacia é particularmente importante precisamente quando as circunstâncias internacionais são difíceis.

Que desafios e oportunidades enfrenta a Sérvia na sua política externa, nomeadamente no equilíbrio entre as diferentes esferas de influência?

A Sérvia tem de navegar num ambiente de segurança europeu em rápida mudança, ao mesmo tempo que aborda as suas próprias prioridades nacionais e mantém relações com uma ampla variedade de parceiros internacionais, dada a complexidade do atual ambiente internacional.

Isto exige uma política externa centrada no diálogo e no pragmatismo, e baseada numa compreensão clara dos interesses nacionais. Acreditamos que manter a comunicação com diferentes parceiros é importante, particularmente num período em que as relações internacionais se estão a tornar cada vez mais fragmentadas.

Ao mesmo tempo, a integração europeia da Sérvia exige um trabalho substancial e contínuo. Não é simplesmente uma questão geopolítica; envolve reformas, reforço institucional, transformação económica e alinhamento com as normas europeias, que devem produzir resultados concretos em benefício de todos os nossos cidadãos.

É por isso que vejo o processo de integração europeia não apenas como um objetivo de política externa, mas também como uma oportunidade para a Sérvia continuar a modernizar as suas instituições e a sua economia.

O desafio é gerir diferentes relações de forma responsável, garantindo ao mesmo tempo que a Sérvia continua a ser um parceiro previsível e construtivo. Na minha opinião, a diplomacia consiste precisamente em criar espaço para a cooperação mesmo — ou especialmente — quando não é possível um acordo completo.

Como caracteriza a relação da Sérvia com os países lusófonos, em especial Cabo Verde?

Temos tradicionalmente mantido relações amistosas com o mundo lusófono, desempenhando Portugal um papel importante como ponte para a comunidade lusófona mais ampla.

A nossa relação com Cabo Verde é particularmente interessante e bastante emblemática das nossas relações com os países lusófonos de África. As relações diplomáticas foram estabelecidas em 1976 e têm as suas raízes nos contactos de longa data entre a Jugoslávia e os países do mundo em desenvolvimento, também no âmbito do Movimento dos Não-Alinhados. Há uma forte dimensão histórica na nossa relação, que vejo como uma excelente base a partir da qual olhar para o futuro e identificar novas áreas de cooperação prática.

Durante as minhas várias visitas a Cabo Verde, às quais regresso sempre com muito gosto, tive a oportunidade de me reunir com representantes de várias instituições e de constatar em primeira mão o potencial que existe em áreas como o turismo, a agricultura, a cultura, a educação e o desporto.

A educação pode ser uma ponte especialmente poderosa. Os programas de bolsas e académicos sérvios já ajudaram a criar ligações entre jovens dos nossos países. O programa “World in Serbia” trará vários novos estudantes à Sérvia este ano, do que me sinto muito orgulhosa. Estes contactos sobrevivem frequentemente durante décadas e criam redes que mais tarde se tornam valiosas nas relações diplomáticas, académicas e económicas.

Espero também que a nossa cooperação política e parlamentar se intensifique, na sequência de uma reunião entre os nossos ministros dos Negócios Estrangeiros durante a 81.ª sessão da AGNU, bem como da criação do primeiro grupo parlamentar de amizade com a Sérvia no parlamento de Cabo Verde.

Permita-me acrescentar que Portugal é bastante importante neste contexto, uma vez que o facto de estarmos aqui em Lisboa nos dá uma oportunidade valiosa de compreender melhor o espaço lusófono e de desenvolver ligações que se estendem para além da relação bilateral Sérvia-Portugal.

Que contributo pode a Sérvia dar para o reforço da cooperação regional nos Balcãs e na Europa do Sudeste?

A Sérvia tem tanto um interesse como uma responsabilidade de contribuir para a estabilidade e a cooperação regionais. A nossa posição geográfica significa que estamos estreitamente ligados a praticamente todos os grandes desenvolvimentos na Europa do Sudeste.

Sempre acreditei que a cooperação prática é a abordagem mais eficaz, e é exatamente essa a abordagem que a Sérvia tem praticado. Conectividade, infraestruturas, comércio, energia, turismo, educação e livre circulação de pessoas podem criar benefícios tangíveis e, ao mesmo tempo, construir confiança entre países que historicamente atravessaram períodos de tensão, mas que têm de cooperar se quiserem desenvolver-se.

A cooperação económica é particularmente importante. Quando empresas de países vizinhos trabalham em conjunto, quando as pessoas viajam, estudam e investem além-fronteiras, não só as sociedades se tornam cada vez mais interligadas, como as economias também beneficiam enormemente.

A Sérvia apoia também iniciativas destinadas a reforçar a cooperação económica regional e a aproximar os Balcãs Ocidentais do espaço económico europeu, e prova-o regularmente ao participar em numerosas plataformas e fóruns regionais, facilitando uma cooperação mais estreita.

Para mim, a cooperação regional não é uma alternativa à integração europeia. Pelo contrário, poder-se-ia dizer que Balcãs Ocidentais mais conectados e prósperos podem contribuir para uma Europa mais forte e mais estável.

A Expo 2027 em Belgrado está já a ser preparada. O que representa este evento para a Sérvia e para a região?

A EXPO 2027, que trará mais de 140 países de todo o mundo a Belgrado no próximo verão, é uma oportunidade excecional para a Sérvia e também para todos os Balcãs Ocidentais, pois colocará a nossa região no centro da atenção internacional.

O tema, “Jogar pela Humanidade – Desporto e Música para Todos”, é particularmente adequado devido ao tópico de que falámos nesta entrevista, sobre o desporto e a música serem linguagens universais, que unem pessoas de diferentes nacionalidades, gerações e origens culturais.

Para a Sérvia, a EXPO é também uma oportunidade de demonstrar a transformação que ocorreu no país e de apresentar as nossas capacidades em áreas como a inovação, a tecnologia, a cultura, as infraestruturas e as indústrias criativas. Por outro lado, não gostaria que a EXPO fosse vista simplesmente como uma exposição, uma vez que o seu verdadeiro valor reside nas relações que pode criar — entre países, empresas, universidades, instituições culturais e pessoas. Espero que o legado da EXPO 2027 seja medido não apenas em infraestruturas, mas também nas parcerias e amizades que dela surgirem.

Para a região, é também uma oportunidade importante de demonstrar que a Europa do Sudeste é capaz de acolher grandes eventos internacionais e de contribuir ativamente para conversas globais sobre o futuro.

Como pretende envolver Portugal e os parceiros lusófonos neste projeto da Expo 2027?

A EXPO, especialmente dado o seu tema, cria naturalmente oportunidades para Portugal e os países lusófonos, dada a sua forte tradição no desporto, na música e na criatividade cultural. Mas gostaria também de ver participação em áreas como a inovação, a educação, o turismo, a tecnologia e os negócios.

Portugal e os países lusófonos têm um contributo importante a dar à EXPO 2027, e espero muito que vejamos uma presença forte e visível deles em Belgrado. Não só isso — espero que as relações estabelecidas em Belgrado resultem em cooperação que continue para além da própria EXPO. Uma exposição pode durar três meses, mas uma parceria entre duas universidades, duas empresas ou duas instituições culturais pode durar décadas.

Por essa razão, vejo a Expo 2027 como uma oportunidade não só de convidar Portugal a Belgrado, mas também de aprofundar a relação entre a Sérvia, Portugal e a comunidade lusófona mais ampla.

Que mensagem gostaria de deixar a quem ainda não conhece Belgrado e que poderá visitar a cidade em 2027?

A minha mensagem seria muito simples: venham a Belgrado com a mente aberta e deixem que a cidade vos surpreenda, o que certamente acontecerá!

Belgrado é uma cidade com uma história muito longa, mas é também jovem e energética, em constante mudança. É uma cidade moldada e definida pelo encontro de diferentes culturas e civilizações, o que se reflete na sua arquitetura, gastronomia, música e vida quotidiana.

A confluência dos rios Sava e Danúbio é uma das caraterísticas mais belas da cidade, mas o que sei que os visitantes mais recordam, como os meus amigos do estrangeiro não se cansam de me dizer, é a sua atmosfera e a hospitalidade do seu povo.

A EXPO 2027 proporcionará uma excelente razão para visitar Belgrado, mas espero que os visitantes aproveitem a oportunidade para ir além dela e descobrir a própria Sérvia, o património cultural, a natureza, a comida, o vinho e a música pelos quais somos conhecidos.

Aos visitantes portugueses em particular, diria: venham descobrir um país europeu que talvez conheçam menos bem do que alguns dos vossos destinos tradicionais. Espero que cheguem como visitantes e partam como amigos e com vontade de regressar.

Foi distinguida como Melhor Embaixadora Acreditada em Portugal na segunda edição dos Prémios Raia Diplomática. Que significado tem para si este reconhecimento?

Recebi o reconhecimento com grande gratidão e um forte sentido de responsabilidade. Para mim, não é simplesmente um prémio pessoal. Vejo-o como um reconhecimento do trabalho que toda a equipa da Embaixada tem realizado para fortalecer a relação entre a Sérvia e Portugal.

O que torna o reconhecimento particularmente significativo para mim é que vem de uma instituição portuguesa e reflete uma valorização da importância das relações Sérvia-Portugal.

Vejo também esse reconhecimento como um incentivo para continuar. A diplomacia é uma profissão de longo prazo. Nem sempre se veem imediatamente os resultados do trabalho, mas cada conversa, cada novo contacto e cada iniciativa bem-sucedida podem contribuir para uma relação mais forte no futuro.

Que lições ou experiências da sua trajetória considera mais determinantes para o trabalho que desenvolve em Portugal?

Uma das lições mais importantes que a minha carreira diplomática me ensinou é que as relações internacionais dependem, em última análise, das pessoas.

É claro que a diplomacia envolve instituições, acordos, negociações e posições formais. Mas por trás de tudo isto estão indivíduos que têm de comunicar, compreender-se mutuamente e, em muitos casos, construir confiança ao longo de um longo período de tempo.

Aprendi também a importância de ouvir. A diplomacia não consiste simplesmente em explicar a posição do seu país; consiste igualmente em compreender as prioridades, sensibilidades e expectativas da outra parte.

Outra lição importante é a paciência. Algumas iniciativas diplomáticas levam anos a produzir resultados. Uma conversa que hoje parece relativamente pequena pode tornar-se a base para um projeto significativo no futuro.

Trabalhar em Portugal reforçou a minha convicção sobre a importância da diplomacia pessoal. Quanto mais viajo pelo país, me reúno com instituições portuguesas e contacto com diferentes comunidades, mais vejo quantas oportunidades existem para a Sérvia e Portugal trabalharem em conjunto.

A minha experiência ensinou-me que a boa diplomacia começa com respeito e curiosidade — respeito pelo outro país e curiosidade genuína pelo seu povo e pelas suas perspetivas.

O que mais a motiva no dia a dia da representação da Sérvia em Portugal?

Como acredito firmemente que a diplomacia é sobre pessoas, o que mais me motiva, dia após dia, é a possibilidade de criar ligações — ligações entre pessoas, instituições, empresas e culturas.

Representar o próprio país é uma grande responsabilidade, mas é também um privilégio. Cada dia oferece uma oportunidade de explicar melhor a Sérvia, corrigir equívocos onde existam e, igualmente importante, ouvir e compreender melhor Portugal.

A minha maior recompensa e, ao mesmo tempo, motivação adicional é quando vejo um contacto transformar-se em algo concreto: quando uma empresa começa a cooperar com um parceiro sérvio, quando estudantes descobrem oportunidades de estudar nos países um do outro, quando artistas colaboram, ou quando alguém que sabia muito pouco sobre a Sérvia fica genuinamente interessado em visitar. Podem parecer pequenas conquistas, mas a diplomacia é frequentemente construída precisamente a partir dessas pequenas conquistas e depende sempre de não descartar pequenos passos em direção a um objetivo maior.

Isso, em última análise, é o que me motiva: construir relações que possam durar mais do que qualquer mandato diplomático individual.A Embaixadora da Sérvia em Portugal aborda a cooperação, a geopolítica, os laços lusófonos, a Expo 2027 e o lado humano da diplomacia.

A Sérvia e Portugal podem situar-se em extremos opostos do continente europeu, mas, como explica a Embaixadora Ana Ilić nesta entrevista, estão unidos por uma longa amizade e por uma abertura partilhada a uma cooperação mais profunda. Quando os dois países se aproximam de 145 anos de relações diplomáticas, estabelecidas em 1882, a Embaixadora da Sérvia em Portugal reflete sobre uma relação marcada pelo respeito mútuo, por um diálogo político estável e por um significativo potencial por explorar.

Aborda as vias mais promissoras para a cooperação bilateral — das tecnologias de informação, inovação e energias renováveis à educação, turismo e cultura — e os esforços concretos da Embaixada para aproximar as empresas sérvias e portuguesas.

Analisa também a posição da Sérvia no atual panorama geopolítico europeu e global, o seu equilíbrio em matéria de política externa, os seus laços com países lusófonos como Cabo Verde e o seu contributo para a cooperação regional nos Balcãs e na Europa do Sudeste. Com os olhos postos na Expo 2027 em Belgrado, descreve o que o evento representa para a Sérvia e para a região e como Portugal e os parceiros lusófonos podem envolver-se.

Por fim, reflete sobre a distinção de Melhor Embaixadora Acreditada em Portugal nos Prémios Raia Diplomática 2025, as lições da sua carreira e o que a motiva diariamente no trabalho de representação da Sérvia em Portugal.

Como descreveria o atual estado das relações bilaterais entre a Sérvia e Portugal, mais de 140 anos após o estabelecimento de relações diplomáticas em 1882?

Temos muito orgulho em poder dizer que no próximo ano celebraremos 145 anos de relações diplomáticas entre a Sérvia e Portugal, dois países separados por quase todo o continente europeu, mas unidos por uma relação longa e amistosa. Ao longo destes mais de 140 anos, a Europa e o sistema internacional mudaram profundamente, tal como a Sérvia e Portugal, mas a relação entre os nossos dois países permaneceu caracterizada pelo respeito mútuo e por uma genuína vontade de manter o diálogo. Hoje, acredito que temos uma base muito sólida sobre a qual construir uma parceria ainda mais forte.

O nosso diálogo político é bom, marcado pelo respeito mútuo e pela compreensão entre os nossos dois países, apesar da diferença de posições que temos no que diz respeito ao Kosovo-Metohija.

Descreveria, por isso, as nossas relações bilaterais como positivas e estáveis, com contactos políticos muito bons e um potencial considerável de desenvolvimento futuro. Existe uma base importante de entendimento mútuo entre as nossas instituições, mas acredito que podemos tornar a nossa relação muito mais visível e dinâmica ao nível das nossas sociedades. É particularmente encorajador que exista um interesse genuíno de ambas as partes em descobrir novas áreas de cooperação. O meu papel como Embaixadora é ajudar a transformar esse interesse em iniciativas concretas e parcerias duradouras. Acredito que os nossos laços económicos, culturais, científicos e entre pessoas ainda têm considerável margem de crescimento.

Apesar da distância geográfica, a Sérvia e Portugal são, em muitos aspetos, mais próximos do que podem parecer à primeira vista. Ambas as sociedades atribuem grande importância à família, à cultura, à tradição, à hospitalidade e ao desporto, e estes valores humanos comuns constituem uma excelente base para uma maior aproximação.

Acredito também que a Sérvia e Portugal têm uma oportunidade particularmente interessante neste momento. A Sérvia é um país profundamente empenhado na Europa e no seu futuro, enquanto Portugal tem uma valiosa perspetiva europeia, atlântica e lusófona. A tarefa que temos pela frente não é, portanto, reinventar a relação, mas dar-lhe maior substância e visibilidade.

Que áreas de cooperação entre os dois países considera mais promissoras para aprofundar nos próximos anos?

Ocorrem-me várias áreas nas quais vejo um potencial muito significativo. Acima de tudo, a cooperação económica, particularmente em setores como as tecnologias de informação e a digitalização, nos quais a Sérvia tem registado resultados significativos, bem como a inovação e as energias renováveis, áreas em que podemos aprender com a rica experiência de Portugal, assim como a agricultura, o turismo, as infraestruturas e a indústria transformadora.

A Sérvia desenvolveu um forte ecossistema tecnológico e de inovação e dispõe de uma mão de obra altamente qualificada, enquanto Portugal acumulou considerável experiência em áreas como a transformação digital, as energias renováveis, o turismo e os serviços. Existem, portanto, oportunidades de cooperação não apenas baseadas no comércio, mas também no investimento, em empresas conjuntas e no intercâmbio de conhecimentos especializados.

Igualmente importantes são a ciência e a educação. Aquilo em que tenho trabalhado e que gostaria de ver mais é a cooperação direta entre universidades e instituições de investigação sérvias e portuguesas, bem como uma maior mobilidade de estudantes, investigadores e jovens profissionais. Tenho orgulho em dizer que o número de projetos em que cooperamos através de formatos da UE, como o Erasmus, está a crescer todos os anos. Os resultados destes intercâmbios e investimentos nem sempre são imediatamente visíveis, mas criam ligações duradouras entre sociedades. O mesmo se aplica ao curso de língua sérvia que criámos no ano passado na Universidade de Lisboa, do qual me sinto particularmente orgulhosa.

O turismo é outra área com considerável potencial. Mais portugueses deveriam ter a oportunidade de descobrir a Sérvia, e mais cidadãos sérvios deveriam descobrir Portugal para além dos destinos que já conhecem, Lisboa e Porto, para onde a nossa companhia aérea nacional voa várias vezes por semana.

Permita-me também destacar a cultura e as indústrias criativas. Uma vez que tanto a Sérvia como Portugal têm identidades culturais fortes, e precisamente porque as nossas tradições são diferentes, o intercâmbio cultural pode ser particularmente enriquecedor.

Em última análise, vejo a maior oportunidade em passar de uma cooperação ocasional para uma rede mais sistemática de parcerias.

Como tem trabalhado para aproximar as comunidades empresariais sérvia e portuguesa?

Tem havido várias iniciativas concretas da nossa Embaixada para ligar as comunidades empresariais sérvia e portuguesa.

Uma delas foi a participação da Embaixada no Millennium Portugal Exportador 2025, no Porto, um dos principais eventos portugueses dedicados às exportações e à internacionalização empresarial. A Sérvia teve o seu próprio stand e aproveitou a oportunidade para estabelecer contactos diretos com empresas portuguesas. Estes contactos já resultaram em manifestações concretas de interesse em encontrar parceiros sérvios em áreas como marketing, assuntos públicos e relações públicas, produção de media e turismo, comércio e sourcing, indústria vitivinícola, bem como infraestruturas hídricas e municipais. As propostas vão desde a identificação de fornecedores e distribuidores sérvios até oportunidades de importação-exportação, projetos conjuntos e cooperação tecnológica.

Uma plataforma muito importante para nós tem sido, ao longo do meu mandato, a Web Summit em Lisboa. Tendo estado presentes durante anos, em 2025 a Sérvia apresentou cerca de 60 startups com os seus próprios stands, enquanto a delegação sérvia incluiu aproximadamente 300 inovadores, empresários e representantes de empresas. A importância deste setor para a Sérvia é ilustrada pelo facto de as nossas exportações de software terem ultrapassado 4,5 mil milhões de dólares.

Gostaria também de destacar o nosso trabalho de fortalecimento da rede de amizade sérvio-portuguesa e a sua utilização para desenvolver laços locais e empresariais. De 28 a 30 de maio de 2026, a Embaixada participou no primeiro encontro da Associação de Amizade Portugal-Sérvia em Torres Novas. O programa foi muito além do protocolo: além de uma receção com o Presidente da Câmara, uma sessão empresarial dedicada reuniu empresários sérvios e portugueses para apresentarem as suas empresas e explorarem oportunidades de cooperação direta.

No âmbito do programa empresarial, a Câmara de Comércio e Indústria da Sérvia fez uma apresentação abrangente do ambiente empresarial e de investimento da Sérvia, proporcionando às empresas portuguesas uma panorâmica das oportunidades de investimento na Sérvia e das possibilidades de estabelecer cooperação com parceiros sérvios. O programa incluiu também uma componente cultural que apresentou o património histórico e cultural da Sérvia.

Assim, o nosso foco tem sido muito prático: criar oportunidades para que empresas sérvias e portuguesas se encontrem diretamente, identifiquem parceiros e investidores e transformem contactos institucionais em cooperação empresarial concreta.

Qual o papel da cultura, do desporto e da música na aproximação entre os povos sérvio e português?

Diria que a cultura, o desporto e a música estão entre as formas mais eficazes de diplomacia, porque falam diretamente às pessoas, criando uma ligação humana imediata.

O desporto é uma ponte particularmente natural entre a Sérvia e Portugal. Ambos os países têm uma forte cultura desportiva e uma paixão genuína pela competição. Ambos os países têm atletas mundialmente conhecidos — Ronaldo e Đoković, que, dado o muito que contribuem para a visibilidade dos nossos países, estão entre os seus melhores diplomatas públicos. Embora a Sérvia não possa reivindicar muito sucesso no futebol, muitos dos nossos futebolistas jogaram em clubes portugueses e, dada a tradição internacionalmente reconhecida da Sérvia no basquetebol, no ténis e no polo aquático, encontro muitos adeptos dos nossos desportos aqui em Portugal.

A música é igualmente poderosa. As tradições musicais sérvias e as tradições portuguesas, como o fado, são distintas, mas ambas demonstram como a música pode expressar emoção e identidade, até memória coletiva. As diferenças culturais não separam necessariamente as pessoas; muito frequentemente, criam curiosidade e incentivam o diálogo, que também esperamos impulsionar ao trazer os nossos músicos a Portugal, onde seremos país convidado na edição de 2027 do festival “Terras Sem Sombra”. Talvez os portugueses encontrem então algo nas nossas tradições musicais de que gostem tanto como nós gostamos do fado na Sérvia!

Como vê a posição da Sérvia no atual panorama geopolítico europeu e mundial?

A Sérvia é um país europeu, geográfica, histórica e culturalmente, e, uma vez que o nosso futuro está estreitamente ligado ao futuro da Europa, a integração europeia continua a ser uma prioridade estratégica para a Sérvia e um quadro importante para o nosso desenvolvimento político e económico.

No entanto, não podemos ignorar o facto de vivermos num período de profunda transformação geopolítica. Muitas coisas estão em mutação: o ambiente de segurança na Europa mudou e as relações económicas estão a ser reavaliadas, enquanto questões como a segurança energética, a soberania tecnológica, a migração e a conectividade global adquiriram nova importância. É por isso que a Sérvia está a fazer o seu melhor para manter relações com uma ampla variedade de parceiros internacionais. No atual ambiente internacional, manter a comunicação e a capacidade de dialogar com diferentes atores é um importante instrumento diplomático.

Além disso, a estabilidade dos Balcãs Ocidentais continua a ser uma prioridade fundamental para a Sérvia. A nossa região tem uma história complicada e estamos plenamente conscientes de que a paz e a estabilidade não podem ser tomadas como garantidas, razão pela qual o diálogo e a cooperação regional são tão importantes para nós.

O nosso objetivo é proteger os interesses nacionais da Sérvia, permanecendo simultaneamente um parceiro europeu construtivo, contribuindo para a estabilidade regional e prosseguindo o nosso caminho europeu. Acreditamos que a diplomacia é particularmente importante precisamente quando as circunstâncias internacionais são difíceis.

Que desafios e oportunidades enfrenta a Sérvia na sua política externa, nomeadamente no equilíbrio entre as diferentes esferas de influência?

A Sérvia tem de navegar num ambiente de segurança europeu em rápida mudança, ao mesmo tempo que aborda as suas próprias prioridades nacionais e mantém relações com uma ampla variedade de parceiros internacionais, dada a complexidade do atual ambiente internacional.

Isto exige uma política externa centrada no diálogo e no pragmatismo, e baseada numa compreensão clara dos interesses nacionais. Acreditamos que manter a comunicação com diferentes parceiros é importante, particularmente num período em que as relações internacionais se estão a tornar cada vez mais fragmentadas.

Ao mesmo tempo, a integração europeia da Sérvia exige um trabalho substancial e contínuo. Não é simplesmente uma questão geopolítica; envolve reformas, reforço institucional, transformação económica e alinhamento com as normas europeias, que devem produzir resultados concretos em benefício de todos os nossos cidadãos.

É por isso que vejo o processo de integração europeia não apenas como um objetivo de política externa, mas também como uma oportunidade para a Sérvia continuar a modernizar as suas instituições e a sua economia.

O desafio é gerir diferentes relações de forma responsável, garantindo ao mesmo tempo que a Sérvia continua a ser um parceiro previsível e construtivo. Na minha opinião, a diplomacia consiste precisamente em criar espaço para a cooperação mesmo — ou especialmente — quando não é possível um acordo completo.

Como caracteriza a relação da Sérvia com os países lusófonos, em especial Cabo Verde?

Temos tradicionalmente mantido relações amistosas com o mundo lusófono, desempenhando Portugal um papel importante como ponte para a comunidade lusófona mais ampla.

A nossa relação com Cabo Verde é particularmente interessante e bastante emblemática das nossas relações com os países lusófonos de África. As relações diplomáticas foram estabelecidas em 1976 e têm as suas raízes nos contactos de longa data entre a Jugoslávia e os países do mundo em desenvolvimento, também no âmbito do Movimento dos Não-Alinhados. Há uma forte dimensão histórica na nossa relação, que vejo como uma excelente base a partir da qual olhar para o futuro e identificar novas áreas de cooperação prática.

Durante as minhas várias visitas a Cabo Verde, às quais regresso sempre com muito gosto, tive a oportunidade de me reunir com representantes de várias instituições e de constatar em primeira mão o potencial que existe em áreas como o turismo, a agricultura, a cultura, a educação e o desporto.

A educação pode ser uma ponte especialmente poderosa. Os programas de bolsas e académicos sérvios já ajudaram a criar ligações entre jovens dos nossos países. O programa “World in Serbia” trará vários novos estudantes à Sérvia este ano, do que me sinto muito orgulhosa. Estes contactos sobrevivem frequentemente durante décadas e criam redes que mais tarde se tornam valiosas nas relações diplomáticas, académicas e económicas.

Espero também que a nossa cooperação política e parlamentar se intensifique, na sequência de uma reunião entre os nossos ministros dos Negócios Estrangeiros durante a 81.ª sessão da AGNU, bem como da criação do primeiro grupo parlamentar de amizade com a Sérvia no parlamento de Cabo Verde.

Permita-me acrescentar que Portugal é bastante importante neste contexto, uma vez que o facto de estarmos aqui em Lisboa nos dá uma oportunidade valiosa de compreender melhor o espaço lusófono e de desenvolver ligações que se estendem para além da relação bilateral Sérvia-Portugal.

Que contributo pode a Sérvia dar para o reforço da cooperação regional nos Balcãs e na Europa do Sudeste?

A Sérvia tem tanto um interesse como uma responsabilidade de contribuir para a estabilidade e a cooperação regionais. A nossa posição geográfica significa que estamos estreitamente ligados a praticamente todos os grandes desenvolvimentos na Europa do Sudeste.

Sempre acreditei que a cooperação prática é a abordagem mais eficaz, e é exatamente essa a abordagem que a Sérvia tem praticado. Conectividade, infraestruturas, comércio, energia, turismo, educação e livre circulação de pessoas podem criar benefícios tangíveis e, ao mesmo tempo, construir confiança entre países que historicamente atravessaram períodos de tensão, mas que têm de cooperar se quiserem desenvolver-se.

A cooperação económica é particularmente importante. Quando empresas de países vizinhos trabalham em conjunto, quando as pessoas viajam, estudam e investem além-fronteiras, não só as sociedades se tornam cada vez mais interligadas, como as economias também beneficiam enormemente.

A Sérvia apoia também iniciativas destinadas a reforçar a cooperação económica regional e a aproximar os Balcãs Ocidentais do espaço económico europeu, e prova-o regularmente ao participar em numerosas plataformas e fóruns regionais, facilitando uma cooperação mais estreita.

Para mim, a cooperação regional não é uma alternativa à integração europeia. Pelo contrário, poder-se-ia dizer que Balcãs Ocidentais mais conectados e prósperos podem contribuir para uma Europa mais forte e mais estável.

A Expo 2027 em Belgrado está já a ser preparada. O que representa este evento para a Sérvia e para a região?

A EXPO 2027, que trará mais de 140 países de todo o mundo a Belgrado no próximo verão, é uma oportunidade excecional para a Sérvia e também para todos os Balcãs Ocidentais, pois colocará a nossa região no centro da atenção internacional.

O tema, “Jogar pela Humanidade – Desporto e Música para Todos”, é particularmente adequado devido ao tópico de que falámos nesta entrevista, sobre o desporto e a música serem linguagens universais, que unem pessoas de diferentes nacionalidades, gerações e origens culturais.

Para a Sérvia, a EXPO é também uma oportunidade de demonstrar a transformação que ocorreu no país e de apresentar as nossas capacidades em áreas como a inovação, a tecnologia, a cultura, as infraestruturas e as indústrias criativas. Por outro lado, não gostaria que a EXPO fosse vista simplesmente como uma exposição, uma vez que o seu verdadeiro valor reside nas relações que pode criar — entre países, empresas, universidades, instituições culturais e pessoas. Espero que o legado da EXPO 2027 seja medido não apenas em infraestruturas, mas também nas parcerias e amizades que dela surgirem.

Para a região, é também uma oportunidade importante de demonstrar que a Europa do Sudeste é capaz de acolher grandes eventos internacionais e de contribuir ativamente para conversas globais sobre o futuro.

Como pretende envolver Portugal e os parceiros lusófonos neste projeto da Expo 2027?

A EXPO, especialmente dado o seu tema, cria naturalmente oportunidades para Portugal e os países lusófonos, dada a sua forte tradição no desporto, na música e na criatividade cultural. Mas gostaria também de ver participação em áreas como a inovação, a educação, o turismo, a tecnologia e os negócios.

Portugal e os países lusófonos têm um contributo importante a dar à EXPO 2027, e espero muito que vejamos uma presença forte e visível deles em Belgrado. Não só isso — espero que as relações estabelecidas em Belgrado resultem em cooperação que continue para além da própria EXPO. Uma exposição pode durar três meses, mas uma parceria entre duas universidades, duas empresas ou duas instituições culturais pode durar décadas.

Por essa razão, vejo a Expo 2027 como uma oportunidade não só de convidar Portugal a Belgrado, mas também de aprofundar a relação entre a Sérvia, Portugal e a comunidade lusófona mais ampla.

Que mensagem gostaria de deixar a quem ainda não conhece Belgrado e que poderá visitar a cidade em 2027?

A minha mensagem seria muito simples: venham a Belgrado com a mente aberta e deixem que a cidade vos surpreenda, o que certamente acontecerá!

Belgrado é uma cidade com uma história muito longa, mas é também jovem e energética, em constante mudança. É uma cidade moldada e definida pelo encontro de diferentes culturas e civilizações, o que se reflete na sua arquitetura, gastronomia, música e vida quotidiana.

A confluência dos rios Sava e Danúbio é uma das caraterísticas mais belas da cidade, mas o que sei que os visitantes mais recordam, como os meus amigos do estrangeiro não se cansam de me dizer, é a sua atmosfera e a hospitalidade do seu povo.

A EXPO 2027 proporcionará uma excelente razão para visitar Belgrado, mas espero que os visitantes aproveitem a oportunidade para ir além dela e descobrir a própria Sérvia, o património cultural, a natureza, a comida, o vinho e a música pelos quais somos conhecidos.

Aos visitantes portugueses em particular, diria: venham descobrir um país europeu que talvez conheçam menos bem do que alguns dos vossos destinos tradicionais. Espero que cheguem como visitantes e partam como amigos e com vontade de regressar.

Foi distinguida como Melhor Embaixadora Acreditada em Portugal na segunda edição dos Prémios Raia Diplomática. Que significado tem para si este reconhecimento?

Recebi o reconhecimento com grande gratidão e um forte sentido de responsabilidade. Para mim, não é simplesmente um prémio pessoal. Vejo-o como um reconhecimento do trabalho que toda a equipa da Embaixada tem realizado para fortalecer a relação entre a Sérvia e Portugal.

O que torna o reconhecimento particularmente significativo para mim é que vem de uma instituição portuguesa e reflete uma valorização da importância das relações Sérvia-Portugal.

Vejo também esse reconhecimento como um incentivo para continuar. A diplomacia é uma profissão de longo prazo. Nem sempre se veem imediatamente os resultados do trabalho, mas cada conversa, cada novo contacto e cada iniciativa bem-sucedida podem contribuir para uma relação mais forte no futuro.

Que lições ou experiências da sua trajetória considera mais determinantes para o trabalho que desenvolve em Portugal?

Uma das lições mais importantes que a minha carreira diplomática me ensinou é que as relações internacionais dependem, em última análise, das pessoas.

É claro que a diplomacia envolve instituições, acordos, negociações e posições formais. Mas por trás de tudo isto estão indivíduos que têm de comunicar, compreender-se mutuamente e, em muitos casos, construir confiança ao longo de um longo período de tempo.

Aprendi também a importância de ouvir. A diplomacia não consiste simplesmente em explicar a posição do seu país; consiste igualmente em compreender as prioridades, sensibilidades e expectativas da outra parte.

Outra lição importante é a paciência. Algumas iniciativas diplomáticas levam anos a produzir resultados. Uma conversa que hoje parece relativamente pequena pode tornar-se a base para um projeto significativo no futuro.

Trabalhar em Portugal reforçou a minha convicção sobre a importância da diplomacia pessoal. Quanto mais viajo pelo país, me reúno com instituições portuguesas e contacto com diferentes comunidades, mais vejo quantas oportunidades existem para a Sérvia e Portugal trabalharem em conjunto.

A minha experiência ensinou-me que a boa diplomacia começa com respeito e curiosidade — respeito pelo outro país e curiosidade genuína pelo seu povo e pelas suas perspetivas.

O que mais a motiva no dia a dia da representação da Sérvia em Portugal?

Como acredito firmemente que a diplomacia é sobre pessoas, o que mais me motiva, dia após dia, é a possibilidade de criar ligações — ligações entre pessoas, instituições, empresas e culturas.

Representar o próprio país é uma grande responsabilidade, mas é também um privilégio. Cada dia oferece uma oportunidade de explicar melhor a Sérvia, corrigir equívocos onde existam e, igualmente importante, ouvir e compreender melhor Portugal.

A minha maior recompensa e, ao mesmo tempo, motivação adicional é quando vejo um contacto transformar-se em algo concreto: quando uma empresa começa a cooperar com um parceiro sérvio, quando estudantes descobrem oportunidades de estudar nos países um do outro, quando artistas colaboram, ou quando alguém que sabia muito pouco sobre a Sérvia fica genuinamente interessado em visitar. Podem parecer pequenas conquistas, mas a diplomacia é frequentemente construída precisamente a partir dessas pequenas conquistas e depende sempre de não descartar pequenos passos em direção a um objetivo maior.

Isso, em última análise, é o que me motiva: construir relações que possam durar mais do que qualquer mandato diplomático individual.A Embaixadora da Sérvia em Portugal aborda a cooperação, a geopolítica, os laços lusófonos, a Expo 2027 e o lado humano da diplomacia.

A Sérvia e Portugal podem situar-se em extremos opostos do continente europeu, mas, como explica a Embaixadora Ana Ilić nesta entrevista, estão unidos por uma longa amizade e por uma abertura partilhada a uma cooperação mais profunda. Quando os dois países se aproximam de 145 anos de relações diplomáticas, estabelecidas em 1882, a Embaixadora da Sérvia em Portugal reflete sobre uma relação marcada pelo respeito mútuo, por um diálogo político estável e por um significativo potencial por explorar.

Aborda as vias mais promissoras para a cooperação bilateral — das tecnologias de informação, inovação e energias renováveis à educação, turismo e cultura — e os esforços concretos da Embaixada para aproximar as empresas sérvias e portuguesas.

Analisa também a posição da Sérvia no atual panorama geopolítico europeu e global, o seu equilíbrio em matéria de política externa, os seus laços com países lusófonos como Cabo Verde e o seu contributo para a cooperação regional nos Balcãs e na Europa do Sudeste. Com os olhos postos na Expo 2027 em Belgrado, descreve o que o evento representa para a Sérvia e para a região e como Portugal e os parceiros lusófonos podem envolver-se.

Por fim, reflete sobre a distinção de Melhor Embaixadora Acreditada em Portugal nos Prémios Raia Diplomática 2025, as lições da sua carreira e o que a motiva diariamente no trabalho de representação da Sérvia em Portugal.

Como descreveria o atual estado das relações bilaterais entre a Sérvia e Portugal, mais de 140 anos após o estabelecimento de relações diplomáticas em 1882?

Temos muito orgulho em poder dizer que no próximo ano celebraremos 145 anos de relações diplomáticas entre a Sérvia e Portugal, dois países separados por quase todo o continente europeu, mas unidos por uma relação longa e amistosa. Ao longo destes mais de 140 anos, a Europa e o sistema internacional mudaram profundamente, tal como a Sérvia e Portugal, mas a relação entre os nossos dois países permaneceu caracterizada pelo respeito mútuo e por uma genuína vontade de manter o diálogo. Hoje, acredito que temos uma base muito sólida sobre a qual construir uma parceria ainda mais forte.

O nosso diálogo político é bom, marcado pelo respeito mútuo e pela compreensão entre os nossos dois países, apesar da diferença de posições que temos no que diz respeito ao Kosovo-Metohija.

Descreveria, por isso, as nossas relações bilaterais como positivas e estáveis, com contactos políticos muito bons e um potencial considerável de desenvolvimento futuro. Existe uma base importante de entendimento mútuo entre as nossas instituições, mas acredito que podemos tornar a nossa relação muito mais visível e dinâmica ao nível das nossas sociedades. É particularmente encorajador que exista um interesse genuíno de ambas as partes em descobrir novas áreas de cooperação. O meu papel como Embaixadora é ajudar a transformar esse interesse em iniciativas concretas e parcerias duradouras. Acredito que os nossos laços económicos, culturais, científicos e entre pessoas ainda têm considerável margem de crescimento.

Apesar da distância geográfica, a Sérvia e Portugal são, em muitos aspetos, mais próximos do que podem parecer à primeira vista. Ambas as sociedades atribuem grande importância à família, à cultura, à tradição, à hospitalidade e ao desporto, e estes valores humanos comuns constituem uma excelente base para uma maior aproximação.

Acredito também que a Sérvia e Portugal têm uma oportunidade particularmente interessante neste momento. A Sérvia é um país profundamente empenhado na Europa e no seu futuro, enquanto Portugal tem uma valiosa perspetiva europeia, atlântica e lusófona. A tarefa que temos pela frente não é, portanto, reinventar a relação, mas dar-lhe maior substância e visibilidade.

Que áreas de cooperação entre os dois países considera mais promissoras para aprofundar nos próximos anos?

Ocorrem-me várias áreas nas quais vejo um potencial muito significativo. Acima de tudo, a cooperação económica, particularmente em setores como as tecnologias de informação e a digitalização, nos quais a Sérvia tem registado resultados significativos, bem como a inovação e as energias renováveis, áreas em que podemos aprender com a rica experiência de Portugal, assim como a agricultura, o turismo, as infraestruturas e a indústria transformadora.

A Sérvia desenvolveu um forte ecossistema tecnológico e de inovação e dispõe de uma mão de obra altamente qualificada, enquanto Portugal acumulou considerável experiência em áreas como a transformação digital, as energias renováveis, o turismo e os serviços. Existem, portanto, oportunidades de cooperação não apenas baseadas no comércio, mas também no investimento, em empresas conjuntas e no intercâmbio de conhecimentos especializados.

Igualmente importantes são a ciência e a educação. Aquilo em que tenho trabalhado e que gostaria de ver mais é a cooperação direta entre universidades e instituições de investigação sérvias e portuguesas, bem como uma maior mobilidade de estudantes, investigadores e jovens profissionais. Tenho orgulho em dizer que o número de projetos em que cooperamos através de formatos da UE, como o Erasmus, está a crescer todos os anos. Os resultados destes intercâmbios e investimentos nem sempre são imediatamente visíveis, mas criam ligações duradouras entre sociedades. O mesmo se aplica ao curso de língua sérvia que criámos no ano passado na Universidade de Lisboa, do qual me sinto particularmente orgulhosa.

O turismo é outra área com considerável potencial. Mais portugueses deveriam ter a oportunidade de descobrir a Sérvia, e mais cidadãos sérvios deveriam descobrir Portugal para além dos destinos que já conhecem, Lisboa e Porto, para onde a nossa companhia aérea nacional voa várias vezes por semana.

Permita-me também destacar a cultura e as indústrias criativas. Uma vez que tanto a Sérvia como Portugal têm identidades culturais fortes, e precisamente porque as nossas tradições são diferentes, o intercâmbio cultural pode ser particularmente enriquecedor.

Em última análise, vejo a maior oportunidade em passar de uma cooperação ocasional para uma rede mais sistemática de parcerias.

Como tem trabalhado para aproximar as comunidades empresariais sérvia e portuguesa?

Tem havido várias iniciativas concretas da nossa Embaixada para ligar as comunidades empresariais sérvia e portuguesa.

Uma delas foi a participação da Embaixada no Millennium Portugal Exportador 2025, no Porto, um dos principais eventos portugueses dedicados às exportações e à internacionalização empresarial. A Sérvia teve o seu próprio stand e aproveitou a oportunidade para estabelecer contactos diretos com empresas portuguesas. Estes contactos já resultaram em manifestações concretas de interesse em encontrar parceiros sérvios em áreas como marketing, assuntos públicos e relações públicas, produção de media e turismo, comércio e sourcing, indústria vitivinícola, bem como infraestruturas hídricas e municipais. As propostas vão desde a identificação de fornecedores e distribuidores sérvios até oportunidades de importação-exportação, projetos conjuntos e cooperação tecnológica.

Uma plataforma muito importante para nós tem sido, ao longo do meu mandato, a Web Summit em Lisboa. Tendo estado presentes durante anos, em 2025 a Sérvia apresentou cerca de 60 startups com os seus próprios stands, enquanto a delegação sérvia incluiu aproximadamente 300 inovadores, empresários e representantes de empresas. A importância deste setor para a Sérvia é ilustrada pelo facto de as nossas exportações de software terem ultrapassado 4,5 mil milhões de dólares.

Gostaria também de destacar o nosso trabalho de fortalecimento da rede de amizade sérvio-portuguesa e a sua utilização para desenvolver laços locais e empresariais. De 28 a 30 de maio de 2026, a Embaixada participou no primeiro encontro da Associação de Amizade Portugal-Sérvia em Torres Novas. O programa foi muito além do protocolo: além de uma receção com o Presidente da Câmara, uma sessão empresarial dedicada reuniu empresários sérvios e portugueses para apresentarem as suas empresas e explorarem oportunidades de cooperação direta.

No âmbito do programa empresarial, a Câmara de Comércio e Indústria da Sérvia fez uma apresentação abrangente do ambiente empresarial e de investimento da Sérvia, proporcionando às empresas portuguesas uma panorâmica das oportunidades de investimento na Sérvia e das possibilidades de estabelecer cooperação com parceiros sérvios. O programa incluiu também uma componente cultural que apresentou o património histórico e cultural da Sérvia.

Assim, o nosso foco tem sido muito prático: criar oportunidades para que empresas sérvias e portuguesas se encontrem diretamente, identifiquem parceiros e investidores e transformem contactos institucionais em cooperação empresarial concreta.

Qual o papel da cultura, do desporto e da música na aproximação entre os povos sérvio e português?

Diria que a cultura, o desporto e a música estão entre as formas mais eficazes de diplomacia, porque falam diretamente às pessoas, criando uma ligação humana imediata.

O desporto é uma ponte particularmente natural entre a Sérvia e Portugal. Ambos os países têm uma forte cultura desportiva e uma paixão genuína pela competição. Ambos os países têm atletas mundialmente conhecidos — Ronaldo e Đoković, que, dado o muito que contribuem para a visibilidade dos nossos países, estão entre os seus melhores diplomatas públicos. Embora a Sérvia não possa reivindicar muito sucesso no futebol, muitos dos nossos futebolistas jogaram em clubes portugueses e, dada a tradição internacionalmente reconhecida da Sérvia no basquetebol, no ténis e no polo aquático, encontro muitos adeptos dos nossos desportos aqui em Portugal.

A música é igualmente poderosa. As tradições musicais sérvias e as tradições portuguesas, como o fado, são distintas, mas ambas demonstram como a música pode expressar emoção e identidade, até memória coletiva. As diferenças culturais não separam necessariamente as pessoas; muito frequentemente, criam curiosidade e incentivam o diálogo, que também esperamos impulsionar ao trazer os nossos músicos a Portugal, onde seremos país convidado na edição de 2027 do festival “Terras Sem Sombra”. Talvez os portugueses encontrem então algo nas nossas tradições musicais de que gostem tanto como nós gostamos do fado na Sérvia!

Como vê a posição da Sérvia no atual panorama geopolítico europeu e mundial?

A Sérvia é um país europeu, geográfica, histórica e culturalmente, e, uma vez que o nosso futuro está estreitamente ligado ao futuro da Europa, a integração europeia continua a ser uma prioridade estratégica para a Sérvia e um quadro importante para o nosso desenvolvimento político e económico.

No entanto, não podemos ignorar o facto de vivermos num período de profunda transformação geopolítica. Muitas coisas estão em mutação: o ambiente de segurança na Europa mudou e as relações económicas estão a ser reavaliadas, enquanto questões como a segurança energética, a soberania tecnológica, a migração e a conectividade global adquiriram nova importância. É por isso que a Sérvia está a fazer o seu melhor para manter relações com uma ampla variedade de parceiros internacionais. No atual ambiente internacional, manter a comunicação e a capacidade de dialogar com diferentes atores é um importante instrumento diplomático.

Além disso, a estabilidade dos Balcãs Ocidentais continua a ser uma prioridade fundamental para a Sérvia. A nossa região tem uma história complicada e estamos plenamente conscientes de que a paz e a estabilidade não podem ser tomadas como garantidas, razão pela qual o diálogo e a cooperação regional são tão importantes para nós.

O nosso objetivo é proteger os interesses nacionais da Sérvia, permanecendo simultaneamente um parceiro europeu construtivo, contribuindo para a estabilidade regional e prosseguindo o nosso caminho europeu. Acreditamos que a diplomacia é particularmente importante precisamente quando as circunstâncias internacionais são difíceis.

Que desafios e oportunidades enfrenta a Sérvia na sua política externa, nomeadamente no equilíbrio entre as diferentes esferas de influência?

A Sérvia tem de navegar num ambiente de segurança europeu em rápida mudança, ao mesmo tempo que aborda as suas próprias prioridades nacionais e mantém relações com uma ampla variedade de parceiros internacionais, dada a complexidade do atual ambiente internacional.

Isto exige uma política externa centrada no diálogo e no pragmatismo, e baseada numa compreensão clara dos interesses nacionais. Acreditamos que manter a comunicação com diferentes parceiros é importante, particularmente num período em que as relações internacionais se estão a tornar cada vez mais fragmentadas.

Ao mesmo tempo, a integração europeia da Sérvia exige um trabalho substancial e contínuo. Não é simplesmente uma questão geopolítica; envolve reformas, reforço institucional, transformação económica e alinhamento com as normas europeias, que devem produzir resultados concretos em benefício de todos os nossos cidadãos.

É por isso que vejo o processo de integração europeia não apenas como um objetivo de política externa, mas também como uma oportunidade para a Sérvia continuar a modernizar as suas instituições e a sua economia.

O desafio é gerir diferentes relações de forma responsável, garantindo ao mesmo tempo que a Sérvia continua a ser um parceiro previsível e construtivo. Na minha opinião, a diplomacia consiste precisamente em criar espaço para a cooperação mesmo — ou especialmente — quando não é possível um acordo completo.

Como caracteriza a relação da Sérvia com os países lusófonos, em especial Cabo Verde?

Temos tradicionalmente mantido relações amistosas com o mundo lusófono, desempenhando Portugal um papel importante como ponte para a comunidade lusófona mais ampla.

A nossa relação com Cabo Verde é particularmente interessante e bastante emblemática das nossas relações com os países lusófonos de África. As relações diplomáticas foram estabelecidas em 1976 e têm as suas raízes nos contactos de longa data entre a Jugoslávia e os países do mundo em desenvolvimento, também no âmbito do Movimento dos Não-Alinhados. Há uma forte dimensão histórica na nossa relação, que vejo como uma excelente base a partir da qual olhar para o futuro e identificar novas áreas de cooperação prática.

Durante as minhas várias visitas a Cabo Verde, às quais regresso sempre com muito gosto, tive a oportunidade de me reunir com representantes de várias instituições e de constatar em primeira mão o potencial que existe em áreas como o turismo, a agricultura, a cultura, a educação e o desporto.

A educação pode ser uma ponte especialmente poderosa. Os programas de bolsas e académicos sérvios já ajudaram a criar ligações entre jovens dos nossos países. O programa “World in Serbia” trará vários novos estudantes à Sérvia este ano, do que me sinto muito orgulhosa. Estes contactos sobrevivem frequentemente durante décadas e criam redes que mais tarde se tornam valiosas nas relações diplomáticas, académicas e económicas.

Espero também que a nossa cooperação política e parlamentar se intensifique, na sequência de uma reunião entre os nossos ministros dos Negócios Estrangeiros durante a 81.ª sessão da AGNU, bem como da criação do primeiro grupo parlamentar de amizade com a Sérvia no parlamento de Cabo Verde.

Permita-me acrescentar que Portugal é bastante importante neste contexto, uma vez que o facto de estarmos aqui em Lisboa nos dá uma oportunidade valiosa de compreender melhor o espaço lusófono e de desenvolver ligações que se estendem para além da relação bilateral Sérvia-Portugal.

Que contributo pode a Sérvia dar para o reforço da cooperação regional nos Balcãs e na Europa do Sudeste?

A Sérvia tem tanto um interesse como uma responsabilidade de contribuir para a estabilidade e a cooperação regionais. A nossa posição geográfica significa que estamos estreitamente ligados a praticamente todos os grandes desenvolvimentos na Europa do Sudeste.

Sempre acreditei que a cooperação prática é a abordagem mais eficaz, e é exatamente essa a abordagem que a Sérvia tem praticado. Conectividade, infraestruturas, comércio, energia, turismo, educação e livre circulação de pessoas podem criar benefícios tangíveis e, ao mesmo tempo, construir confiança entre países que historicamente atravessaram períodos de tensão, mas que têm de cooperar se quiserem desenvolver-se.

A cooperação económica é particularmente importante. Quando empresas de países vizinhos trabalham em conjunto, quando as pessoas viajam, estudam e investem além-fronteiras, não só as sociedades se tornam cada vez mais interligadas, como as economias também beneficiam enormemente.

A Sérvia apoia também iniciativas destinadas a reforçar a cooperação económica regional e a aproximar os Balcãs Ocidentais do espaço económico europeu, e prova-o regularmente ao participar em numerosas plataformas e fóruns regionais, facilitando uma cooperação mais estreita.

Para mim, a cooperação regional não é uma alternativa à integração europeia. Pelo contrário, poder-se-ia dizer que Balcãs Ocidentais mais conectados e prósperos podem contribuir para uma Europa mais forte e mais estável.

A Expo 2027 em Belgrado está já a ser preparada. O que representa este evento para a Sérvia e para a região?

A EXPO 2027, que trará mais de 140 países de todo o mundo a Belgrado no próximo verão, é uma oportunidade excecional para a Sérvia e também para todos os Balcãs Ocidentais, pois colocará a nossa região no centro da atenção internacional.

O tema, “Jogar pela Humanidade – Desporto e Música para Todos”, é particularmente adequado devido ao tópico de que falámos nesta entrevista, sobre o desporto e a música serem linguagens universais, que unem pessoas de diferentes nacionalidades, gerações e origens culturais.

Para a Sérvia, a EXPO é também uma oportunidade de demonstrar a transformação que ocorreu no país e de apresentar as nossas capacidades em áreas como a inovação, a tecnologia, a cultura, as infraestruturas e as indústrias criativas. Por outro lado, não gostaria que a EXPO fosse vista simplesmente como uma exposição, uma vez que o seu verdadeiro valor reside nas relações que pode criar — entre países, empresas, universidades, instituições culturais e pessoas. Espero que o legado da EXPO 2027 seja medido não apenas em infraestruturas, mas também nas parcerias e amizades que dela surgirem.

Para a região, é também uma oportunidade importante de demonstrar que a Europa do Sudeste é capaz de acolher grandes eventos internacionais e de contribuir ativamente para conversas globais sobre o futuro.

Como pretende envolver Portugal e os parceiros lusófonos neste projeto da Expo 2027?

A EXPO, especialmente dado o seu tema, cria naturalmente oportunidades para Portugal e os países lusófonos, dada a sua forte tradição no desporto, na música e na criatividade cultural. Mas gostaria também de ver participação em áreas como a inovação, a educação, o turismo, a tecnologia e os negócios.

Portugal e os países lusófonos têm um contributo importante a dar à EXPO 2027, e espero muito que vejamos uma presença forte e visível deles em Belgrado. Não só isso — espero que as relações estabelecidas em Belgrado resultem em cooperação que continue para além da própria EXPO. Uma exposição pode durar três meses, mas uma parceria entre duas universidades, duas empresas ou duas instituições culturais pode durar décadas.

Por essa razão, vejo a Expo 2027 como uma oportunidade não só de convidar Portugal a Belgrado, mas também de aprofundar a relação entre a Sérvia, Portugal e a comunidade lusófona mais ampla.

Que mensagem gostaria de deixar a quem ainda não conhece Belgrado e que poderá visitar a cidade em 2027?

A minha mensagem seria muito simples: venham a Belgrado com a mente aberta e deixem que a cidade vos surpreenda, o que certamente acontecerá!

Belgrado é uma cidade com uma história muito longa, mas é também jovem e energética, em constante mudança. É uma cidade moldada e definida pelo encontro de diferentes culturas e civilizações, o que se reflete na sua arquitetura, gastronomia, música e vida quotidiana.

A confluência dos rios Sava e Danúbio é uma das caraterísticas mais belas da cidade, mas o que sei que os visitantes mais recordam, como os meus amigos do estrangeiro não se cansam de me dizer, é a sua atmosfera e a hospitalidade do seu povo.

A EXPO 2027 proporcionará uma excelente razão para visitar Belgrado, mas espero que os visitantes aproveitem a oportunidade para ir além dela e descobrir a própria Sérvia, o património cultural, a natureza, a comida, o vinho e a música pelos quais somos conhecidos.

Aos visitantes portugueses em particular, diria: venham descobrir um país europeu que talvez conheçam menos bem do que alguns dos vossos destinos tradicionais. Espero que cheguem como visitantes e partam como amigos e com vontade de regressar.

Foi distinguida como Melhor Embaixadora Acreditada em Portugal na segunda edição dos Prémios Raia Diplomática. Que significado tem para si este reconhecimento?

Recebi o reconhecimento com grande gratidão e um forte sentido de responsabilidade. Para mim, não é simplesmente um prémio pessoal. Vejo-o como um reconhecimento do trabalho que toda a equipa da Embaixada tem realizado para fortalecer a relação entre a Sérvia e Portugal.

O que torna o reconhecimento particularmente significativo para mim é que vem de uma instituição portuguesa e reflete uma valorização da importância das relações Sérvia-Portugal.

Vejo também esse reconhecimento como um incentivo para continuar. A diplomacia é uma profissão de longo prazo. Nem sempre se veem imediatamente os resultados do trabalho, mas cada conversa, cada novo contacto e cada iniciativa bem-sucedida podem contribuir para uma relação mais forte no futuro.

Que lições ou experiências da sua trajetória considera mais determinantes para o trabalho que desenvolve em Portugal?

Uma das lições mais importantes que a minha carreira diplomática me ensinou é que as relações internacionais dependem, em última análise, das pessoas.

É claro que a diplomacia envolve instituições, acordos, negociações e posições formais. Mas por trás de tudo isto estão indivíduos que têm de comunicar, compreender-se mutuamente e, em muitos casos, construir confiança ao longo de um longo período de tempo.

Aprendi também a importância de ouvir. A diplomacia não consiste simplesmente em explicar a posição do seu país; consiste igualmente em compreender as prioridades, sensibilidades e expectativas da outra parte.

Outra lição importante é a paciência. Algumas iniciativas diplomáticas levam anos a produzir resultados. Uma conversa que hoje parece relativamente pequena pode tornar-se a base para um projeto significativo no futuro.

Trabalhar em Portugal reforçou a minha convicção sobre a importância da diplomacia pessoal. Quanto mais viajo pelo país, me reúno com instituições portuguesas e contacto com diferentes comunidades, mais vejo quantas oportunidades existem para a Sérvia e Portugal trabalharem em conjunto.

A minha experiência ensinou-me que a boa diplomacia começa com respeito e curiosidade — respeito pelo outro país e curiosidade genuína pelo seu povo e pelas suas perspetivas.

O que mais a motiva no dia a dia da representação da Sérvia em Portugal?

Como acredito firmemente que a diplomacia é sobre pessoas, o que mais me motiva, dia após dia, é a possibilidade de criar ligações — ligações entre pessoas, instituições, empresas e culturas.

Representar o próprio país é uma grande responsabilidade, mas é também um privilégio. Cada dia oferece uma oportunidade de explicar melhor a Sérvia, corrigir equívocos onde existam e, igualmente importante, ouvir e compreender melhor Portugal.

A minha maior recompensa e, ao mesmo tempo, motivação adicional é quando vejo um contacto transformar-se em algo concreto: quando uma empresa começa a cooperar com um parceiro sérvio, quando estudantes descobrem oportunidades de estudar nos países um do outro, quando artistas colaboram, ou quando alguém que sabia muito pouco sobre a Sérvia fica genuinamente interessado em visitar. Podem parecer pequenas conquistas, mas a diplomacia é frequentemente construída precisamente a partir dessas pequenas conquistas e depende sempre de não descartar pequenos passos em direção a um objetivo maior.

Isso, em última análise, é o que me motiva: construir relações que possam durar mais do que qualquer mandato diplomático individual.A Embaixadora da Sérvia em Portugal aborda a cooperação, a geopolítica, os laços lusófonos, a Expo 2027 e o lado humano da diplomacia.

A Sérvia e Portugal podem situar-se em extremos opostos do continente europeu, mas, como explica a Embaixadora Ana Ilić nesta entrevista, estão unidos por uma longa amizade e por uma abertura partilhada a uma cooperação mais profunda. Quando os dois países se aproximam de 145 anos de relações diplomáticas, estabelecidas em 1882, a Embaixadora da Sérvia em Portugal reflete sobre uma relação marcada pelo respeito mútuo, por um diálogo político estável e por um significativo potencial por explorar.

Aborda as vias mais promissoras para a cooperação bilateral — das tecnologias de informação, inovação e energias renováveis à educação, turismo e cultura — e os esforços concretos da Embaixada para aproximar as empresas sérvias e portuguesas.

Analisa também a posição da Sérvia no atual panorama geopolítico europeu e global, o seu equilíbrio em matéria de política externa, os seus laços com países lusófonos como Cabo Verde e o seu contributo para a cooperação regional nos Balcãs e na Europa do Sudeste. Com os olhos postos na Expo 2027 em Belgrado, descreve o que o evento representa para a Sérvia e para a região e como Portugal e os parceiros lusófonos podem envolver-se.

Por fim, reflete sobre a distinção de Melhor Embaixadora Acreditada em Portugal nos Prémios Raia Diplomática 2025, as lições da sua carreira e o que a motiva diariamente no trabalho de representação da Sérvia em Portugal.

Como descreveria o atual estado das relações bilaterais entre a Sérvia e Portugal, mais de 140 anos após o estabelecimento de relações diplomáticas em 1882?

Temos muito orgulho em poder dizer que no próximo ano celebraremos 145 anos de relações diplomáticas entre a Sérvia e Portugal, dois países separados por quase todo o continente europeu, mas unidos por uma relação longa e amistosa. Ao longo destes mais de 140 anos, a Europa e o sistema internacional mudaram profundamente, tal como a Sérvia e Portugal, mas a relação entre os nossos dois países permaneceu caracterizada pelo respeito mútuo e por uma genuína vontade de manter o diálogo. Hoje, acredito que temos uma base muito sólida sobre a qual construir uma parceria ainda mais forte.

O nosso diálogo político é bom, marcado pelo respeito mútuo e pela compreensão entre os nossos dois países, apesar da diferença de posições que temos no que diz respeito ao Kosovo-Metohija.

Descreveria, por isso, as nossas relações bilaterais como positivas e estáveis, com contactos políticos muito bons e um potencial considerável de desenvolvimento futuro. Existe uma base importante de entendimento mútuo entre as nossas instituições, mas acredito que podemos tornar a nossa relação muito mais visível e dinâmica ao nível das nossas sociedades. É particularmente encorajador que exista um interesse genuíno de ambas as partes em descobrir novas áreas de cooperação. O meu papel como Embaixadora é ajudar a transformar esse interesse em iniciativas concretas e parcerias duradouras. Acredito que os nossos laços económicos, culturais, científicos e entre pessoas ainda têm considerável margem de crescimento.

Apesar da distância geográfica, a Sérvia e Portugal são, em muitos aspetos, mais próximos do que podem parecer à primeira vista. Ambas as sociedades atribuem grande importância à família, à cultura, à tradição, à hospitalidade e ao desporto, e estes valores humanos comuns constituem uma excelente base para uma maior aproximação.

Acredito também que a Sérvia e Portugal têm uma oportunidade particularmente interessante neste momento. A Sérvia é um país profundamente empenhado na Europa e no seu futuro, enquanto Portugal tem uma valiosa perspetiva europeia, atlântica e lusófona. A tarefa que temos pela frente não é, portanto, reinventar a relação, mas dar-lhe maior substância e visibilidade.

Que áreas de cooperação entre os dois países considera mais promissoras para aprofundar nos próximos anos?

Ocorrem-me várias áreas nas quais vejo um potencial muito significativo. Acima de tudo, a cooperação económica, particularmente em setores como as tecnologias de informação e a digitalização, nos quais a Sérvia tem registado resultados significativos, bem como a inovação e as energias renováveis, áreas em que podemos aprender com a rica experiência de Portugal, assim como a agricultura, o turismo, as infraestruturas e a indústria transformadora.

A Sérvia desenvolveu um forte ecossistema tecnológico e de inovação e dispõe de uma mão de obra altamente qualificada, enquanto Portugal acumulou considerável experiência em áreas como a transformação digital, as energias renováveis, o turismo e os serviços. Existem, portanto, oportunidades de cooperação não apenas baseadas no comércio, mas também no investimento, em empresas conjuntas e no intercâmbio de conhecimentos especializados.

Igualmente importantes são a ciência e a educação. Aquilo em que tenho trabalhado e que gostaria de ver mais é a cooperação direta entre universidades e instituições de investigação sérvias e portuguesas, bem como uma maior mobilidade de estudantes, investigadores e jovens profissionais. Tenho orgulho em dizer que o número de projetos em que cooperamos através de formatos da UE, como o Erasmus, está a crescer todos os anos. Os resultados destes intercâmbios e investimentos nem sempre são imediatamente visíveis, mas criam ligações duradouras entre sociedades. O mesmo se aplica ao curso de língua sérvia que criámos no ano passado na Universidade de Lisboa, do qual me sinto particularmente orgulhosa.

O turismo é outra área com considerável potencial. Mais portugueses deveriam ter a oportunidade de descobrir a Sérvia, e mais cidadãos sérvios deveriam descobrir Portugal para além dos destinos que já conhecem, Lisboa e Porto, para onde a nossa companhia aérea nacional voa várias vezes por semana.

Permita-me também destacar a cultura e as indústrias criativas. Uma vez que tanto a Sérvia como Portugal têm identidades culturais fortes, e precisamente porque as nossas tradições são diferentes, o intercâmbio cultural pode ser particularmente enriquecedor.

Em última análise, vejo a maior oportunidade em passar de uma cooperação ocasional para uma rede mais sistemática de parcerias.

Como tem trabalhado para aproximar as comunidades empresariais sérvia e portuguesa?

Tem havido várias iniciativas concretas da nossa Embaixada para ligar as comunidades empresariais sérvia e portuguesa.

Uma delas foi a participação da Embaixada no Millennium Portugal Exportador 2025, no Porto, um dos principais eventos portugueses dedicados às exportações e à internacionalização empresarial. A Sérvia teve o seu próprio stand e aproveitou a oportunidade para estabelecer contactos diretos com empresas portuguesas. Estes contactos já resultaram em manifestações concretas de interesse em encontrar parceiros sérvios em áreas como marketing, assuntos públicos e relações públicas, produção de media e turismo, comércio e sourcing, indústria vitivinícola, bem como infraestruturas hídricas e municipais. As propostas vão desde a identificação de fornecedores e distribuidores sérvios até oportunidades de importação-exportação, projetos conjuntos e cooperação tecnológica.

Uma plataforma muito importante para nós tem sido, ao longo do meu mandato, a Web Summit em Lisboa. Tendo estado presentes durante anos, em 2025 a Sérvia apresentou cerca de 60 startups com os seus próprios stands, enquanto a delegação sérvia incluiu aproximadamente 300 inovadores, empresários e representantes de empresas. A importância deste setor para a Sérvia é ilustrada pelo facto de as nossas exportações de software terem ultrapassado 4,5 mil milhões de dólares.

Gostaria também de destacar o nosso trabalho de fortalecimento da rede de amizade sérvio-portuguesa e a sua utilização para desenvolver laços locais e empresariais. De 28 a 30 de maio de 2026, a Embaixada participou no primeiro encontro da Associação de Amizade Portugal-Sérvia em Torres Novas. O programa foi muito além do protocolo: além de uma receção com o Presidente da Câmara, uma sessão empresarial dedicada reuniu empresários sérvios e portugueses para apresentarem as suas empresas e explorarem oportunidades de cooperação direta.

No âmbito do programa empresarial, a Câmara de Comércio e Indústria da Sérvia fez uma apresentação abrangente do ambiente empresarial e de investimento da Sérvia, proporcionando às empresas portuguesas uma panorâmica das oportunidades de investimento na Sérvia e das possibilidades de estabelecer cooperação com parceiros sérvios. O programa incluiu também uma componente cultural que apresentou o património histórico e cultural da Sérvia.

Assim, o nosso foco tem sido muito prático: criar oportunidades para que empresas sérvias e portuguesas se encontrem diretamente, identifiquem parceiros e investidores e transformem contactos institucionais em cooperação empresarial concreta.

Qual o papel da cultura, do desporto e da música na aproximação entre os povos sérvio e português?

Diria que a cultura, o desporto e a música estão entre as formas mais eficazes de diplomacia, porque falam diretamente às pessoas, criando uma ligação humana imediata.

O desporto é uma ponte particularmente natural entre a Sérvia e Portugal. Ambos os países têm uma forte cultura desportiva e uma paixão genuína pela competição. Ambos os países têm atletas mundialmente conhecidos — Ronaldo e Đoković, que, dado o muito que contribuem para a visibilidade dos nossos países, estão entre os seus melhores diplomatas públicos. Embora a Sérvia não possa reivindicar muito sucesso no futebol, muitos dos nossos futebolistas jogaram em clubes portugueses e, dada a tradição internacionalmente reconhecida da Sérvia no basquetebol, no ténis e no polo aquático, encontro muitos adeptos dos nossos desportos aqui em Portugal.

A música é igualmente poderosa. As tradições musicais sérvias e as tradições portuguesas, como o fado, são distintas, mas ambas demonstram como a música pode expressar emoção e identidade, até memória coletiva. As diferenças culturais não separam necessariamente as pessoas; muito frequentemente, criam curiosidade e incentivam o diálogo, que também esperamos impulsionar ao trazer os nossos músicos a Portugal, onde seremos país convidado na edição de 2027 do festival “Terras Sem Sombra”. Talvez os portugueses encontrem então algo nas nossas tradições musicais de que gostem tanto como nós gostamos do fado na Sérvia!

Como vê a posição da Sérvia no atual panorama geopolítico europeu e mundial?

A Sérvia é um país europeu, geográfica, histórica e culturalmente, e, uma vez que o nosso futuro está estreitamente ligado ao futuro da Europa, a integração europeia continua a ser uma prioridade estratégica para a Sérvia e um quadro importante para o nosso desenvolvimento político e económico.

No entanto, não podemos ignorar o facto de vivermos num período de profunda transformação geopolítica. Muitas coisas estão em mutação: o ambiente de segurança na Europa mudou e as relações económicas estão a ser reavaliadas, enquanto questões como a segurança energética, a soberania tecnológica, a migração e a conectividade global adquiriram nova importância. É por isso que a Sérvia está a fazer o seu melhor para manter relações com uma ampla variedade de parceiros internacionais. No atual ambiente internacional, manter a comunicação e a capacidade de dialogar com diferentes atores é um importante instrumento diplomático.

Além disso, a estabilidade dos Balcãs Ocidentais continua a ser uma prioridade fundamental para a Sérvia. A nossa região tem uma história complicada e estamos plenamente conscientes de que a paz e a estabilidade não podem ser tomadas como garantidas, razão pela qual o diálogo e a cooperação regional são tão importantes para nós.

O nosso objetivo é proteger os interesses nacionais da Sérvia, permanecendo simultaneamente um parceiro europeu construtivo, contribuindo para a estabilidade regional e prosseguindo o nosso caminho europeu. Acreditamos que a diplomacia é particularmente importante precisamente quando as circunstâncias internacionais são difíceis.

Que desafios e oportunidades enfrenta a Sérvia na sua política externa, nomeadamente no equilíbrio entre as diferentes esferas de influência?

A Sérvia tem de navegar num ambiente de segurança europeu em rápida mudança, ao mesmo tempo que aborda as suas próprias prioridades nacionais e mantém relações com uma ampla variedade de parceiros internacionais, dada a complexidade do atual ambiente internacional.

Isto exige uma política externa centrada no diálogo e no pragmatismo, e baseada numa compreensão clara dos interesses nacionais. Acreditamos que manter a comunicação com diferentes parceiros é importante, particularmente num período em que as relações internacionais se estão a tornar cada vez mais fragmentadas.

Ao mesmo tempo, a integração europeia da Sérvia exige um trabalho substancial e contínuo. Não é simplesmente uma questão geopolítica; envolve reformas, reforço institucional, transformação económica e alinhamento com as normas europeias, que devem produzir resultados concretos em benefício de todos os nossos cidadãos.

É por isso que vejo o processo de integração europeia não apenas como um objetivo de política externa, mas também como uma oportunidade para a Sérvia continuar a modernizar as suas instituições e a sua economia.

O desafio é gerir diferentes relações de forma responsável, garantindo ao mesmo tempo que a Sérvia continua a ser um parceiro previsível e construtivo. Na minha opinião, a diplomacia consiste precisamente em criar espaço para a cooperação mesmo — ou especialmente — quando não é possível um acordo completo.

Como caracteriza a relação da Sérvia com os países lusófonos, em especial Cabo Verde?

Temos tradicionalmente mantido relações amistosas com o mundo lusófono, desempenhando Portugal um papel importante como ponte para a comunidade lusófona mais ampla.

A nossa relação com Cabo Verde é particularmente interessante e bastante emblemática das nossas relações com os países lusófonos de África. As relações diplomáticas foram estabelecidas em 1976 e têm as suas raízes nos contactos de longa data entre a Jugoslávia e os países do mundo em desenvolvimento, também no âmbito do Movimento dos Não-Alinhados. Há uma forte dimensão histórica na nossa relação, que vejo como uma excelente base a partir da qual olhar para o futuro e identificar novas áreas de cooperação prática.

Durante as minhas várias visitas a Cabo Verde, às quais regresso sempre com muito gosto, tive a oportunidade de me reunir com representantes de várias instituições e de constatar em primeira mão o potencial que existe em áreas como o turismo, a agricultura, a cultura, a educação e o desporto.

A educação pode ser uma ponte especialmente poderosa. Os programas de bolsas e académicos sérvios já ajudaram a criar ligações entre jovens dos nossos países. O programa “World in Serbia” trará vários novos estudantes à Sérvia este ano, do que me sinto muito orgulhosa. Estes contactos sobrevivem frequentemente durante décadas e criam redes que mais tarde se tornam valiosas nas relações diplomáticas, académicas e económicas.

Espero também que a nossa cooperação política e parlamentar se intensifique, na sequência de uma reunião entre os nossos ministros dos Negócios Estrangeiros durante a 81.ª sessão da AGNU, bem como da criação do primeiro grupo parlamentar de amizade com a Sérvia no parlamento de Cabo Verde.

Permita-me acrescentar que Portugal é bastante importante neste contexto, uma vez que o facto de estarmos aqui em Lisboa nos dá uma oportunidade valiosa de compreender melhor o espaço lusófono e de desenvolver ligações que se estendem para além da relação bilateral Sérvia-Portugal.

Que contributo pode a Sérvia dar para o reforço da cooperação regional nos Balcãs e na Europa do Sudeste?

A Sérvia tem tanto um interesse como uma responsabilidade de contribuir para a estabilidade e a cooperação regionais. A nossa posição geográfica significa que estamos estreitamente ligados a praticamente todos os grandes desenvolvimentos na Europa do Sudeste.

Sempre acreditei que a cooperação prática é a abordagem mais eficaz, e é exatamente essa a abordagem que a Sérvia tem praticado. Conectividade, infraestruturas, comércio, energia, turismo, educação e livre circulação de pessoas podem criar benefícios tangíveis e, ao mesmo tempo, construir confiança entre países que historicamente atravessaram períodos de tensão, mas que têm de cooperar se quiserem desenvolver-se.

A cooperação económica é particularmente importante. Quando empresas de países vizinhos trabalham em conjunto, quando as pessoas viajam, estudam e investem além-fronteiras, não só as sociedades se tornam cada vez mais interligadas, como as economias também beneficiam enormemente.

A Sérvia apoia também iniciativas destinadas a reforçar a cooperação económica regional e a aproximar os Balcãs Ocidentais do espaço económico europeu, e prova-o regularmente ao participar em numerosas plataformas e fóruns regionais, facilitando uma cooperação mais estreita.

Para mim, a cooperação regional não é uma alternativa à integração europeia. Pelo contrário, poder-se-ia dizer que Balcãs Ocidentais mais conectados e prósperos podem contribuir para uma Europa mais forte e mais estável.

A Expo 2027 em Belgrado está já a ser preparada. O que representa este evento para a Sérvia e para a região?

A EXPO 2027, que trará mais de 140 países de todo o mundo a Belgrado no próximo verão, é uma oportunidade excecional para a Sérvia e também para todos os Balcãs Ocidentais, pois colocará a nossa região no centro da atenção internacional.

O tema, “Jogar pela Humanidade – Desporto e Música para Todos”, é particularmente adequado devido ao tópico de que falámos nesta entrevista, sobre o desporto e a música serem linguagens universais, que unem pessoas de diferentes nacionalidades, gerações e origens culturais.

Para a Sérvia, a EXPO é também uma oportunidade de demonstrar a transformação que ocorreu no país e de apresentar as nossas capacidades em áreas como a inovação, a tecnologia, a cultura, as infraestruturas e as indústrias criativas. Por outro lado, não gostaria que a EXPO fosse vista simplesmente como uma exposição, uma vez que o seu verdadeiro valor reside nas relações que pode criar — entre países, empresas, universidades, instituições culturais e pessoas. Espero que o legado da EXPO 2027 seja medido não apenas em infraestruturas, mas também nas parcerias e amizades que dela surgirem.

Para a região, é também uma oportunidade importante de demonstrar que a Europa do Sudeste é capaz de acolher grandes eventos internacionais e de contribuir ativamente para conversas globais sobre o futuro.

Como pretende envolver Portugal e os parceiros lusófonos neste projeto da Expo 2027?

A EXPO, especialmente dado o seu tema, cria naturalmente oportunidades para Portugal e os países lusófonos, dada a sua forte tradição no desporto, na música e na criatividade cultural. Mas gostaria também de ver participação em áreas como a inovação, a educação, o turismo, a tecnologia e os negócios.

Portugal e os países lusófonos têm um contributo importante a dar à EXPO 2027, e espero muito que vejamos uma presença forte e visível deles em Belgrado. Não só isso — espero que as relações estabelecidas em Belgrado resultem em cooperação que continue para além da própria EXPO. Uma exposição pode durar três meses, mas uma parceria entre duas universidades, duas empresas ou duas instituições culturais pode durar décadas.

Por essa razão, vejo a Expo 2027 como uma oportunidade não só de convidar Portugal a Belgrado, mas também de aprofundar a relação entre a Sérvia, Portugal e a comunidade lusófona mais ampla.

Que mensagem gostaria de deixar a quem ainda não conhece Belgrado e que poderá visitar a cidade em 2027?

A minha mensagem seria muito simples: venham a Belgrado com a mente aberta e deixem que a cidade vos surpreenda, o que certamente acontecerá!

Belgrado é uma cidade com uma história muito longa, mas é também jovem e energética, em constante mudança. É uma cidade moldada e definida pelo encontro de diferentes culturas e civilizações, o que se reflete na sua arquitetura, gastronomia, música e vida quotidiana.

A confluência dos rios Sava e Danúbio é uma das caraterísticas mais belas da cidade, mas o que sei que os visitantes mais recordam, como os meus amigos do estrangeiro não se cansam de me dizer, é a sua atmosfera e a hospitalidade do seu povo.

A EXPO 2027 proporcionará uma excelente razão para visitar Belgrado, mas espero que os visitantes aproveitem a oportunidade para ir além dela e descobrir a própria Sérvia, o património cultural, a natureza, a comida, o vinho e a música pelos quais somos conhecidos.

Aos visitantes portugueses em particular, diria: venham descobrir um país europeu que talvez conheçam menos bem do que alguns dos vossos destinos tradicionais. Espero que cheguem como visitantes e partam como amigos e com vontade de regressar.

Foi distinguida como Melhor Embaixadora Acreditada em Portugal na segunda edição dos Prémios Raia Diplomática. Que significado tem para si este reconhecimento?

Recebi o reconhecimento com grande gratidão e um forte sentido de responsabilidade. Para mim, não é simplesmente um prémio pessoal. Vejo-o como um reconhecimento do trabalho que toda a equipa da Embaixada tem realizado para fortalecer a relação entre a Sérvia e Portugal.

O que torna o reconhecimento particularmente significativo para mim é que vem de uma instituição portuguesa e reflete uma valorização da importância das relações Sérvia-Portugal.

Vejo também esse reconhecimento como um incentivo para continuar. A diplomacia é uma profissão de longo prazo. Nem sempre se veem imediatamente os resultados do trabalho, mas cada conversa, cada novo contacto e cada iniciativa bem-sucedida podem contribuir para uma relação mais forte no futuro.

Que lições ou experiências da sua trajetória considera mais determinantes para o trabalho que desenvolve em Portugal?

Uma das lições mais importantes que a minha carreira diplomática me ensinou é que as relações internacionais dependem, em última análise, das pessoas.

É claro que a diplomacia envolve instituições, acordos, negociações e posições formais. Mas por trás de tudo isto estão indivíduos que têm de comunicar, compreender-se mutuamente e, em muitos casos, construir confiança ao longo de um longo período de tempo.

Aprendi também a importância de ouvir. A diplomacia não consiste simplesmente em explicar a posição do seu país; consiste igualmente em compreender as prioridades, sensibilidades e expectativas da outra parte.

Outra lição importante é a paciência. Algumas iniciativas diplomáticas levam anos a produzir resultados. Uma conversa que hoje parece relativamente pequena pode tornar-se a base para um projeto significativo no futuro.

Trabalhar em Portugal reforçou a minha convicção sobre a importância da diplomacia pessoal. Quanto mais viajo pelo país, me reúno com instituições portuguesas e contacto com diferentes comunidades, mais vejo quantas oportunidades existem para a Sérvia e Portugal trabalharem em conjunto.

A minha experiência ensinou-me que a boa diplomacia começa com respeito e curiosidade — respeito pelo outro país e curiosidade genuína pelo seu povo e pelas suas perspetivas.

O que mais a motiva no dia a dia da representação da Sérvia em Portugal?

Como acredito firmemente que a diplomacia é sobre pessoas, o que mais me motiva, dia após dia, é a possibilidade de criar ligações — ligações entre pessoas, instituições, empresas e culturas.

Representar o próprio país é uma grande responsabilidade, mas é também um privilégio. Cada dia oferece uma oportunidade de explicar melhor a Sérvia, corrigir equívocos onde existam e, igualmente importante, ouvir e compreender melhor Portugal.

A minha maior recompensa e, ao mesmo tempo, motivação adicional é quando vejo um contacto transformar-se em algo concreto: quando uma empresa começa a cooperar com um parceiro sérvio, quando estudantes descobrem oportunidades de estudar nos países um do outro, quando artistas colaboram, ou quando alguém que sabia muito pouco sobre a Sérvia fica genuinamente interessado em visitar. Podem parecer pequenas conquistas, mas a diplomacia é frequentemente construída precisamente a partir dessas pequenas conquistas e depende sempre de não descartar pequenos passos em direção a um objetivo maior.

Isso, em última análise, é o que me motiva: construir relações que possam durar mais do que qualquer mandato diplomático individual.A Embaixadora da Sérvia em Portugal aborda a cooperação, a geopolítica, os laços lusófonos, a Expo 2027 e o lado humano da diplomacia.

A Sérvia e Portugal podem situar-se em extremos opostos do continente europeu, mas, como explica a Embaixadora Ana Ilić nesta entrevista, estão unidos por uma longa amizade e por uma abertura partilhada a uma cooperação mais profunda. Quando os dois países se aproximam de 145 anos de relações diplomáticas, estabelecidas em 1882, a Embaixadora da Sérvia em Portugal reflete sobre uma relação marcada pelo respeito mútuo, por um diálogo político estável e por um significativo potencial por explorar.

Aborda as vias mais promissoras para a cooperação bilateral — das tecnologias de informação, inovação e energias renováveis à educação, turismo e cultura — e os esforços concretos da Embaixada para aproximar as empresas sérvias e portuguesas.

Analisa também a posição da Sérvia no atual panorama geopolítico europeu e global, o seu equilíbrio em matéria de política externa, os seus laços com países lusófonos como Cabo Verde e o seu contributo para a cooperação regional nos Balcãs e na Europa do Sudeste. Com os olhos postos na Expo 2027 em Belgrado, descreve o que o evento representa para a Sérvia e para a região e como Portugal e os parceiros lusófonos podem envolver-se.

Por fim, reflete sobre a distinção de Melhor Embaixadora Acreditada em Portugal nos Prémios Raia Diplomática 2025, as lições da sua carreira e o que a motiva diariamente no trabalho de representação da Sérvia em Portugal.

Como descreveria o atual estado das relações bilaterais entre a Sérvia e Portugal, mais de 140 anos após o estabelecimento de relações diplomáticas em 1882?

Temos muito orgulho em poder dizer que no próximo ano celebraremos 145 anos de relações diplomáticas entre a Sérvia e Portugal, dois países separados por quase todo o continente europeu, mas unidos por uma relação longa e amistosa. Ao longo destes mais de 140 anos, a Europa e o sistema internacional mudaram profundamente, tal como a Sérvia e Portugal, mas a relação entre os nossos dois países permaneceu caracterizada pelo respeito mútuo e por uma genuína vontade de manter o diálogo. Hoje, acredito que temos uma base muito sólida sobre a qual construir uma parceria ainda mais forte.

O nosso diálogo político é bom, marcado pelo respeito mútuo e pela compreensão entre os nossos dois países, apesar da diferença de posições que temos no que diz respeito ao Kosovo-Metohija.

Descreveria, por isso, as nossas relações bilaterais como positivas e estáveis, com contactos políticos muito bons e um potencial considerável de desenvolvimento futuro. Existe uma base importante de entendimento mútuo entre as nossas instituições, mas acredito que podemos tornar a nossa relação muito mais visível e dinâmica ao nível das nossas sociedades. É particularmente encorajador que exista um interesse genuíno de ambas as partes em descobrir novas áreas de cooperação. O meu papel como Embaixadora é ajudar a transformar esse interesse em iniciativas concretas e parcerias duradouras. Acredito que os nossos laços económicos, culturais, científicos e entre pessoas ainda têm considerável margem de crescimento.

Apesar da distância geográfica, a Sérvia e Portugal são, em muitos aspetos, mais próximos do que podem parecer à primeira vista. Ambas as sociedades atribuem grande importância à família, à cultura, à tradição, à hospitalidade e ao desporto, e estes valores humanos comuns constituem uma excelente base para uma maior aproximação.

Acredito também que a Sérvia e Portugal têm uma oportunidade particularmente interessante neste momento. A Sérvia é um país profundamente empenhado na Europa e no seu futuro, enquanto Portugal tem uma valiosa perspetiva europeia, atlântica e lusófona. A tarefa que temos pela frente não é, portanto, reinventar a relação, mas dar-lhe maior substância e visibilidade.

Que áreas de cooperação entre os dois países considera mais promissoras para aprofundar nos próximos anos?

Ocorrem-me várias áreas nas quais vejo um potencial muito significativo. Acima de tudo, a cooperação económica, particularmente em setores como as tecnologias de informação e a digitalização, nos quais a Sérvia tem registado resultados significativos, bem como a inovação e as energias renováveis, áreas em que podemos aprender com a rica experiência de Portugal, assim como a agricultura, o turismo, as infraestruturas e a indústria transformadora.

A Sérvia desenvolveu um forte ecossistema tecnológico e de inovação e dispõe de uma mão de obra altamente qualificada, enquanto Portugal acumulou considerável experiência em áreas como a transformação digital, as energias renováveis, o turismo e os serviços. Existem, portanto, oportunidades de cooperação não apenas baseadas no comércio, mas também no investimento, em empresas conjuntas e no intercâmbio de conhecimentos especializados.

Igualmente importantes são a ciência e a educação. Aquilo em que tenho trabalhado e que gostaria de ver mais é a cooperação direta entre universidades e instituições de investigação sérvias e portuguesas, bem como uma maior mobilidade de estudantes, investigadores e jovens profissionais. Tenho orgulho em dizer que o número de projetos em que cooperamos através de formatos da UE, como o Erasmus, está a crescer todos os anos. Os resultados destes intercâmbios e investimentos nem sempre são imediatamente visíveis, mas criam ligações duradouras entre sociedades. O mesmo se aplica ao curso de língua sérvia que criámos no ano passado na Universidade de Lisboa, do qual me sinto particularmente orgulhosa.

O turismo é outra área com considerável potencial. Mais portugueses deveriam ter a oportunidade de descobrir a Sérvia, e mais cidadãos sérvios deveriam descobrir Portugal para além dos destinos que já conhecem, Lisboa e Porto, para onde a nossa companhia aérea nacional voa várias vezes por semana.

Permita-me também destacar a cultura e as indústrias criativas. Uma vez que tanto a Sérvia como Portugal têm identidades culturais fortes, e precisamente porque as nossas tradições são diferentes, o intercâmbio cultural pode ser particularmente enriquecedor.

Em última análise, vejo a maior oportunidade em passar de uma cooperação ocasional para uma rede mais sistemática de parcerias.

Como tem trabalhado para aproximar as comunidades empresariais sérvia e portuguesa?

Tem havido várias iniciativas concretas da nossa Embaixada para ligar as comunidades empresariais sérvia e portuguesa.

Uma delas foi a participação da Embaixada no Millennium Portugal Exportador 2025, no Porto, um dos principais eventos portugueses dedicados às exportações e à internacionalização empresarial. A Sérvia teve o seu próprio stand e aproveitou a oportunidade para estabelecer contactos diretos com empresas portuguesas. Estes contactos já resultaram em manifestações concretas de interesse em encontrar parceiros sérvios em áreas como marketing, assuntos públicos e relações públicas, produção de media e turismo, comércio e sourcing, indústria vitivinícola, bem como infraestruturas hídricas e municipais. As propostas vão desde a identificação de fornecedores e distribuidores sérvios até oportunidades de importação-exportação, projetos conjuntos e cooperação tecnológica.

Uma plataforma muito importante para nós tem sido, ao longo do meu mandato, a Web Summit em Lisboa. Tendo estado presentes durante anos, em 2025 a Sérvia apresentou cerca de 60 startups com os seus próprios stands, enquanto a delegação sérvia incluiu aproximadamente 300 inovadores, empresários e representantes de empresas. A importância deste setor para a Sérvia é ilustrada pelo facto de as nossas exportações de software terem ultrapassado 4,5 mil milhões de dólares.

Gostaria também de destacar o nosso trabalho de fortalecimento da rede de amizade sérvio-portuguesa e a sua utilização para desenvolver laços locais e empresariais. De 28 a 30 de maio de 2026, a Embaixada participou no primeiro encontro da Associação de Amizade Portugal-Sérvia em Torres Novas. O programa foi muito além do protocolo: além de uma receção com o Presidente da Câmara, uma sessão empresarial dedicada reuniu empresários sérvios e portugueses para apresentarem as suas empresas e explorarem oportunidades de cooperação direta.

No âmbito do programa empresarial, a Câmara de Comércio e Indústria da Sérvia fez uma apresentação abrangente do ambiente empresarial e de investimento da Sérvia, proporcionando às empresas portuguesas uma panorâmica das oportunidades de investimento na Sérvia e das possibilidades de estabelecer cooperação com parceiros sérvios. O programa incluiu também uma componente cultural que apresentou o património histórico e cultural da Sérvia.

Assim, o nosso foco tem sido muito prático: criar oportunidades para que empresas sérvias e portuguesas se encontrem diretamente, identifiquem parceiros e investidores e transformem contactos institucionais em cooperação empresarial concreta.

Qual o papel da cultura, do desporto e da música na aproximação entre os povos sérvio e português?

Diria que a cultura, o desporto e a música estão entre as formas mais eficazes de diplomacia, porque falam diretamente às pessoas, criando uma ligação humana imediata.

O desporto é uma ponte particularmente natural entre a Sérvia e Portugal. Ambos os países têm uma forte cultura desportiva e uma paixão genuína pela competição. Ambos os países têm atletas mundialmente conhecidos — Ronaldo e Đoković, que, dado o muito que contribuem para a visibilidade dos nossos países, estão entre os seus melhores diplomatas públicos. Embora a Sérvia não possa reivindicar muito sucesso no futebol, muitos dos nossos futebolistas jogaram em clubes portugueses e, dada a tradição internacionalmente reconhecida da Sérvia no basquetebol, no ténis e no polo aquático, encontro muitos adeptos dos nossos desportos aqui em Portugal.

A música é igualmente poderosa. As tradições musicais sérvias e as tradições portuguesas, como o fado, são distintas, mas ambas demonstram como a música pode expressar emoção e identidade, até memória coletiva. As diferenças culturais não separam necessariamente as pessoas; muito frequentemente, criam curiosidade e incentivam o diálogo, que também esperamos impulsionar ao trazer os nossos músicos a Portugal, onde seremos país convidado na edição de 2027 do festival “Terras Sem Sombra”. Talvez os portugueses encontrem então algo nas nossas tradições musicais de que gostem tanto como nós gostamos do fado na Sérvia!

Como vê a posição da Sérvia no atual panorama geopolítico europeu e mundial?

A Sérvia é um país europeu, geográfica, histórica e culturalmente, e, uma vez que o nosso futuro está estreitamente ligado ao futuro da Europa, a integração europeia continua a ser uma prioridade estratégica para a Sérvia e um quadro importante para o nosso desenvolvimento político e económico.

No entanto, não podemos ignorar o facto de vivermos num período de profunda transformação geopolítica. Muitas coisas estão em mutação: o ambiente de segurança na Europa mudou e as relações económicas estão a ser reavaliadas, enquanto questões como a segurança energética, a soberania tecnológica, a migração e a conectividade global adquiriram nova importância. É por isso que a Sérvia está a fazer o seu melhor para manter relações com uma ampla variedade de parceiros internacionais. No atual ambiente internacional, manter a comunicação e a capacidade de dialogar com diferentes atores é um importante instrumento diplomático.

Além disso, a estabilidade dos Balcãs Ocidentais continua a ser uma prioridade fundamental para a Sérvia. A nossa região tem uma história complicada e estamos plenamente conscientes de que a paz e a estabilidade não podem ser tomadas como garantidas, razão pela qual o diálogo e a cooperação regional são tão importantes para nós.

O nosso objetivo é proteger os interesses nacionais da Sérvia, permanecendo simultaneamente um parceiro europeu construtivo, contribuindo para a estabilidade regional e prosseguindo o nosso caminho europeu. Acreditamos que a diplomacia é particularmente importante precisamente quando as circunstâncias internacionais são difíceis.

Que desafios e oportunidades enfrenta a Sérvia na sua política externa, nomeadamente no equilíbrio entre as diferentes esferas de influência?

A Sérvia tem de navegar num ambiente de segurança europeu em rápida mudança, ao mesmo tempo que aborda as suas próprias prioridades nacionais e mantém relações com uma ampla variedade de parceiros internacionais, dada a complexidade do atual ambiente internacional.

Isto exige uma política externa centrada no diálogo e no pragmatismo, e baseada numa compreensão clara dos interesses nacionais. Acreditamos que manter a comunicação com diferentes parceiros é importante, particularmente num período em que as relações internacionais se estão a tornar cada vez mais fragmentadas.

Ao mesmo tempo, a integração europeia da Sérvia exige um trabalho substancial e contínuo. Não é simplesmente uma questão geopolítica; envolve reformas, reforço institucional, transformação económica e alinhamento com as normas europeias, que devem produzir resultados concretos em benefício de todos os nossos cidadãos.

É por isso que vejo o processo de integração europeia não apenas como um objetivo de política externa, mas também como uma oportunidade para a Sérvia continuar a modernizar as suas instituições e a sua economia.

O desafio é gerir diferentes relações de forma responsável, garantindo ao mesmo tempo que a Sérvia continua a ser um parceiro previsível e construtivo. Na minha opinião, a diplomacia consiste precisamente em criar espaço para a cooperação mesmo — ou especialmente — quando não é possível um acordo completo.

Como caracteriza a relação da Sérvia com os países lusófonos, em especial Cabo Verde?

Temos tradicionalmente mantido relações amistosas com o mundo lusófono, desempenhando Portugal um papel importante como ponte para a comunidade lusófona mais ampla.

A nossa relação com Cabo Verde é particularmente interessante e bastante emblemática das nossas relações com os países lusófonos de África. As relações diplomáticas foram estabelecidas em 1976 e têm as suas raízes nos contactos de longa data entre a Jugoslávia e os países do mundo em desenvolvimento, também no âmbito do Movimento dos Não-Alinhados. Há uma forte dimensão histórica na nossa relação, que vejo como uma excelente base a partir da qual olhar para o futuro e identificar novas áreas de cooperação prática.

Durante as minhas várias visitas a Cabo Verde, às quais regresso sempre com muito gosto, tive a oportunidade de me reunir com representantes de várias instituições e de constatar em primeira mão o potencial que existe em áreas como o turismo, a agricultura, a cultura, a educação e o desporto.

A educação pode ser uma ponte especialmente poderosa. Os programas de bolsas e académicos sérvios já ajudaram a criar ligações entre jovens dos nossos países. O programa “World in Serbia” trará vários novos estudantes à Sérvia este ano, do que me sinto muito orgulhosa. Estes contactos sobrevivem frequentemente durante décadas e criam redes que mais tarde se tornam valiosas nas relações diplomáticas, académicas e económicas.

Espero também que a nossa cooperação política e parlamentar se intensifique, na sequência de uma reunião entre os nossos ministros dos Negócios Estrangeiros durante a 81.ª sessão da AGNU, bem como da criação do primeiro grupo parlamentar de amizade com a Sérvia no parlamento de Cabo Verde.

Permita-me acrescentar que Portugal é bastante importante neste contexto, uma vez que o facto de estarmos aqui em Lisboa nos dá uma oportunidade valiosa de compreender melhor o espaço lusófono e de desenvolver ligações que se estendem para além da relação bilateral Sérvia-Portugal.

Que contributo pode a Sérvia dar para o reforço da cooperação regional nos Balcãs e na Europa do Sudeste?

A Sérvia tem tanto um interesse como uma responsabilidade de contribuir para a estabilidade e a cooperação regionais. A nossa posição geográfica significa que estamos estreitamente ligados a praticamente todos os grandes desenvolvimentos na Europa do Sudeste.

Sempre acreditei que a cooperação prática é a abordagem mais eficaz, e é exatamente essa a abordagem que a Sérvia tem praticado. Conectividade, infraestruturas, comércio, energia, turismo, educação e livre circulação de pessoas podem criar benefícios tangíveis e, ao mesmo tempo, construir confiança entre países que historicamente atravessaram períodos de tensão, mas que têm de cooperar se quiserem desenvolver-se.

A cooperação económica é particularmente importante. Quando empresas de países vizinhos trabalham em conjunto, quando as pessoas viajam, estudam e investem além-fronteiras, não só as sociedades se tornam cada vez mais interligadas, como as economias também beneficiam enormemente.

A Sérvia apoia também iniciativas destinadas a reforçar a cooperação económica regional e a aproximar os Balcãs Ocidentais do espaço económico europeu, e prova-o regularmente ao participar em numerosas plataformas e fóruns regionais, facilitando uma cooperação mais estreita.

Para mim, a cooperação regional não é uma alternativa à integração europeia. Pelo contrário, poder-se-ia dizer que Balcãs Ocidentais mais conectados e prósperos podem contribuir para uma Europa mais forte e mais estável.

A Expo 2027 em Belgrado está já a ser preparada. O que representa este evento para a Sérvia e para a região?

A EXPO 2027, que trará mais de 140 países de todo o mundo a Belgrado no próximo verão, é uma oportunidade excecional para a Sérvia e também para todos os Balcãs Ocidentais, pois colocará a nossa região no centro da atenção internacional.

O tema, “Jogar pela Humanidade – Desporto e Música para Todos”, é particularmente adequado devido ao tópico de que falámos nesta entrevista, sobre o desporto e a música serem linguagens universais, que unem pessoas de diferentes nacionalidades, gerações e origens culturais.

Para a Sérvia, a EXPO é também uma oportunidade de demonstrar a transformação que ocorreu no país e de apresentar as nossas capacidades em áreas como a inovação, a tecnologia, a cultura, as infraestruturas e as indústrias criativas. Por outro lado, não gostaria que a EXPO fosse vista simplesmente como uma exposição, uma vez que o seu verdadeiro valor reside nas relações que pode criar — entre países, empresas, universidades, instituições culturais e pessoas. Espero que o legado da EXPO 2027 seja medido não apenas em infraestruturas, mas também nas parcerias e amizades que dela surgirem.

Para a região, é também uma oportunidade importante de demonstrar que a Europa do Sudeste é capaz de acolher grandes eventos internacionais e de contribuir ativamente para conversas globais sobre o futuro.

Como pretende envolver Portugal e os parceiros lusófonos neste projeto da Expo 2027?

A EXPO, especialmente dado o seu tema, cria naturalmente oportunidades para Portugal e os países lusófonos, dada a sua forte tradição no desporto, na música e na criatividade cultural. Mas gostaria também de ver participação em áreas como a inovação, a educação, o turismo, a tecnologia e os negócios.

Portugal e os países lusófonos têm um contributo importante a dar à EXPO 2027, e espero muito que vejamos uma presença forte e visível deles em Belgrado. Não só isso — espero que as relações estabelecidas em Belgrado resultem em cooperação que continue para além da própria EXPO. Uma exposição pode durar três meses, mas uma parceria entre duas universidades, duas empresas ou duas instituições culturais pode durar décadas.

Por essa razão, vejo a Expo 2027 como uma oportunidade não só de convidar Portugal a Belgrado, mas também de aprofundar a relação entre a Sérvia, Portugal e a comunidade lusófona mais ampla.

Que mensagem gostaria de deixar a quem ainda não conhece Belgrado e que poderá visitar a cidade em 2027?

A minha mensagem seria muito simples: venham a Belgrado com a mente aberta e deixem que a cidade vos surpreenda, o que certamente acontecerá!

Belgrado é uma cidade com uma história muito longa, mas é também jovem e energética, em constante mudança. É uma cidade moldada e definida pelo encontro de diferentes culturas e civilizações, o que se reflete na sua arquitetura, gastronomia, música e vida quotidiana.

A confluência dos rios Sava e Danúbio é uma das caraterísticas mais belas da cidade, mas o que sei que os visitantes mais recordam, como os meus amigos do estrangeiro não se cansam de me dizer, é a sua atmosfera e a hospitalidade do seu povo.

A EXPO 2027 proporcionará uma excelente razão para visitar Belgrado, mas espero que os visitantes aproveitem a oportunidade para ir além dela e descobrir a própria Sérvia, o património cultural, a natureza, a comida, o vinho e a música pelos quais somos conhecidos.

Aos visitantes portugueses em particular, diria: venham descobrir um país europeu que talvez conheçam menos bem do que alguns dos vossos destinos tradicionais. Espero que cheguem como visitantes e partam como amigos e com vontade de regressar.

Foi distinguida como Melhor Embaixadora Acreditada em Portugal na segunda edição dos Prémios Raia Diplomática. Que significado tem para si este reconhecimento?

Recebi o reconhecimento com grande gratidão e um forte sentido de responsabilidade. Para mim, não é simplesmente um prémio pessoal. Vejo-o como um reconhecimento do trabalho que toda a equipa da Embaixada tem realizado para fortalecer a relação entre a Sérvia e Portugal.

O que torna o reconhecimento particularmente significativo para mim é que vem de uma instituição portuguesa e reflete uma valorização da importância das relações Sérvia-Portugal.

Vejo também esse reconhecimento como um incentivo para continuar. A diplomacia é uma profissão de longo prazo. Nem sempre se veem imediatamente os resultados do trabalho, mas cada conversa, cada novo contacto e cada iniciativa bem-sucedida podem contribuir para uma relação mais forte no futuro.

Que lições ou experiências da sua trajetória considera mais determinantes para o trabalho que desenvolve em Portugal?

Uma das lições mais importantes que a minha carreira diplomática me ensinou é que as relações internacionais dependem, em última análise, das pessoas.

É claro que a diplomacia envolve instituições, acordos, negociações e posições formais. Mas por trás de tudo isto estão indivíduos que têm de comunicar, compreender-se mutuamente e, em muitos casos, construir confiança ao longo de um longo período de tempo.

Aprendi também a importância de ouvir. A diplomacia não consiste simplesmente em explicar a posição do seu país; consiste igualmente em compreender as prioridades, sensibilidades e expectativas da outra parte.

Outra lição importante é a paciência. Algumas iniciativas diplomáticas levam anos a produzir resultados. Uma conversa que hoje parece relativamente pequena pode tornar-se a base para um projeto significativo no futuro.

Trabalhar em Portugal reforçou a minha convicção sobre a importância da diplomacia pessoal. Quanto mais viajo pelo país, me reúno com instituições portuguesas e contacto com diferentes comunidades, mais vejo quantas oportunidades existem para a Sérvia e Portugal trabalharem em conjunto.

A minha experiência ensinou-me que a boa diplomacia começa com respeito e curiosidade — respeito pelo outro país e curiosidade genuína pelo seu povo e pelas suas perspetivas.

O que mais a motiva no dia a dia da representação da Sérvia em Portugal?

Como acredito firmemente que a diplomacia é sobre pessoas, o que mais me motiva, dia após dia, é a possibilidade de criar ligações — ligações entre pessoas, instituições, empresas e culturas.

Representar o próprio país é uma grande responsabilidade, mas é também um privilégio. Cada dia oferece uma oportunidade de explicar melhor a Sérvia, corrigir equívocos onde existam e, igualmente importante, ouvir e compreender melhor Portugal.

A minha maior recompensa e, ao mesmo tempo, motivação adicional é quando vejo um contacto transformar-se em algo concreto: quando uma empresa começa a cooperar com um parceiro sérvio, quando estudantes descobrem oportunidades de estudar nos países um do outro, quando artistas colaboram, ou quando alguém que sabia muito pouco sobre a Sérvia fica genuinamente interessado em visitar. Podem parecer pequenas conquistas, mas a diplomacia é frequentemente construída precisamente a partir dessas pequenas conquistas e depende sempre de não descartar pequenos passos em direção a um objetivo maior.

Isso, em última análise, é o que me motiva: construir relações que possam durar mais do que qualquer mandato diplomático individual.A Embaixadora da Sérvia em Portugal aborda a cooperação, a geopolítica, os laços lusófonos, a Expo 2027 e o lado humano da diplomacia.

A Sérvia e Portugal podem situar-se em extremos opostos do continente europeu, mas, como explica a Embaixadora Ana Ilić nesta entrevista, estão unidos por uma longa amizade e por uma abertura partilhada a uma cooperação mais profunda. Quando os dois países se aproximam de 145 anos de relações diplomáticas, estabelecidas em 1882, a Embaixadora da Sérvia em Portugal reflete sobre uma relação marcada pelo respeito mútuo, por um diálogo político estável e por um significativo potencial por explorar.

Aborda as vias mais promissoras para a cooperação bilateral — das tecnologias de informação, inovação e energias renováveis à educação, turismo e cultura — e os esforços concretos da Embaixada para aproximar as empresas sérvias e portuguesas.

Analisa também a posição da Sérvia no atual panorama geopolítico europeu e global, o seu equilíbrio em matéria de política externa, os seus laços com países lusófonos como Cabo Verde e o seu contributo para a cooperação regional nos Balcãs e na Europa do Sudeste. Com os olhos postos na Expo 2027 em Belgrado, descreve o que o evento representa para a Sérvia e para a região e como Portugal e os parceiros lusófonos podem envolver-se.

Por fim, reflete sobre a distinção de Melhor Embaixadora Acreditada em Portugal nos Prémios Raia Diplomática 2025, as lições da sua carreira e o que a motiva diariamente no trabalho de representação da Sérvia em Portugal.

Como descreveria o atual estado das relações bilaterais entre a Sérvia e Portugal, mais de 140 anos após o estabelecimento de relações diplomáticas em 1882?

Temos muito orgulho em poder dizer que no próximo ano celebraremos 145 anos de relações diplomáticas entre a Sérvia e Portugal, dois países separados por quase todo o continente europeu, mas unidos por uma relação longa e amistosa. Ao longo destes mais de 140 anos, a Europa e o sistema internacional mudaram profundamente, tal como a Sérvia e Portugal, mas a relação entre os nossos dois países permaneceu caracterizada pelo respeito mútuo e por uma genuína vontade de manter o diálogo. Hoje, acredito que temos uma base muito sólida sobre a qual construir uma parceria ainda mais forte.

O nosso diálogo político é bom, marcado pelo respeito mútuo e pela compreensão entre os nossos dois países, apesar da diferença de posições que temos no que diz respeito ao Kosovo-Metohija.

Descreveria, por isso, as nossas relações bilaterais como positivas e estáveis, com contactos políticos muito bons e um potencial considerável de desenvolvimento futuro. Existe uma base importante de entendimento mútuo entre as nossas instituições, mas acredito que podemos tornar a nossa relação muito mais visível e dinâmica ao nível das nossas sociedades. É particularmente encorajador que exista um interesse genuíno de ambas as partes em descobrir novas áreas de cooperação. O meu papel como Embaixadora é ajudar a transformar esse interesse em iniciativas concretas e parcerias duradouras. Acredito que os nossos laços económicos, culturais, científicos e entre pessoas ainda têm considerável margem de crescimento.

Apesar da distância geográfica, a Sérvia e Portugal são, em muitos aspetos, mais próximos do que podem parecer à primeira vista. Ambas as sociedades atribuem grande importância à família, à cultura, à tradição, à hospitalidade e ao desporto, e estes valores humanos comuns constituem uma excelente base para uma maior aproximação.

Acredito também que a Sérvia e Portugal têm uma oportunidade particularmente interessante neste momento. A Sérvia é um país profundamente empenhado na Europa e no seu futuro, enquanto Portugal tem uma valiosa perspetiva europeia, atlântica e lusófona. A tarefa que temos pela frente não é, portanto, reinventar a relação, mas dar-lhe maior substância e visibilidade.

Que áreas de cooperação entre os dois países considera mais promissoras para aprofundar nos próximos anos?

Ocorrem-me várias áreas nas quais vejo um potencial muito significativo. Acima de tudo, a cooperação económica, particularmente em setores como as tecnologias de informação e a digitalização, nos quais a Sérvia tem registado resultados significativos, bem como a inovação e as energias renováveis, áreas em que podemos aprender com a rica experiência de Portugal, assim como a agricultura, o turismo, as infraestruturas e a indústria transformadora.

A Sérvia desenvolveu um forte ecossistema tecnológico e de inovação e dispõe de uma mão de obra altamente qualificada, enquanto Portugal acumulou considerável experiência em áreas como a transformação digital, as energias renováveis, o turismo e os serviços. Existem, portanto, oportunidades de cooperação não apenas baseadas no comércio, mas também no investimento, em empresas conjuntas e no intercâmbio de conhecimentos especializados.

Igualmente importantes são a ciência e a educação. Aquilo em que tenho trabalhado e que gostaria de ver mais é a cooperação direta entre universidades e instituições de investigação sérvias e portuguesas, bem como uma maior mobilidade de estudantes, investigadores e jovens profissionais. Tenho orgulho em dizer que o número de projetos em que cooperamos através de formatos da UE, como o Erasmus, está a crescer todos os anos. Os resultados destes intercâmbios e investimentos nem sempre são imediatamente visíveis, mas criam ligações duradouras entre sociedades. O mesmo se aplica ao curso de língua sérvia que criámos no ano passado na Universidade de Lisboa, do qual me sinto particularmente orgulhosa.

O turismo é outra área com considerável potencial. Mais portugueses deveriam ter a oportunidade de descobrir a Sérvia, e mais cidadãos sérvios deveriam descobrir Portugal para além dos destinos que já conhecem, Lisboa e Porto, para onde a nossa companhia aérea nacional voa várias vezes por semana.

Permita-me também destacar a cultura e as indústrias criativas. Uma vez que tanto a Sérvia como Portugal têm identidades culturais fortes, e precisamente porque as nossas tradições são diferentes, o intercâmbio cultural pode ser particularmente enriquecedor.

Em última análise, vejo a maior oportunidade em passar de uma cooperação ocasional para uma rede mais sistemática de parcerias.

Como tem trabalhado para aproximar as comunidades empresariais sérvia e portuguesa?

Tem havido várias iniciativas concretas da nossa Embaixada para ligar as comunidades empresariais sérvia e portuguesa.

Uma delas foi a participação da Embaixada no Millennium Portugal Exportador 2025, no Porto, um dos principais eventos portugueses dedicados às exportações e à internacionalização empresarial. A Sérvia teve o seu próprio stand e aproveitou a oportunidade para estabelecer contactos diretos com empresas portuguesas. Estes contactos já resultaram em manifestações concretas de interesse em encontrar parceiros sérvios em áreas como marketing, assuntos públicos e relações públicas, produção de media e turismo, comércio e sourcing, indústria vitivinícola, bem como infraestruturas hídricas e municipais. As propostas vão desde a identificação de fornecedores e distribuidores sérvios até oportunidades de importação-exportação, projetos conjuntos e cooperação tecnológica.

Uma plataforma muito importante para nós tem sido, ao longo do meu mandato, a Web Summit em Lisboa. Tendo estado presentes durante anos, em 2025 a Sérvia apresentou cerca de 60 startups com os seus próprios stands, enquanto a delegação sérvia incluiu aproximadamente 300 inovadores, empresários e representantes de empresas. A importância deste setor para a Sérvia é ilustrada pelo facto de as nossas exportações de software terem ultrapassado 4,5 mil milhões de dólares.

Gostaria também de destacar o nosso trabalho de fortalecimento da rede de amizade sérvio-portuguesa e a sua utilização para desenvolver laços locais e empresariais. De 28 a 30 de maio de 2026, a Embaixada participou no primeiro encontro da Associação de Amizade Portugal-Sérvia em Torres Novas. O programa foi muito além do protocolo: além de uma receção com o Presidente da Câmara, uma sessão empresarial dedicada reuniu empresários sérvios e portugueses para apresentarem as suas empresas e explorarem oportunidades de cooperação direta.

No âmbito do programa empresarial, a Câmara de Comércio e Indústria da Sérvia fez uma apresentação abrangente do ambiente empresarial e de investimento da Sérvia, proporcionando às empresas portuguesas uma panorâmica das oportunidades de investimento na Sérvia e das possibilidades de estabelecer cooperação com parceiros sérvios. O programa incluiu também uma componente cultural que apresentou o património histórico e cultural da Sérvia.

Assim, o nosso foco tem sido muito prático: criar oportunidades para que empresas sérvias e portuguesas se encontrem diretamente, identifiquem parceiros e investidores e transformem contactos institucionais em cooperação empresarial concreta.

Qual o papel da cultura, do desporto e da música na aproximação entre os povos sérvio e português?

Diria que a cultura, o desporto e a música estão entre as formas mais eficazes de diplomacia, porque falam diretamente às pessoas, criando uma ligação humana imediata.

O desporto é uma ponte particularmente natural entre a Sérvia e Portugal. Ambos os países têm uma forte cultura desportiva e uma paixão genuína pela competição. Ambos os países têm atletas mundialmente conhecidos — Ronaldo e Đoković, que, dado o muito que contribuem para a visibilidade dos nossos países, estão entre os seus melhores diplomatas públicos. Embora a Sérvia não possa reivindicar muito sucesso no futebol, muitos dos nossos futebolistas jogaram em clubes portugueses e, dada a tradição internacionalmente reconhecida da Sérvia no basquetebol, no ténis e no polo aquático, encontro muitos adeptos dos nossos desportos aqui em Portugal.

A música é igualmente poderosa. As tradições musicais sérvias e as tradições portuguesas, como o fado, são distintas, mas ambas demonstram como a música pode expressar emoção e identidade, até memória coletiva. As diferenças culturais não separam necessariamente as pessoas; muito frequentemente, criam curiosidade e incentivam o diálogo, que também esperamos impulsionar ao trazer os nossos músicos a Portugal, onde seremos país convidado na edição de 2027 do festival “Terras Sem Sombra”. Talvez os portugueses encontrem então algo nas nossas tradições musicais de que gostem tanto como nós gostamos do fado na Sérvia!

Como vê a posição da Sérvia no atual panorama geopolítico europeu e mundial?

A Sérvia é um país europeu, geográfica, histórica e culturalmente, e, uma vez que o nosso futuro está estreitamente ligado ao futuro da Europa, a integração europeia continua a ser uma prioridade estratégica para a Sérvia e um quadro importante para o nosso desenvolvimento político e económico.

No entanto, não podemos ignorar o facto de vivermos num período de profunda transformação geopolítica. Muitas coisas estão em mutação: o ambiente de segurança na Europa mudou e as relações económicas estão a ser reavaliadas, enquanto questões como a segurança energética, a soberania tecnológica, a migração e a conectividade global adquiriram nova importância. É por isso que a Sérvia está a fazer o seu melhor para manter relações com uma ampla variedade de parceiros internacionais. No atual ambiente internacional, manter a comunicação e a capacidade de dialogar com diferentes atores é um importante instrumento diplomático.

Além disso, a estabilidade dos Balcãs Ocidentais continua a ser uma prioridade fundamental para a Sérvia. A nossa região tem uma história complicada e estamos plenamente conscientes de que a paz e a estabilidade não podem ser tomadas como garantidas, razão pela qual o diálogo e a cooperação regional são tão importantes para nós.

O nosso objetivo é proteger os interesses nacionais da Sérvia, permanecendo simultaneamente um parceiro europeu construtivo, contribuindo para a estabilidade regional e prosseguindo o nosso caminho europeu. Acreditamos que a diplomacia é particularmente importante precisamente quando as circunstâncias internacionais são difíceis.

Que desafios e oportunidades enfrenta a Sérvia na sua política externa, nomeadamente no equilíbrio entre as diferentes esferas de influência?

A Sérvia tem de navegar num ambiente de segurança europeu em rápida mudança, ao mesmo tempo que aborda as suas próprias prioridades nacionais e mantém relações com uma ampla variedade de parceiros internacionais, dada a complexidade do atual ambiente internacional.

Isto exige uma política externa centrada no diálogo e no pragmatismo, e baseada numa compreensão clara dos interesses nacionais. Acreditamos que manter a comunicação com diferentes parceiros é importante, particularmente num período em que as relações internacionais se estão a tornar cada vez mais fragmentadas.

Ao mesmo tempo, a integração europeia da Sérvia exige um trabalho substancial e contínuo. Não é simplesmente uma questão geopolítica; envolve reformas, reforço institucional, transformação económica e alinhamento com as normas europeias, que devem produzir resultados concretos em benefício de todos os nossos cidadãos.

É por isso que vejo o processo de integração europeia não apenas como um objetivo de política externa, mas também como uma oportunidade para a Sérvia continuar a modernizar as suas instituições e a sua economia.

O desafio é gerir diferentes relações de forma responsável, garantindo ao mesmo tempo que a Sérvia continua a ser um parceiro previsível e construtivo. Na minha opinião, a diplomacia consiste precisamente em criar espaço para a cooperação mesmo — ou especialmente — quando não é possível um acordo completo.

Como caracteriza a relação da Sérvia com os países lusófonos, em especial Cabo Verde?

Temos tradicionalmente mantido relações amistosas com o mundo lusófono, desempenhando Portugal um papel importante como ponte para a comunidade lusófona mais ampla.

A nossa relação com Cabo Verde é particularmente interessante e bastante emblemática das nossas relações com os países lusófonos de África. As relações diplomáticas foram estabelecidas em 1976 e têm as suas raízes nos contactos de longa data entre a Jugoslávia e os países do mundo em desenvolvimento, também no âmbito do Movimento dos Não-Alinhados. Há uma forte dimensão histórica na nossa relação, que vejo como uma excelente base a partir da qual olhar para o futuro e identificar novas áreas de cooperação prática.

Durante as minhas várias visitas a Cabo Verde, às quais regresso sempre com muito gosto, tive a oportunidade de me reunir com representantes de várias instituições e de constatar em primeira mão o potencial que existe em áreas como o turismo, a agricultura, a cultura, a educação e o desporto.

A educação pode ser uma ponte especialmente poderosa. Os programas de bolsas e académicos sérvios já ajudaram a criar ligações entre jovens dos nossos países. O programa “World in Serbia” trará vários novos estudantes à Sérvia este ano, do que me sinto muito orgulhosa. Estes contactos sobrevivem frequentemente durante décadas e criam redes que mais tarde se tornam valiosas nas relações diplomáticas, académicas e económicas.

Espero também que a nossa cooperação política e parlamentar se intensifique, na sequência de uma reunião entre os nossos ministros dos Negócios Estrangeiros durante a 81.ª sessão da AGNU, bem como da criação do primeiro grupo parlamentar de amizade com a Sérvia no parlamento de Cabo Verde.

Permita-me acrescentar que Portugal é bastante importante neste contexto, uma vez que o facto de estarmos aqui em Lisboa nos dá uma oportunidade valiosa de compreender melhor o espaço lusófono e de desenvolver ligações que se estendem para além da relação bilateral Sérvia-Portugal.

Que contributo pode a Sérvia dar para o reforço da cooperação regional nos Balcãs e na Europa do Sudeste?

A Sérvia tem tanto um interesse como uma responsabilidade de contribuir para a estabilidade e a cooperação regionais. A nossa posição geográfica significa que estamos estreitamente ligados a praticamente todos os grandes desenvolvimentos na Europa do Sudeste.

Sempre acreditei que a cooperação prática é a abordagem mais eficaz, e é exatamente essa a abordagem que a Sérvia tem praticado. Conectividade, infraestruturas, comércio, energia, turismo, educação e livre circulação de pessoas podem criar benefícios tangíveis e, ao mesmo tempo, construir confiança entre países que historicamente atravessaram períodos de tensão, mas que têm de cooperar se quiserem desenvolver-se.

A cooperação económica é particularmente importante. Quando empresas de países vizinhos trabalham em conjunto, quando as pessoas viajam, estudam e investem além-fronteiras, não só as sociedades se tornam cada vez mais interligadas, como as economias também beneficiam enormemente.

A Sérvia apoia também iniciativas destinadas a reforçar a cooperação económica regional e a aproximar os Balcãs Ocidentais do espaço económico europeu, e prova-o regularmente ao participar em numerosas plataformas e fóruns regionais, facilitando uma cooperação mais estreita.

Para mim, a cooperação regional não é uma alternativa à integração europeia. Pelo contrário, poder-se-ia dizer que Balcãs Ocidentais mais conectados e prósperos podem contribuir para uma Europa mais forte e mais estável.

A Expo 2027 em Belgrado está já a ser preparada. O que representa este evento para a Sérvia e para a região?

A EXPO 2027, que trará mais de 140 países de todo o mundo a Belgrado no próximo verão, é uma oportunidade excecional para a Sérvia e também para todos os Balcãs Ocidentais, pois colocará a nossa região no centro da atenção internacional.

O tema, “Jogar pela Humanidade – Desporto e Música para Todos”, é particularmente adequado devido ao tópico de que falámos nesta entrevista, sobre o desporto e a música serem linguagens universais, que unem pessoas de diferentes nacionalidades, gerações e origens culturais.

Para a Sérvia, a EXPO é também uma oportunidade de demonstrar a transformação que ocorreu no país e de apresentar as nossas capacidades em áreas como a inovação, a tecnologia, a cultura, as infraestruturas e as indústrias criativas. Por outro lado, não gostaria que a EXPO fosse vista simplesmente como uma exposição, uma vez que o seu verdadeiro valor reside nas relações que pode criar — entre países, empresas, universidades, instituições culturais e pessoas. Espero que o legado da EXPO 2027 seja medido não apenas em infraestruturas, mas também nas parcerias e amizades que dela surgirem.

Para a região, é também uma oportunidade importante de demonstrar que a Europa do Sudeste é capaz de acolher grandes eventos internacionais e de contribuir ativamente para conversas globais sobre o futuro.

Como pretende envolver Portugal e os parceiros lusófonos neste projeto da Expo 2027?

A EXPO, especialmente dado o seu tema, cria naturalmente oportunidades para Portugal e os países lusófonos, dada a sua forte tradição no desporto, na música e na criatividade cultural. Mas gostaria também de ver participação em áreas como a inovação, a educação, o turismo, a tecnologia e os negócios.

Portugal e os países lusófonos têm um contributo importante a dar à EXPO 2027, e espero muito que vejamos uma presença forte e visível deles em Belgrado. Não só isso — espero que as relações estabelecidas em Belgrado resultem em cooperação que continue para além da própria EXPO. Uma exposição pode durar três meses, mas uma parceria entre duas universidades, duas empresas ou duas instituições culturais pode durar décadas.

Por essa razão, vejo a Expo 2027 como uma oportunidade não só de convidar Portugal a Belgrado, mas também de aprofundar a relação entre a Sérvia, Portugal e a comunidade lusófona mais ampla.

Que mensagem gostaria de deixar a quem ainda não conhece Belgrado e que poderá visitar a cidade em 2027?

A minha mensagem seria muito simples: venham a Belgrado com a mente aberta e deixem que a cidade vos surpreenda, o que certamente acontecerá!

Belgrado é uma cidade com uma história muito longa, mas é também jovem e energética, em constante mudança. É uma cidade moldada e definida pelo encontro de diferentes culturas e civilizações, o que se reflete na sua arquitetura, gastronomia, música e vida quotidiana.

A confluência dos rios Sava e Danúbio é uma das caraterísticas mais belas da cidade, mas o que sei que os visitantes mais recordam, como os meus amigos do estrangeiro não se cansam de me dizer, é a sua atmosfera e a hospitalidade do seu povo.

A EXPO 2027 proporcionará uma excelente razão para visitar Belgrado, mas espero que os visitantes aproveitem a oportunidade para ir além dela e descobrir a própria Sérvia, o património cultural, a natureza, a comida, o vinho e a música pelos quais somos conhecidos.

Aos visitantes portugueses em particular, diria: venham descobrir um país europeu que talvez conheçam menos bem do que alguns dos vossos destinos tradicionais. Espero que cheguem como visitantes e partam como amigos e com vontade de regressar.

Foi distinguida como Melhor Embaixadora Acreditada em Portugal na segunda edição dos Prémios Raia Diplomática. Que significado tem para si este reconhecimento?

Recebi o reconhecimento com grande gratidão e um forte sentido de responsabilidade. Para mim, não é simplesmente um prémio pessoal. Vejo-o como um reconhecimento do trabalho que toda a equipa da Embaixada tem realizado para fortalecer a relação entre a Sérvia e Portugal.

O que torna o reconhecimento particularmente significativo para mim é que vem de uma instituição portuguesa e reflete uma valorização da importância das relações Sérvia-Portugal.

Vejo também esse reconhecimento como um incentivo para continuar. A diplomacia é uma profissão de longo prazo. Nem sempre se veem imediatamente os resultados do trabalho, mas cada conversa, cada novo contacto e cada iniciativa bem-sucedida podem contribuir para uma relação mais forte no futuro.

Que lições ou experiências da sua trajetória considera mais determinantes para o trabalho que desenvolve em Portugal?

Uma das lições mais importantes que a minha carreira diplomática me ensinou é que as relações internacionais dependem, em última análise, das pessoas.

É claro que a diplomacia envolve instituições, acordos, negociações e posições formais. Mas por trás de tudo isto estão indivíduos que têm de comunicar, compreender-se mutuamente e, em muitos casos, construir confiança ao longo de um longo período de tempo.

Aprendi também a importância de ouvir. A diplomacia não consiste simplesmente em explicar a posição do seu país; consiste igualmente em compreender as prioridades, sensibilidades e expectativas da outra parte.

Outra lição importante é a paciência. Algumas iniciativas diplomáticas levam anos a produzir resultados. Uma conversa que hoje parece relativamente pequena pode tornar-se a base para um projeto significativo no futuro.

Trabalhar em Portugal reforçou a minha convicção sobre a importância da diplomacia pessoal. Quanto mais viajo pelo país, me reúno com instituições portuguesas e contacto com diferentes comunidades, mais vejo quantas oportunidades existem para a Sérvia e Portugal trabalharem em conjunto.

A minha experiência ensinou-me que a boa diplomacia começa com respeito e curiosidade — respeito pelo outro país e curiosidade genuína pelo seu povo e pelas suas perspetivas.

O que mais a motiva no dia a dia da representação da Sérvia em Portugal?

Como acredito firmemente que a diplomacia é sobre pessoas, o que mais me motiva, dia após dia, é a possibilidade de criar ligações — ligações entre pessoas, instituições, empresas e culturas.

Representar o próprio país é uma grande responsabilidade, mas é também um privilégio. Cada dia oferece uma oportunidade de explicar melhor a Sérvia, corrigir equívocos onde existam e, igualmente importante, ouvir e compreender melhor Portugal.

A minha maior recompensa e, ao mesmo tempo, motivação adicional é quando vejo um contacto transformar-se em algo concreto: quando uma empresa começa a cooperar com um parceiro sérvio, quando estudantes descobrem oportunidades de estudar nos países um do outro, quando artistas colaboram, ou quando alguém que sabia muito pouco sobre a Sérvia fica genuinamente interessado em visitar. Podem parecer pequenas conquistas, mas a diplomacia é frequentemente construída precisamente a partir dessas pequenas conquistas e depende sempre de não descartar pequenos passos em direção a um objetivo maior.

Isso, em última análise, é o que me motiva: construir relações que possam durar mais do que qualquer mandato diplomático individual.A Embaixadora da Sérvia em Portugal aborda a cooperação, a geopolítica, os laços lusófonos, a Expo 2027 e o lado humano da diplomacia.

A Sérvia e Portugal podem situar-se em extremos opostos do continente europeu, mas, como explica a Embaixadora Ana Ilić nesta entrevista, estão unidos por uma longa amizade e por uma abertura partilhada a uma cooperação mais profunda. Quando os dois países se aproximam de 145 anos de relações diplomáticas, estabelecidas em 1882, a Embaixadora da Sérvia em Portugal reflete sobre uma relação marcada pelo respeito mútuo, por um diálogo político estável e por um significativo potencial por explorar.

Aborda as vias mais promissoras para a cooperação bilateral — das tecnologias de informação, inovação e energias renováveis à educação, turismo e cultura — e os esforços concretos da Embaixada para aproximar as empresas sérvias e portuguesas.

Analisa também a posição da Sérvia no atual panorama geopolítico europeu e global, o seu equilíbrio em matéria de política externa, os seus laços com países lusófonos como Cabo Verde e o seu contributo para a cooperação regional nos Balcãs e na Europa do Sudeste. Com os olhos postos na Expo 2027 em Belgrado, descreve o que o evento representa para a Sérvia e para a região e como Portugal e os parceiros lusófonos podem envolver-se.

Por fim, reflete sobre a distinção de Melhor Embaixadora Acreditada em Portugal nos Prémios Raia Diplomática 2025, as lições da sua carreira e o que a motiva diariamente no trabalho de representação da Sérvia em Portugal.

Como descreveria o atual estado das relações bilaterais entre a Sérvia e Portugal, mais de 140 anos após o estabelecimento de relações diplomáticas em 1882?

Temos muito orgulho em poder dizer que no próximo ano celebraremos 145 anos de relações diplomáticas entre a Sérvia e Portugal, dois países separados por quase todo o continente europeu, mas unidos por uma relação longa e amistosa. Ao longo destes mais de 140 anos, a Europa e o sistema internacional mudaram profundamente, tal como a Sérvia e Portugal, mas a relação entre os nossos dois países permaneceu caracterizada pelo respeito mútuo e por uma genuína vontade de manter o diálogo. Hoje, acredito que temos uma base muito sólida sobre a qual construir uma parceria ainda mais forte.

O nosso diálogo político é bom, marcado pelo respeito mútuo e pela compreensão entre os nossos dois países, apesar da diferença de posições que temos no que diz respeito ao Kosovo-Metohija.

Descreveria, por isso, as nossas relações bilaterais como positivas e estáveis, com contactos políticos muito bons e um potencial considerável de desenvolvimento futuro. Existe uma base importante de entendimento mútuo entre as nossas instituições, mas acredito que podemos tornar a nossa relação muito mais visível e dinâmica ao nível das nossas sociedades. É particularmente encorajador que exista um interesse genuíno de ambas as partes em descobrir novas áreas de cooperação. O meu papel como Embaixadora é ajudar a transformar esse interesse em iniciativas concretas e parcerias duradouras. Acredito que os nossos laços económicos, culturais, científicos e entre pessoas ainda têm considerável margem de crescimento.

Apesar da distância geográfica, a Sérvia e Portugal são, em muitos aspetos, mais próximos do que podem parecer à primeira vista. Ambas as sociedades atribuem grande importância à família, à cultura, à tradição, à hospitalidade e ao desporto, e estes valores humanos comuns constituem uma excelente base para uma maior aproximação.

Acredito também que a Sérvia e Portugal têm uma oportunidade particularmente interessante neste momento. A Sérvia é um país profundamente empenhado na Europa e no seu futuro, enquanto Portugal tem uma valiosa perspetiva europeia, atlântica e lusófona. A tarefa que temos pela frente não é, portanto, reinventar a relação, mas dar-lhe maior substância e visibilidade.

Que áreas de cooperação entre os dois países considera mais promissoras para aprofundar nos próximos anos?

Ocorrem-me várias áreas nas quais vejo um potencial muito significativo. Acima de tudo, a cooperação económica, particularmente em setores como as tecnologias de informação e a digitalização, nos quais a Sérvia tem registado resultados significativos, bem como a inovação e as energias renováveis, áreas em que podemos aprender com a rica experiência de Portugal, assim como a agricultura, o turismo, as infraestruturas e a indústria transformadora.

A Sérvia desenvolveu um forte ecossistema tecnológico e de inovação e dispõe de uma mão de obra altamente qualificada, enquanto Portugal acumulou considerável experiência em áreas como a transformação digital, as energias renováveis, o turismo e os serviços. Existem, portanto, oportunidades de cooperação não apenas baseadas no comércio, mas também no investimento, em empresas conjuntas e no intercâmbio de conhecimentos especializados.

Igualmente importantes são a ciência e a educação. Aquilo em que tenho trabalhado e que gostaria de ver mais é a cooperação direta entre universidades e instituições de investigação sérvias e portuguesas, bem como uma maior mobilidade de estudantes, investigadores e jovens profissionais. Tenho orgulho em dizer que o número de projetos em que cooperamos através de formatos da UE, como o Erasmus, está a crescer todos os anos. Os resultados destes intercâmbios e investimentos nem sempre são imediatamente visíveis, mas criam ligações duradouras entre sociedades. O mesmo se aplica ao curso de língua sérvia que criámos no ano passado na Universidade de Lisboa, do qual me sinto particularmente orgulhosa.

O turismo é outra área com considerável potencial. Mais portugueses deveriam ter a oportunidade de descobrir a Sérvia, e mais cidadãos sérvios deveriam descobrir Portugal para além dos destinos que já conhecem, Lisboa e Porto, para onde a nossa companhia aérea nacional voa várias vezes por semana.

Permita-me também destacar a cultura e as indústrias criativas. Uma vez que tanto a Sérvia como Portugal têm identidades culturais fortes, e precisamente porque as nossas tradições são diferentes, o intercâmbio cultural pode ser particularmente enriquecedor.

Em última análise, vejo a maior oportunidade em passar de uma cooperação ocasional para uma rede mais sistemática de parcerias.

Como tem trabalhado para aproximar as comunidades empresariais sérvia e portuguesa?

Tem havido várias iniciativas concretas da nossa Embaixada para ligar as comunidades empresariais sérvia e portuguesa.

Uma delas foi a participação da Embaixada no Millennium Portugal Exportador 2025, no Porto, um dos principais eventos portugueses dedicados às exportações e à internacionalização empresarial. A Sérvia teve o seu próprio stand e aproveitou a oportunidade para estabelecer contactos diretos com empresas portuguesas. Estes contactos já resultaram em manifestações concretas de interesse em encontrar parceiros sérvios em áreas como marketing, assuntos públicos e relações públicas, produção de media e turismo, comércio e sourcing, indústria vitivinícola, bem como infraestruturas hídricas e municipais. As propostas vão desde a identificação de fornecedores e distribuidores sérvios até oportunidades de importação-exportação, projetos conjuntos e cooperação tecnológica.

Uma plataforma muito importante para nós tem sido, ao longo do meu mandato, a Web Summit em Lisboa. Tendo estado presentes durante anos, em 2025 a Sérvia apresentou cerca de 60 startups com os seus próprios stands, enquanto a delegação sérvia incluiu aproximadamente 300 inovadores, empresários e representantes de empresas. A importância deste setor para a Sérvia é ilustrada pelo facto de as nossas exportações de software terem ultrapassado 4,5 mil milhões de dólares.

Gostaria também de destacar o nosso trabalho de fortalecimento da rede de amizade sérvio-portuguesa e a sua utilização para desenvolver laços locais e empresariais. De 28 a 30 de maio de 2026, a Embaixada participou no primeiro encontro da Associação de Amizade Portugal-Sérvia em Torres Novas. O programa foi muito além do protocolo: além de uma receção com o Presidente da Câmara, uma sessão empresarial dedicada reuniu empresários sérvios e portugueses para apresentarem as suas empresas e explorarem oportunidades de cooperação direta.

No âmbito do programa empresarial, a Câmara de Comércio e Indústria da Sérvia fez uma apresentação abrangente do ambiente empresarial e de investimento da Sérvia, proporcionando às empresas portuguesas uma panorâmica das oportunidades de investimento na Sérvia e das possibilidades de estabelecer cooperação com parceiros sérvios. O programa incluiu também uma componente cultural que apresentou o património histórico e cultural da Sérvia.

Assim, o nosso foco tem sido muito prático: criar oportunidades para que empresas sérvias e portuguesas se encontrem diretamente, identifiquem parceiros e investidores e transformem contactos institucionais em cooperação empresarial concreta.

Qual o papel da cultura, do desporto e da música na aproximação entre os povos sérvio e português?

Diria que a cultura, o desporto e a música estão entre as formas mais eficazes de diplomacia, porque falam diretamente às pessoas, criando uma ligação humana imediata.

O desporto é uma ponte particularmente natural entre a Sérvia e Portugal. Ambos os países têm uma forte cultura desportiva e uma paixão genuína pela competição. Ambos os países têm atletas mundialmente conhecidos — Ronaldo e Đoković, que, dado o muito que contribuem para a visibilidade dos nossos países, estão entre os seus melhores diplomatas públicos. Embora a Sérvia não possa reivindicar muito sucesso no futebol, muitos dos nossos futebolistas jogaram em clubes portugueses e, dada a tradição internacionalmente reconhecida da Sérvia no basquetebol, no ténis e no polo aquático, encontro muitos adeptos dos nossos desportos aqui em Portugal.

A música é igualmente poderosa. As tradições musicais sérvias e as tradições portuguesas, como o fado, são distintas, mas ambas demonstram como a música pode expressar emoção e identidade, até memória coletiva. As diferenças culturais não separam necessariamente as pessoas; muito frequentemente, criam curiosidade e incentivam o diálogo, que também esperamos impulsionar ao trazer os nossos músicos a Portugal, onde seremos país convidado na edição de 2027 do festival “Terras Sem Sombra”. Talvez os portugueses encontrem então algo nas nossas tradições musicais de que gostem tanto como nós gostamos do fado na Sérvia!

Como vê a posição da Sérvia no atual panorama geopolítico europeu e mundial?

A Sérvia é um país europeu, geográfica, histórica e culturalmente, e, uma vez que o nosso futuro está estreitamente ligado ao futuro da Europa, a integração europeia continua a ser uma prioridade estratégica para a Sérvia e um quadro importante para o nosso desenvolvimento político e económico.

No entanto, não podemos ignorar o facto de vivermos num período de profunda transformação geopolítica. Muitas coisas estão em mutação: o ambiente de segurança na Europa mudou e as relações económicas estão a ser reavaliadas, enquanto questões como a segurança energética, a soberania tecnológica, a migração e a conectividade global adquiriram nova importância. É por isso que a Sérvia está a fazer o seu melhor para manter relações com uma ampla variedade de parceiros internacionais. No atual ambiente internacional, manter a comunicação e a capacidade de dialogar com diferentes atores é um importante instrumento diplomático.

Além disso, a estabilidade dos Balcãs Ocidentais continua a ser uma prioridade fundamental para a Sérvia. A nossa região tem uma história complicada e estamos plenamente conscientes de que a paz e a estabilidade não podem ser tomadas como garantidas, razão pela qual o diálogo e a cooperação regional são tão importantes para nós.

O nosso objetivo é proteger os interesses nacionais da Sérvia, permanecendo simultaneamente um parceiro europeu construtivo, contribuindo para a estabilidade regional e prosseguindo o nosso caminho europeu. Acreditamos que a diplomacia é particularmente importante precisamente quando as circunstâncias internacionais são difíceis.

Que desafios e oportunidades enfrenta a Sérvia na sua política externa, nomeadamente no equilíbrio entre as diferentes esferas de influência?

A Sérvia tem de navegar num ambiente de segurança europeu em rápida mudança, ao mesmo tempo que aborda as suas próprias prioridades nacionais e mantém relações com uma ampla variedade de parceiros internacionais, dada a complexidade do atual ambiente internacional.

Isto exige uma política externa centrada no diálogo e no pragmatismo, e baseada numa compreensão clara dos interesses nacionais. Acreditamos que manter a comunicação com diferentes parceiros é importante, particularmente num período em que as relações internacionais se estão a tornar cada vez mais fragmentadas.

Ao mesmo tempo, a integração europeia da Sérvia exige um trabalho substancial e contínuo. Não é simplesmente uma questão geopolítica; envolve reformas, reforço institucional, transformação económica e alinhamento com as normas europeias, que devem produzir resultados concretos em benefício de todos os nossos cidadãos.

É por isso que vejo o processo de integração europeia não apenas como um objetivo de política externa, mas também como uma oportunidade para a Sérvia continuar a modernizar as suas instituições e a sua economia.

O desafio é gerir diferentes relações de forma responsável, garantindo ao mesmo tempo que a Sérvia continua a ser um parceiro previsível e construtivo. Na minha opinião, a diplomacia consiste precisamente em criar espaço para a cooperação mesmo — ou especialmente — quando não é possível um acordo completo.

Como caracteriza a relação da Sérvia com os países lusófonos, em especial Cabo Verde?

Temos tradicionalmente mantido relações amistosas com o mundo lusófono, desempenhando Portugal um papel importante como ponte para a comunidade lusófona mais ampla.

A nossa relação com Cabo Verde é particularmente interessante e bastante emblemática das nossas relações com os países lusófonos de África. As relações diplomáticas foram estabelecidas em 1976 e têm as suas raízes nos contactos de longa data entre a Jugoslávia e os países do mundo em desenvolvimento, também no âmbito do Movimento dos Não-Alinhados. Há uma forte dimensão histórica na nossa relação, que vejo como uma excelente base a partir da qual olhar para o futuro e identificar novas áreas de cooperação prática.

Durante as minhas várias visitas a Cabo Verde, às quais regresso sempre com muito gosto, tive a oportunidade de me reunir com representantes de várias instituições e de constatar em primeira mão o potencial que existe em áreas como o turismo, a agricultura, a cultura, a educação e o desporto.

A educação pode ser uma ponte especialmente poderosa. Os programas de bolsas e académicos sérvios já ajudaram a criar ligações entre jovens dos nossos países. O programa “World in Serbia” trará vários novos estudantes à Sérvia este ano, do que me sinto muito orgulhosa. Estes contactos sobrevivem frequentemente durante décadas e criam redes que mais tarde se tornam valiosas nas relações diplomáticas, académicas e económicas.

Espero também que a nossa cooperação política e parlamentar se intensifique, na sequência de uma reunião entre os nossos ministros dos Negócios Estrangeiros durante a 81.ª sessão da AGNU, bem como da criação do primeiro grupo parlamentar de amizade com a Sérvia no parlamento de Cabo Verde.

Permita-me acrescentar que Portugal é bastante importante neste contexto, uma vez que o facto de estarmos aqui em Lisboa nos dá uma oportunidade valiosa de compreender melhor o espaço lusófono e de desenvolver ligações que se estendem para além da relação bilateral Sérvia-Portugal.

Que contributo pode a Sérvia dar para o reforço da cooperação regional nos Balcãs e na Europa do Sudeste?

A Sérvia tem tanto um interesse como uma responsabilidade de contribuir para a estabilidade e a cooperação regionais. A nossa posição geográfica significa que estamos estreitamente ligados a praticamente todos os grandes desenvolvimentos na Europa do Sudeste.

Sempre acreditei que a cooperação prática é a abordagem mais eficaz, e é exatamente essa a abordagem que a Sérvia tem praticado. Conectividade, infraestruturas, comércio, energia, turismo, educação e livre circulação de pessoas podem criar benefícios tangíveis e, ao mesmo tempo, construir confiança entre países que historicamente atravessaram períodos de tensão, mas que têm de cooperar se quiserem desenvolver-se.

A cooperação económica é particularmente importante. Quando empresas de países vizinhos trabalham em conjunto, quando as pessoas viajam, estudam e investem além-fronteiras, não só as sociedades se tornam cada vez mais interligadas, como as economias também beneficiam enormemente.

A Sérvia apoia também iniciativas destinadas a reforçar a cooperação económica regional e a aproximar os Balcãs Ocidentais do espaço económico europeu, e prova-o regularmente ao participar em numerosas plataformas e fóruns regionais, facilitando uma cooperação mais estreita.

Para mim, a cooperação regional não é uma alternativa à integração europeia. Pelo contrário, poder-se-ia dizer que Balcãs Ocidentais mais conectados e prósperos podem contribuir para uma Europa mais forte e mais estável.

A Expo 2027 em Belgrado está já a ser preparada. O que representa este evento para a Sérvia e para a região?

A EXPO 2027, que trará mais de 140 países de todo o mundo a Belgrado no próximo verão, é uma oportunidade excecional para a Sérvia e também para todos os Balcãs Ocidentais, pois colocará a nossa região no centro da atenção internacional.

O tema, “Jogar pela Humanidade – Desporto e Música para Todos”, é particularmente adequado devido ao tópico de que falámos nesta entrevista, sobre o desporto e a música serem linguagens universais, que unem pessoas de diferentes nacionalidades, gerações e origens culturais.

Para a Sérvia, a EXPO é também uma oportunidade de demonstrar a transformação que ocorreu no país e de apresentar as nossas capacidades em áreas como a inovação, a tecnologia, a cultura, as infraestruturas e as indústrias criativas. Por outro lado, não gostaria que a EXPO fosse vista simplesmente como uma exposição, uma vez que o seu verdadeiro valor reside nas relações que pode criar — entre países, empresas, universidades, instituições culturais e pessoas. Espero que o legado da EXPO 2027 seja medido não apenas em infraestruturas, mas também nas parcerias e amizades que dela surgirem.

Para a região, é também uma oportunidade importante de demonstrar que a Europa do Sudeste é capaz de acolher grandes eventos internacionais e de contribuir ativamente para conversas globais sobre o futuro.

Como pretende envolver Portugal e os parceiros lusófonos neste projeto da Expo 2027?

A EXPO, especialmente dado o seu tema, cria naturalmente oportunidades para Portugal e os países lusófonos, dada a sua forte tradição no desporto, na música e na criatividade cultural. Mas gostaria também de ver participação em áreas como a inovação, a educação, o turismo, a tecnologia e os negócios.

Portugal e os países lusófonos têm um contributo importante a dar à EXPO 2027, e espero muito que vejamos uma presença forte e visível deles em Belgrado. Não só isso — espero que as relações estabelecidas em Belgrado resultem em cooperação que continue para além da própria EXPO. Uma exposição pode durar três meses, mas uma parceria entre duas universidades, duas empresas ou duas instituições culturais pode durar décadas.

Por essa razão, vejo a Expo 2027 como uma oportunidade não só de convidar Portugal a Belgrado, mas também de aprofundar a relação entre a Sérvia, Portugal e a comunidade lusófona mais ampla.

Que mensagem gostaria de deixar a quem ainda não conhece Belgrado e que poderá visitar a cidade em 2027?

A minha mensagem seria muito simples: venham a Belgrado com a mente aberta e deixem que a cidade vos surpreenda, o que certamente acontecerá!

Belgrado é uma cidade com uma história muito longa, mas é também jovem e energética, em constante mudança. É uma cidade moldada e definida pelo encontro de diferentes culturas e civilizações, o que se reflete na sua arquitetura, gastronomia, música e vida quotidiana.

A confluência dos rios Sava e Danúbio é uma das caraterísticas mais belas da cidade, mas o que sei que os visitantes mais recordam, como os meus amigos do estrangeiro não se cansam de me dizer, é a sua atmosfera e a hospitalidade do seu povo.

A EXPO 2027 proporcionará uma excelente razão para visitar Belgrado, mas espero que os visitantes aproveitem a oportunidade para ir além dela e descobrir a própria Sérvia, o património cultural, a natureza, a comida, o vinho e a música pelos quais somos conhecidos.

Aos visitantes portugueses em particular, diria: venham descobrir um país europeu que talvez conheçam menos bem do que alguns dos vossos destinos tradicionais. Espero que cheguem como visitantes e partam como amigos e com vontade de regressar.

Foi distinguida como Melhor Embaixadora Acreditada em Portugal na segunda edição dos Prémios Raia Diplomática. Que significado tem para si este reconhecimento?

Recebi o reconhecimento com grande gratidão e um forte sentido de responsabilidade. Para mim, não é simplesmente um prémio pessoal. Vejo-o como um reconhecimento do trabalho que toda a equipa da Embaixada tem realizado para fortalecer a relação entre a Sérvia e Portugal.

O que torna o reconhecimento particularmente significativo para mim é que vem de uma instituição portuguesa e reflete uma valorização da importância das relações Sérvia-Portugal.

Vejo também esse reconhecimento como um incentivo para continuar. A diplomacia é uma profissão de longo prazo. Nem sempre se veem imediatamente os resultados do trabalho, mas cada conversa, cada novo contacto e cada iniciativa bem-sucedida podem contribuir para uma relação mais forte no futuro.

Que lições ou experiências da sua trajetória considera mais determinantes para o trabalho que desenvolve em Portugal?

Uma das lições mais importantes que a minha carreira diplomática me ensinou é que as relações internacionais dependem, em última análise, das pessoas.

É claro que a diplomacia envolve instituições, acordos, negociações e posições formais. Mas por trás de tudo isto estão indivíduos que têm de comunicar, compreender-se mutuamente e, em muitos casos, construir confiança ao longo de um longo período de tempo.

Aprendi também a importância de ouvir. A diplomacia não consiste simplesmente em explicar a posição do seu país; consiste igualmente em compreender as prioridades, sensibilidades e expectativas da outra parte.

Outra lição importante é a paciência. Algumas iniciativas diplomáticas levam anos a produzir resultados. Uma conversa que hoje parece relativamente pequena pode tornar-se a base para um projeto significativo no futuro.

Trabalhar em Portugal reforçou a minha convicção sobre a importância da diplomacia pessoal. Quanto mais viajo pelo país, me reúno com instituições portuguesas e contacto com diferentes comunidades, mais vejo quantas oportunidades existem para a Sérvia e Portugal trabalharem em conjunto.

A minha experiência ensinou-me que a boa diplomacia começa com respeito e curiosidade — respeito pelo outro país e curiosidade genuína pelo seu povo e pelas suas perspetivas.

O que mais a motiva no dia a dia da representação da Sérvia em Portugal?

Como acredito firmemente que a diplomacia é sobre pessoas, o que mais me motiva, dia após dia, é a possibilidade de criar ligações — ligações entre pessoas, instituições, empresas e culturas.

Representar o próprio país é uma grande responsabilidade, mas é também um privilégio. Cada dia oferece uma oportunidade de explicar melhor a Sérvia, corrigir equívocos onde existam e, igualmente importante, ouvir e compreender melhor Portugal.

A minha maior recompensa e, ao mesmo tempo, motivação adicional é quando vejo um contacto transformar-se em algo concreto: quando uma empresa começa a cooperar com um parceiro sérvio, quando estudantes descobrem oportunidades de estudar nos países um do outro, quando artistas colaboram, ou quando alguém que sabia muito pouco sobre a Sérvia fica genuinamente interessado em visitar. Podem parecer pequenas conquistas, mas a diplomacia é frequentemente construída precisamente a partir dessas pequenas conquistas e depende sempre de não descartar pequenos passos em direção a um objetivo maior.

Isso, em última análise, é o que me motiva: construir relações que possam durar mais do que qualquer mandato diplomático individual.A Embaixadora da Sérvia em Portugal aborda a cooperação, a geopolítica, os laços lusófonos, a Expo 2027 e o lado humano da diplomacia.

A Sérvia e Portugal podem situar-se em extremos opostos do continente europeu, mas, como explica a Embaixadora Ana Ilić nesta entrevista, estão unidos por uma longa amizade e por uma abertura partilhada a uma cooperação mais profunda. Quando os dois países se aproximam de 145 anos de relações diplomáticas, estabelecidas em 1882, a Embaixadora da Sérvia em Portugal reflete sobre uma relação marcada pelo respeito mútuo, por um diálogo político estável e por um significativo potencial por explorar.

Aborda as vias mais promissoras para a cooperação bilateral — das tecnologias de informação, inovação e energias renováveis à educação, turismo e cultura — e os esforços concretos da Embaixada para aproximar as empresas sérvias e portuguesas.

Analisa também a posição da Sérvia no atual panorama geopolítico europeu e global, o seu equilíbrio em matéria de política externa, os seus laços com países lusófonos como Cabo Verde e o seu contributo para a cooperação regional nos Balcãs e na Europa do Sudeste. Com os olhos postos na Expo 2027 em Belgrado, descreve o que o evento representa para a Sérvia e para a região e como Portugal e os parceiros lusófonos podem envolver-se.

Por fim, reflete sobre a distinção de Melhor Embaixadora Acreditada em Portugal nos Prémios Raia Diplomática 2025, as lições da sua carreira e o que a motiva diariamente no trabalho de representação da Sérvia em Portugal.

Como descreveria o atual estado das relações bilaterais entre a Sérvia e Portugal, mais de 140 anos após o estabelecimento de relações diplomáticas em 1882?

Temos muito orgulho em poder dizer que no próximo ano celebraremos 145 anos de relações diplomáticas entre a Sérvia e Portugal, dois países separados por quase todo o continente europeu, mas unidos por uma relação longa e amistosa. Ao longo destes mais de 140 anos, a Europa e o sistema internacional mudaram profundamente, tal como a Sérvia e Portugal, mas a relação entre os nossos dois países permaneceu caracterizada pelo respeito mútuo e por uma genuína vontade de manter o diálogo. Hoje, acredito que temos uma base muito sólida sobre a qual construir uma parceria ainda mais forte.

O nosso diálogo político é bom, marcado pelo respeito mútuo e pela compreensão entre os nossos dois países, apesar da diferença de posições que temos no que diz respeito ao Kosovo-Metohija.

Descreveria, por isso, as nossas relações bilaterais como positivas e estáveis, com contactos políticos muito bons e um potencial considerável de desenvolvimento futuro. Existe uma base importante de entendimento mútuo entre as nossas instituições, mas acredito que podemos tornar a nossa relação muito mais visível e dinâmica ao nível das nossas sociedades. É particularmente encorajador que exista um interesse genuíno de ambas as partes em descobrir novas áreas de cooperação. O meu papel como Embaixadora é ajudar a transformar esse interesse em iniciativas concretas e parcerias duradouras. Acredito que os nossos laços económicos, culturais, científicos e entre pessoas ainda têm considerável margem de crescimento.

Apesar da distância geográfica, a Sérvia e Portugal são, em muitos aspetos, mais próximos do que podem parecer à primeira vista. Ambas as sociedades atribuem grande importância à família, à cultura, à tradição, à hospitalidade e ao desporto, e estes valores humanos comuns constituem uma excelente base para uma maior aproximação.

Acredito também que a Sérvia e Portugal têm uma oportunidade particularmente interessante neste momento. A Sérvia é um país profundamente empenhado na Europa e no seu futuro, enquanto Portugal tem uma valiosa perspetiva europeia, atlântica e lusófona. A tarefa que temos pela frente não é, portanto, reinventar a relação, mas dar-lhe maior substância e visibilidade.

Que áreas de cooperação entre os dois países considera mais promissoras para aprofundar nos próximos anos?

Ocorrem-me várias áreas nas quais vejo um potencial muito significativo. Acima de tudo, a cooperação económica, particularmente em setores como as tecnologias de informação e a digitalização, nos quais a Sérvia tem registado resultados significativos, bem como a inovação e as energias renováveis, áreas em que podemos aprender com a rica experiência de Portugal, assim como a agricultura, o turismo, as infraestruturas e a indústria transformadora.

A Sérvia desenvolveu um forte ecossistema tecnológico e de inovação e dispõe de uma mão de obra altamente qualificada, enquanto Portugal acumulou considerável experiência em áreas como a transformação digital, as energias renováveis, o turismo e os serviços. Existem, portanto, oportunidades de cooperação não apenas baseadas no comércio, mas também no investimento, em empresas conjuntas e no intercâmbio de conhecimentos especializados.

Igualmente importantes são a ciência e a educação. Aquilo em que tenho trabalhado e que gostaria de ver mais é a cooperação direta entre universidades e instituições de investigação sérvias e portuguesas, bem como uma maior mobilidade de estudantes, investigadores e jovens profissionais. Tenho orgulho em dizer que o número de projetos em que cooperamos através de formatos da UE, como o Erasmus, está a crescer todos os anos. Os resultados destes intercâmbios e investimentos nem sempre são imediatamente visíveis, mas criam ligações duradouras entre sociedades. O mesmo se aplica ao curso de língua sérvia que criámos no ano passado na Universidade de Lisboa, do qual me sinto particularmente orgulhosa.

O turismo é outra área com considerável potencial. Mais portugueses deveriam ter a oportunidade de descobrir a Sérvia, e mais cidadãos sérvios deveriam descobrir Portugal para além dos destinos que já conhecem, Lisboa e Porto, para onde a nossa companhia aérea nacional voa várias vezes por semana.

Permita-me também destacar a cultura e as indústrias criativas. Uma vez que tanto a Sérvia como Portugal têm identidades culturais fortes, e precisamente porque as nossas tradições são diferentes, o intercâmbio cultural pode ser particularmente enriquecedor.

Em última análise, vejo a maior oportunidade em passar de uma cooperação ocasional para uma rede mais sistemática de parcerias.

Como tem trabalhado para aproximar as comunidades empresariais sérvia e portuguesa?

Tem havido várias iniciativas concretas da nossa Embaixada para ligar as comunidades empresariais sérvia e portuguesa.

Uma delas foi a participação da Embaixada no Millennium Portugal Exportador 2025, no Porto, um dos principais eventos portugueses dedicados às exportações e à internacionalização empresarial. A Sérvia teve o seu próprio stand e aproveitou a oportunidade para estabelecer contactos diretos com empresas portuguesas. Estes contactos já resultaram em manifestações concretas de interesse em encontrar parceiros sérvios em áreas como marketing, assuntos públicos e relações públicas, produção de media e turismo, comércio e sourcing, indústria vitivinícola, bem como infraestruturas hídricas e municipais. As propostas vão desde a identificação de fornecedores e distribuidores sérvios até oportunidades de importação-exportação, projetos conjuntos e cooperação tecnológica.

Uma plataforma muito importante para nós tem sido, ao longo do meu mandato, a Web Summit em Lisboa. Tendo estado presentes durante anos, em 2025 a Sérvia apresentou cerca de 60 startups com os seus próprios stands, enquanto a delegação sérvia incluiu aproximadamente 300 inovadores, empresários e representantes de empresas. A importância deste setor para a Sérvia é ilustrada pelo facto de as nossas exportações de software terem ultrapassado 4,5 mil milhões de dólares.

Gostaria também de destacar o nosso trabalho de fortalecimento da rede de amizade sérvio-portuguesa e a sua utilização para desenvolver laços locais e empresariais. De 28 a 30 de maio de 2026, a Embaixada participou no primeiro encontro da Associação de Amizade Portugal-Sérvia em Torres Novas. O programa foi muito além do protocolo: além de uma receção com o Presidente da Câmara, uma sessão empresarial dedicada reuniu empresários sérvios e portugueses para apresentarem as suas empresas e explorarem oportunidades de cooperação direta.

No âmbito do programa empresarial, a Câmara de Comércio e Indústria da Sérvia fez uma apresentação abrangente do ambiente empresarial e de investimento da Sérvia, proporcionando às empresas portuguesas uma panorâmica das oportunidades de investimento na Sérvia e das possibilidades de estabelecer cooperação com parceiros sérvios. O programa incluiu também uma componente cultural que apresentou o património histórico e cultural da Sérvia.

Assim, o nosso foco tem sido muito prático: criar oportunidades para que empresas sérvias e portuguesas se encontrem diretamente, identifiquem parceiros e investidores e transformem contactos institucionais em cooperação empresarial concreta.

Qual o papel da cultura, do desporto e da música na aproximação entre os povos sérvio e português?

Diria que a cultura, o desporto e a música estão entre as formas mais eficazes de diplomacia, porque falam diretamente às pessoas, criando uma ligação humana imediata.

O desporto é uma ponte particularmente natural entre a Sérvia e Portugal. Ambos os países têm uma forte cultura desportiva e uma paixão genuína pela competição. Ambos os países têm atletas mundialmente conhecidos — Ronaldo e Đoković, que, dado o muito que contribuem para a visibilidade dos nossos países, estão entre os seus melhores diplomatas públicos. Embora a Sérvia não possa reivindicar muito sucesso no futebol, muitos dos nossos futebolistas jogaram em clubes portugueses e, dada a tradição internacionalmente reconhecida da Sérvia no basquetebol, no ténis e no polo aquático, encontro muitos adeptos dos nossos desportos aqui em Portugal.

A música é igualmente poderosa. As tradições musicais sérvias e as tradições portuguesas, como o fado, são distintas, mas ambas demonstram como a música pode expressar emoção e identidade, até memória coletiva. As diferenças culturais não separam necessariamente as pessoas; muito frequentemente, criam curiosidade e incentivam o diálogo, que também esperamos impulsionar ao trazer os nossos músicos a Portugal, onde seremos país convidado na edição de 2027 do festival “Terras Sem Sombra”. Talvez os portugueses encontrem então algo nas nossas tradições musicais de que gostem tanto como nós gostamos do fado na Sérvia!

Como vê a posição da Sérvia no atual panorama geopolítico europeu e mundial?

A Sérvia é um país europeu, geográfica, histórica e culturalmente, e, uma vez que o nosso futuro está estreitamente ligado ao futuro da Europa, a integração europeia continua a ser uma prioridade estratégica para a Sérvia e um quadro importante para o nosso desenvolvimento político e económico.

No entanto, não podemos ignorar o facto de vivermos num período de profunda transformação geopolítica. Muitas coisas estão em mutação: o ambiente de segurança na Europa mudou e as relações económicas estão a ser reavaliadas, enquanto questões como a segurança energética, a soberania tecnológica, a migração e a conectividade global adquiriram nova importância. É por isso que a Sérvia está a fazer o seu melhor para manter relações com uma ampla variedade de parceiros internacionais. No atual ambiente internacional, manter a comunicação e a capacidade de dialogar com diferentes atores é um importante instrumento diplomático.

Além disso, a estabilidade dos Balcãs Ocidentais continua a ser uma prioridade fundamental para a Sérvia. A nossa região tem uma história complicada e estamos plenamente conscientes de que a paz e a estabilidade não podem ser tomadas como garantidas, razão pela qual o diálogo e a cooperação regional são tão importantes para nós.

O nosso objetivo é proteger os interesses nacionais da Sérvia, permanecendo simultaneamente um parceiro europeu construtivo, contribuindo para a estabilidade regional e prosseguindo o nosso caminho europeu. Acreditamos que a diplomacia é particularmente importante precisamente quando as circunstâncias internacionais são difíceis.

Que desafios e oportunidades enfrenta a Sérvia na sua política externa, nomeadamente no equilíbrio entre as diferentes esferas de influência?

A Sérvia tem de navegar num ambiente de segurança europeu em rápida mudança, ao mesmo tempo que aborda as suas próprias prioridades nacionais e mantém relações com uma ampla variedade de parceiros internacionais, dada a complexidade do atual ambiente internacional.

Isto exige uma política externa centrada no diálogo e no pragmatismo, e baseada numa compreensão clara dos interesses nacionais. Acreditamos que manter a comunicação com diferentes parceiros é importante, particularmente num período em que as relações internacionais se estão a tornar cada vez mais fragmentadas.

Ao mesmo tempo, a integração europeia da Sérvia exige um trabalho substancial e contínuo. Não é simplesmente uma questão geopolítica; envolve reformas, reforço institucional, transformação económica e alinhamento com as normas europeias, que devem produzir resultados concretos em benefício de todos os nossos cidadãos.

É por isso que vejo o processo de integração europeia não apenas como um objetivo de política externa, mas também como uma oportunidade para a Sérvia continuar a modernizar as suas instituições e a sua economia.

O desafio é gerir diferentes relações de forma responsável, garantindo ao mesmo tempo que a Sérvia continua a ser um parceiro previsível e construtivo. Na minha opinião, a diplomacia consiste precisamente em criar espaço para a cooperação mesmo — ou especialmente — quando não é possível um acordo completo.

Como caracteriza a relação da Sérvia com os países lusófonos, em especial Cabo Verde?

Temos tradicionalmente mantido relações amistosas com o mundo lusófono, desempenhando Portugal um papel importante como ponte para a comunidade lusófona mais ampla.

A nossa relação com Cabo Verde é particularmente interessante e bastante emblemática das nossas relações com os países lusófonos de África. As relações diplomáticas foram estabelecidas em 1976 e têm as suas raízes nos contactos de longa data entre a Jugoslávia e os países do mundo em desenvolvimento, também no âmbito do Movimento dos Não-Alinhados. Há uma forte dimensão histórica na nossa relação, que vejo como uma excelente base a partir da qual olhar para o futuro e identificar novas áreas de cooperação prática.

Durante as minhas várias visitas a Cabo Verde, às quais regresso sempre com muito gosto, tive a oportunidade de me reunir com representantes de várias instituições e de constatar em primeira mão o potencial que existe em áreas como o turismo, a agricultura, a cultura, a educação e o desporto.

A educação pode ser uma ponte especialmente poderosa. Os programas de bolsas e académicos sérvios já ajudaram a criar ligações entre jovens dos nossos países. O programa “World in Serbia” trará vários novos estudantes à Sérvia este ano, do que me sinto muito orgulhosa. Estes contactos sobrevivem frequentemente durante décadas e criam redes que mais tarde se tornam valiosas nas relações diplomáticas, académicas e económicas.

Espero também que a nossa cooperação política e parlamentar se intensifique, na sequência de uma reunião entre os nossos ministros dos Negócios Estrangeiros durante a 81.ª sessão da AGNU, bem como da criação do primeiro grupo parlamentar de amizade com a Sérvia no parlamento de Cabo Verde.

Permita-me acrescentar que Portugal é bastante importante neste contexto, uma vez que o facto de estarmos aqui em Lisboa nos dá uma oportunidade valiosa de compreender melhor o espaço lusófono e de desenvolver ligações que se estendem para além da relação bilateral Sérvia-Portugal.

Que contributo pode a Sérvia dar para o reforço da cooperação regional nos Balcãs e na Europa do Sudeste?

A Sérvia tem tanto um interesse como uma responsabilidade de contribuir para a estabilidade e a cooperação regionais. A nossa posição geográfica significa que estamos estreitamente ligados a praticamente todos os grandes desenvolvimentos na Europa do Sudeste.

Sempre acreditei que a cooperação prática é a abordagem mais eficaz, e é exatamente essa a abordagem que a Sérvia tem praticado. Conectividade, infraestruturas, comércio, energia, turismo, educação e livre circulação de pessoas podem criar benefícios tangíveis e, ao mesmo tempo, construir confiança entre países que historicamente atravessaram períodos de tensão, mas que têm de cooperar se quiserem desenvolver-se.

A cooperação económica é particularmente importante. Quando empresas de países vizinhos trabalham em conjunto, quando as pessoas viajam, estudam e investem além-fronteiras, não só as sociedades se tornam cada vez mais interligadas, como as economias também beneficiam enormemente.

A Sérvia apoia também iniciativas destinadas a reforçar a cooperação económica regional e a aproximar os Balcãs Ocidentais do espaço económico europeu, e prova-o regularmente ao participar em numerosas plataformas e fóruns regionais, facilitando uma cooperação mais estreita.

Para mim, a cooperação regional não é uma alternativa à integração europeia. Pelo contrário, poder-se-ia dizer que Balcãs Ocidentais mais conectados e prósperos podem contribuir para uma Europa mais forte e mais estável.

A Expo 2027 em Belgrado está já a ser preparada. O que representa este evento para a Sérvia e para a região?

A EXPO 2027, que trará mais de 140 países de todo o mundo a Belgrado no próximo verão, é uma oportunidade excecional para a Sérvia e também para todos os Balcãs Ocidentais, pois colocará a nossa região no centro da atenção internacional.

O tema, “Jogar pela Humanidade – Desporto e Música para Todos”, é particularmente adequado devido ao tópico de que falámos nesta entrevista, sobre o desporto e a música serem linguagens universais, que unem pessoas de diferentes nacionalidades, gerações e origens culturais.

Para a Sérvia, a EXPO é também uma oportunidade de demonstrar a transformação que ocorreu no país e de apresentar as nossas capacidades em áreas como a inovação, a tecnologia, a cultura, as infraestruturas e as indústrias criativas. Por outro lado, não gostaria que a EXPO fosse vista simplesmente como uma exposição, uma vez que o seu verdadeiro valor reside nas relações que pode criar — entre países, empresas, universidades, instituições culturais e pessoas. Espero que o legado da EXPO 2027 seja medido não apenas em infraestruturas, mas também nas parcerias e amizades que dela surgirem.

Para a região, é também uma oportunidade importante de demonstrar que a Europa do Sudeste é capaz de acolher grandes eventos internacionais e de contribuir ativamente para conversas globais sobre o futuro.

Como pretende envolver Portugal e os parceiros lusófonos neste projeto da Expo 2027?

A EXPO, especialmente dado o seu tema, cria naturalmente oportunidades para Portugal e os países lusófonos, dada a sua forte tradição no desporto, na música e na criatividade cultural. Mas gostaria também de ver participação em áreas como a inovação, a educação, o turismo, a tecnologia e os negócios.

Portugal e os países lusófonos têm um contributo importante a dar à EXPO 2027, e espero muito que vejamos uma presença forte e visível deles em Belgrado. Não só isso — espero que as relações estabelecidas em Belgrado resultem em cooperação que continue para além da própria EXPO. Uma exposição pode durar três meses, mas uma parceria entre duas universidades, duas empresas ou duas instituições culturais pode durar décadas.

Por essa razão, vejo a Expo 2027 como uma oportunidade não só de convidar Portugal a Belgrado, mas também de aprofundar a relação entre a Sérvia, Portugal e a comunidade lusófona mais ampla.

Que mensagem gostaria de deixar a quem ainda não conhece Belgrado e que poderá visitar a cidade em 2027?

A minha mensagem seria muito simples: venham a Belgrado com a mente aberta e deixem que a cidade vos surpreenda, o que certamente acontecerá!

Belgrado é uma cidade com uma história muito longa, mas é também jovem e energética, em constante mudança. É uma cidade moldada e definida pelo encontro de diferentes culturas e civilizações, o que se reflete na sua arquitetura, gastronomia, música e vida quotidiana.

A confluência dos rios Sava e Danúbio é uma das caraterísticas mais belas da cidade, mas o que sei que os visitantes mais recordam, como os meus amigos do estrangeiro não se cansam de me dizer, é a sua atmosfera e a hospitalidade do seu povo.

A EXPO 2027 proporcionará uma excelente razão para visitar Belgrado, mas espero que os visitantes aproveitem a oportunidade para ir além dela e descobrir a própria Sérvia, o património cultural, a natureza, a comida, o vinho e a música pelos quais somos conhecidos.

Aos visitantes portugueses em particular, diria: venham descobrir um país europeu que talvez conheçam menos bem do que alguns dos vossos destinos tradicionais. Espero que cheguem como visitantes e partam como amigos e com vontade de regressar.

Foi distinguida como Melhor Embaixadora Acreditada em Portugal na segunda edição dos Prémios Raia Diplomática. Que significado tem para si este reconhecimento?

Recebi o reconhecimento com grande gratidão e um forte sentido de responsabilidade. Para mim, não é simplesmente um prémio pessoal. Vejo-o como um reconhecimento do trabalho que toda a equipa da Embaixada tem realizado para fortalecer a relação entre a Sérvia e Portugal.

O que torna o reconhecimento particularmente significativo para mim é que vem de uma instituição portuguesa e reflete uma valorização da importância das relações Sérvia-Portugal.

Vejo também esse reconhecimento como um incentivo para continuar. A diplomacia é uma profissão de longo prazo. Nem sempre se veem imediatamente os resultados do trabalho, mas cada conversa, cada novo contacto e cada iniciativa bem-sucedida podem contribuir para uma relação mais forte no futuro.

Que lições ou experiências da sua trajetória considera mais determinantes para o trabalho que desenvolve em Portugal?

Uma das lições mais importantes que a minha carreira diplomática me ensinou é que as relações internacionais dependem, em última análise, das pessoas.

É claro que a diplomacia envolve instituições, acordos, negociações e posições formais. Mas por trás de tudo isto estão indivíduos que têm de comunicar, compreender-se mutuamente e, em muitos casos, construir confiança ao longo de um longo período de tempo.

Aprendi também a importância de ouvir. A diplomacia não consiste simplesmente em explicar a posição do seu país; consiste igualmente em compreender as prioridades, sensibilidades e expectativas da outra parte.

Outra lição importante é a paciência. Algumas iniciativas diplomáticas levam anos a produzir resultados. Uma conversa que hoje parece relativamente pequena pode tornar-se a base para um projeto significativo no futuro.

Trabalhar em Portugal reforçou a minha convicção sobre a importância da diplomacia pessoal. Quanto mais viajo pelo país, me reúno com instituições portuguesas e contacto com diferentes comunidades, mais vejo quantas oportunidades existem para a Sérvia e Portugal trabalharem em conjunto.

A minha experiência ensinou-me que a boa diplomacia começa com respeito e curiosidade — respeito pelo outro país e curiosidade genuína pelo seu povo e pelas suas perspetivas.

O que mais a motiva no dia a dia da representação da Sérvia em Portugal?

Como acredito firmemente que a diplomacia é sobre pessoas, o que mais me motiva, dia após dia, é a possibilidade de criar ligações — ligações entre pessoas, instituições, empresas e culturas.

Representar o próprio país é uma grande responsabilidade, mas é também um privilégio. Cada dia oferece uma oportunidade de explicar melhor a Sérvia, corrigir equívocos onde existam e, igualmente importante, ouvir e compreender melhor Portugal.

A minha maior recompensa e, ao mesmo tempo, motivação adicional é quando vejo um contacto transformar-se em algo concreto: quando uma empresa começa a cooperar com um parceiro sérvio, quando estudantes descobrem oportunidades de estudar nos países um do outro, quando artistas colaboram, ou quando alguém que sabia muito pouco sobre a Sérvia fica genuinamente interessado em visitar. Podem parecer pequenas conquistas, mas a diplomacia é frequentemente construída precisamente a partir dessas pequenas conquistas e depende sempre de não descartar pequenos passos em direção a um objetivo maior.

Isso, em última análise, é o que me motiva: construir relações que possam durar mais do que qualquer mandato diplomático individual.

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